O transtorno de ansiedade generalizada e eu


Transtorno de Ansiedade Generalizada = TAG

Situação 1

Hora de dormir. Mais tarde do que eu deveria, na verdade. Mas acabo sempre por postegar. Tenho muita coisa para fazer e só as faço depois que a minha filha dorme. Tenho prazos, trabalhos, assuntos pendentes, roupa para lavar. Nunca estou sem atividade ou obrigação. Na minha cabeça sempre martela o “mais você deveria estar fazendo aquilo“. Mal de professor, que nunca tem tempo livre, imagino. Nada pode ficar para trás, então o sono é sempre o sacrificado. Durmo poucas horas por noite, muito menos do que eu dormia há uns 4 ou 5 anos. E não posso culpar a maternidade: minha filha dorme 11 horas direto.

Deito. Peço para o meu marido não dormir antes de mim pois tenho medo de ficar sozinha. Fico mais ansiosa ainda. Não durmo se sou a última a dormir ou se tenho que passar apagando as luzes, fechando a casa. Desde pequena. Pulo na cama antes do último, correndo. Ele, já acostumado e bastante compreensivo até, sempre me espera.

Mas às vezes ele não aguenta e dorme. Desligo a TV pois tenho medo de perder o sono. Como se desse para estar mais acordada do que isso. Fico lá, sozinha, no silêncio e no escuro. “Meu Deus, como é tarde! Preciso dormir pois amanhã acordo cedo!”

Reviro na cama. Meu marido ronca.

“Nossa! Ele voltou a roncar. Por que será? Preciso marcar um cardiologista para ele urgente. Faz tempo que não faz controle da pressão. É fogo, viu? Se eu não marcar e não arrastar, não vai. Será que tomou o remédio? Vou levantar lá e vou olhar. Não, não vou. Porque aí vou perder o sono. Amanhã falo com ele. Será que vou lembrar? Preciso falar assim que tocar o rádio senão vou esquecer. E eu ando tão esquecida. Não pode ser cansaço, estou de férias da escola. O blog me faz dormir tarde, mas não me cansa a esse nível. Será que tenho alzheimer? Todo mundo na família morre disso, do lado do meu pai e da minha mãe! Ixi! Esqueci de ligar para a minha mãe hoje. Será que ela melhorou da virose? Ela estav tão caidinha. Será que era virose mesmo ou ela pegou um médico ruim? Tomara que meu pai tenha trabalhado de casa hoje. Ele estava tão cansado na semana passada. Espero que esteja bem. Aquele monte de cigarros que ele fuma por dia me deixa desesperada. Será que se eu comprar um cigarro daqueles elétricos ele para? Não, ele já avisou todo mundo que não quer nem tentar. Mas eu acho que ele está rouco. Será que é câncer? Hum…câncer… eu preciso fazer meus exames de controle de novo. Não sei onde guardei o pedido médico. Vou levantar e procurar. Deixa de ser louca, Thaise. Amanhã você procura. Precisa acordar cedo. Mas não consigo parar de pensar nisso. Vou pensar em outra coisa, vou pensar em outra coisa. Ixi…3 da manhã já. Daqui 2 horas e meia tenho que levantar. Esqueci de colocar a pomada da Catarina na bolsa. Será que vou lembrar amanhã cedo? Tenho que falar para o Gustavo assim que o despertador tocar, para ele me ajudar a lembrar. E tinha outra coisa que eu tinha que falar para ele. O que era mesmo? Caramba….viu como estou esquecendo as coisas? Amanhã vou procurar no Google se alguém da minha idade pode ter alzheimer. Preciso lembrar de pegar o leite também. Será que é melhor levar a lata inteira ou pegar uma pequena porção? Mas aí guardo onde? Num pote? Num saquinho? O pote específico de leite eu usei para guardar maisena para passar nas brotoejas da Catarina…Está calor hoje. Será que ela está suando? Que roupa o Gustavo colocou para ela dormir? Tomara que não esteja suando, senão teremos mais brotoejas amanhã. Será que ele lembrou de passar o Amília?…”

E assim vai até a hora que o relógio desperta. Eu não dormi nada e todo mundo espera que eu esteja normal, no humor, rendimento e disposição no dia seguinte. Fico mais frustrada e ansiosa ainda. Com uma pessoinha que depende 100% de mim.


Situação 2

Deito para dormir morrendo de sono e durmo rápido.

Tenho um pesadelo. Daqueles reais. Eu morri e minha filha ficou sozinha.

Acordo sem ar. Taquicardia. Pernas bambas. Coração vai sair pela boca.

“Ufa! Foi só um sonho!” – primeiro pensamento.

“Mas e se foi um aviso? Algum tipo de premonição? E se…? E se…?”

Não durmo de novo. Voltamos à frustração e ansiedade do item 1.


Situação 3

Estou vendo um seriado dos meus preferidos na TV, minha filha brinca animada no chão com a cachorra. Estamos numa boa em casa. Já almoçamos, já foi a soneca da tarde, já está de fralda trocada. De repente, uma sensação de desgraça começa a pairar em mim. Me invade. Meu coração começa a bater muito rápido, perco o ar, sinto frio na barriga, as pernas ficam bambas, tenho ânsia, muita tontura. Quero chorar. Quero ficar deitada quieta. Quero sair correndo e gritando. Quero pular da janela. Preciso correr. Preciso. Não vou aguentar, vou explodir. Que desgraça é essa? Quando vai acontecer? Não sei, mas vai ser terrível. E vai ser logo. Tento me acalmar, não dá. Não passa. É horrível. É desesperador. Meu peito vai explodir.

Faço de tudo para que ninguém veja, para que ninguém perceba. Especialmente minha filha, que se assusta quando me vê fora do eixo. Ela é muito pequena para entender.

Demora para passar e fico péssima quando passa. Tontura, cansaço, sensação de que passou um trem por cima de mim. Quero ficar deitada e quieta, lendo alguma coisa para colocar o cérebro em stand-by. Mas ninguém entende e não demora muito para ser taxada de folgada.


Situação 4

Quando alguém fica sabendo que você tem TAG:

-Nossa! Mas faz um esforço e afasta esses pensamentos. Você não acredita em Deus? Você tem uma filha linda! Você tem uma família maravilhosa, um marido que te ama e te apoia. Eu afasto esses pensamentos ruins cada vez que eles vêm na minha cabeça.

O que eu quero dizer: Obrigada! Eu não sabia que era possível me sentir mais merda ainda. Eu devo ser uma merda mesmo para ter tudo isso e ainda assim me sentir mal. O que tem de errado comigo? Por que eu não consigo controlar a minha cabeça?

O que eu digo: Sorrio amarelo e aceno com a cabeça.

-Ai…para com isso de tomar remédio. Psiquiatra dá remédio e esses remédios aí são péssimos. Não toma isso não. Um veneno.

O que eu quero dizer: Se você tem uma infecção na garganta, você toma antibiótico. Ela não some com o poder da mente. Provavelmente você vai ficando pior e pior até ser medicado. Quando você não consegue viver direito em virtude do TAG, você toma antidepressivo. É o mesmo raciocínio.

O que eu digo: Sorrio amarelo e aceno com a cabeça.

-Transtorno de ansiedade? Isso é falta do que fazer. Arruma alguma coisa para te ocupar e você vai ver como nem tem tempo de pensar essas besteiras.

O que eu quero dizer: Eu tenho 6 turmas de redação, passo boas horas dos meus dias corrigindo. Preparo aulas, faço planejamento. Sou autora de livros infantis. Tenho um blog, um perfil profissional no instagram, um no facebook e mais o snapchat. Faço toda a parte comercial e administrativa do blog também. Não, não é só escrever qualquer coisa e publicar. Tenho uma filha de 1 ano e 10 meses e optei por não colocá-la na escola de jeito nenhum antes dos 2 anos. Quase nada para fazer, não é? Preparo provas para concursos públicos e vestibulares. Sou tradutora também e meus prazos são curtíssimos. Tenho casa, marido, cachorra, família. Estudo uma série de coisas por conta. E você, faz o que mesmo?

O que eu digo: Sorrio amarelo e aceno com a cabeça.

-E você acredita em terapia?Usa esse dinheiro em alguma coisa melhor para você.

O que eu quero dizer: Em terapia não, mas acredito em duendes.

O que eu digo: Sorrio amarelo e aceno com a cabeça.


Acho que na maioria das vezes, as pessoas falam tentando ajudar (sou uma otimista) mas não pensam direito nas coisas que dizem. De maneira geral, as pessoas estão acostumadas a repetir frases feitas que não correspondem à realidade, sem um pouco de criticidade e raciocínio: “Depois de 1 ano, seu leite vira água”, “Coloca essa criança na escola para desenvolver e socializar!”, “Eu dei açúcar para o meu filho antes de 2 anos e ninguém morreu”, “Depressão é falta do que fazer”, “Nossa! Acordei deprimido hoje mas joguei os pensamentos longe e agora estou ótimo” etc etc etc

O Transtorno de Ansiedade Generalizada é um transtorno sério e, muitas vezes, incapacitante. A boa notícia é que psicoterapia aliada à medicação correta (portanto um BOM psiquiatra) tem taxas altíssimas de sucesso no tratamento.

Não é normal viver como descrevi acima. Procure ajuda. Se for em São Paulo, posso até indicar alguns profissionais. Se você conhecer alguém que está vivendo assim, ajude. Às vezes sozinha a pessoa não consegue perceber o quanto precisa.

Muita tranquilidade para todo mundo – mas um pouco de respeito e empatia também vão bem,

Ise.

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12 Comentários

joelma
Reply 20 de outubro de 2016

Nossa, os últimos dias tenho me sentido exatamente como você descreveu, ansiosa, perna tremer, acabar o folego, coração acelerado, e pensamentos loucos, desesperadores... do tipo que se eu for ao shoping vao sequestrar minnha filha, quando ela estiver em idade de ir a casa de coleguinha se o pai da outra coleguinha estiver não vou deixa-la ir....nao assisto noticiários principalmente agora com tantas crianças morrendo por causa de bombardeis, terremotos, me sinto culpada por minha filha esta tao bem e eu com medo de que lhe aconteça algo. Sempre vou dormir por ultimo que meu marido porqu saio arrumando tudo depois que ela dorme, mas vou correndo para a cama, e me cubro bem rapidamente com o coração acelerado , com a sensaçao que stou sendo seguida, observada, que tem alguem so esperado nos deitarmos para entrar em nossa casa.Aff, debulhando-me em lagrimas agora, porque agra que percebi que nao falo nada disso para o meu marido, ao nao ser breves comentarios de como estou me sentindo, mas e se acharem que estou fazendo charme, que sou preguiço, ai penso nao posso falar disso, preciso ser forte...

Mas na sua opniao acha que devo procurar um medico, ou isso vai passar?

Obrigada por ter sido tao clara, me deu forças pra compartilhar do mesmo sentimento.

    Thaise Pregnolatto
    Reply 20 de outubro de 2016

    Oi, querida! Em primeiro lugar, um abraço. Sei bem como é! Acho sim que você deve procurar um psiquiatra, isso não é jeito de ninguém viver. Minha vida melhorou MUITO depois do tratamento psiquiátrico. Muito mesmo. Voltei a ser eu mesma, a viver. Estou aqui se quiser conversar! Um beijo e boa sorte!

Bianca Steindorff
Reply 25 de janeiro de 2016

Nunca li uma descrição tão perfeita! Não se sinta sozinha! Meu bebê está com quase 4 meses, e ando com muito medo de que aconteça algo ruim com ele ou comigo. Tenho TAG, mas não tinha associado os fatos! #tamujunto

    Thaise Pregnolatto
    Reply 18 de setembro de 2016

    Eu tenho uma amiga muito querida que tem TAG e pira achando que pode acontecer algo de muito terrível com o bebê dela...deve ser horrível. Eu pelo menos acho que vai acontecer comigo e ponto...

Paula
Reply 7 de janeiro de 2016

Perfeito! Chega de preconceito!

Viviane
Reply 6 de janeiro de 2016

Tag, professora universitária, 1 filha Catarina, marido, gata e uma vida agitada....me identifiquei! ;)

Phê Brito
Reply 6 de janeiro de 2016

Itens 3 e 4: história da minha vida T_T

Mais foi a perda de uma grande amizade, por causa da sindrome do pânico que tenho, que sei lá como, me ajudou a controlar mais os sintomas. Claro que mais de 10 anos de teria e remédio ajudaram, enfim...

Paula
Reply 5 de janeiro de 2016

Estou me sentindo mais normal depois do seu relato, Thaise, rs.
Confesso que postergo a visita ao médico há algum (longo) tempo.
Durante os preparativos do meu casamento, que foi no início de 2015, senti que isso se agravou e logo após o casamento parecia que o mundo estava sobre meus ombros. Todo o meu animo se foi e eu sentia uma tristeza, uma falta de ânimo sem explicação. E como vc disse, me deixava muito pior não saber nem explicar. Sinto que já melhorei, de uns dois meses pra cá, mas sei que ainda preciso de ajuda.
Muito legal vc compartilhar.

    Thaise Pregnolatto
    Reply 18 de setembro de 2016

    Não deixe de se cuidar. Quando a bomba do TAG explode é muito mais difícil de controlar! Boa sorte!

      Ana Paula Prado
      Reply 16 de novembro de 2016

      Sofro com o TAG há 3 anos, embora tenha sofrido com ansiedade desde pequena. Meu tratamento não tem surtido efeito. Indicaria alguém em São Paulo?

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