A amamentação, a sororidade, os grupos de apoio


A ciência sabe que os primatas superiores não aprendem a mamar por instinto como os outros mamíferos. Contam com os reflexos do bebê e a disposição da mãe de aprender e ensiná-lo. Mas como essa mãe aprende o que precisa ser feito? Lendo, claro. Mas aí ela aprende a teoria e nem sempre a teoria dá conta do recado – especialmente no meio da noite, quando o bebê não para de gritar ou quando a mãe tem de ouvir bronca do pediatra porque o filho não está ganhando os 20g diários de peso que se espera dele.

REA (1989), ao se referir à alimentação na escala animal, observa que entre os primatas superiores os filhotes não buscam de uma forma ativa a mama ou até mesmo a mãe. Para que ele sobreviva, é necessário que a mãe leve a mama à sua boca. Para a autora essa relação mãe primata – filhote revela-se como um fato parcialmente reflexo e parcialmente aprendido. Seguindo esse raciocínio, ela conclui que aprender a amamentar para os humanos é uma tarefa bastante complicada, uma vez que ela é historicamente determinada.

Como essa fêmea ensina seu filhote a mamar?

“Simples”: com ajuda das outras fêmeas da comunidade que já amamentaram. ALMEIDA e GOMES (1998) chamaram essa relação da amamentação de “híbrido natureza-cultura”  e eu achei a definição genial.

Percebam as minhas aspas no simples aí em cima porque essa relação de apoio e sororidade não é pouco complexa em uma sociedade que aceitou a impossibilidade da amamentação, que acredita na superioridade do leite de vaca em oposição ao leite humano, que dá 4 meses de licença para as recém-mães no trabalho, que inunda a jovem de mãe de bicos artificiais, que receita fórmula porque a mãe “só” tem colostro ainda nos primeiros dias de vida do bebê, que exige visitar um recém-nascido assim que ele chega em casa, que grita para todo mundo que a mamadeira também tem amor.

Mas quem está falando de amor aqui? Estamos falando de uma cultura que mina todos os dias o aleitamento materno e suas possibilidades de sucesso com desinformação atrás de desinformação, desserviço atrás de desserviço e mitos atrás de mitos. “Só colostro” não é problema. O colostro é importantíssimo para os primeiros dias do bebê. Riquíssimo em açúcares e também funciona como sua primeira vacina. O leite vai “descer” e o bebê tem reservas para esperar enquanto isso não acontece. Seu estômago é minúsculo e por isso ele mama picadinho e várias vezes. Além disso, o leite materno tem uma digestão muito mais rápida do que o leite artificial. Este último cai como uma feijoada de domingo no estômago do bebê e o faz dormir “satisfeito”.

Uma mãe que vê seu filho recém-nascido chorando de hora em hora, pode erroneamente pensar que seu leite não está sendo suficiente. Ela precisa de alguém que diga que não, que está tudo certo, que é assim, que ela deve amamentar seu bebê em livre-demanda, que ele irá se regular sozinho com o tempo, que veja se a pega está correta, que ajude com as posições possíveis para amamentar, que ensine a colocar o bebê no peito, que ensine a usar o sling e o balde. Ela precisa que as outras pessoas assumam todo o resto da sua vida para que ela possa se dedicar exclusivamente a ensinar o bebê a mamar, a descansar sempre que possível para garantir a produção de leite, que garantam boas refeições a ela.

Isso é cultura de amamentação que foi se perdendo com o tempo. Eram as mães, tias, avós, irmãs mais velhas que faziam esse trabalho de apoio à puérpera. Hoje, são muitas as filhas de mães que já não amamentaram e esse envolvimento da sociedade com o nascimento do bebê se restringe ao visitar e levar presentes.

ORLANDI (1985) aponta como um dos fatores do declínio do aleitamento materno as mudanças da estrutura familiar no sociedade moderna urbana. Reforçando esse pensamento, o autor argumenta que a jovem mãe “não tem mais o apoio, a ajuda e o incentivo dos parentes mais velhos (avós, tias, irmãs, etc.), elementos facilitadores do aleitamento materno”.

Essa jovem mãe que não encontra o apoio entre as outras fêmeas da comunidade deveria poder contar com os agentes da saúde. Enfermeiras, pediatra e obstetra, mas não raramente são esses os primeiros a orientar erroneamente – na minha opinião, menos porque são patrocinados por grandes empresas e mais por puro desconhecimento operativo da coisa mesmo! – e a convencer a mãe que amamentar nem é tão importante assim. As mães, cansadas física e emocionalmente, sem apoio, sem saber onde aprender, temendo pela saúde de seus filhos (o peso bruto parece valer mais do que a curva..), desistem.

NAKANO (1986) , ao estudar as representações sociais do aleitamento materno em um grupo de mulheres, conclui que a amamentação se manifesta por um sentimento ambíguo e contraditório, oscilando entre o desejo e o fardo. Mesmo as mulheres que vêem o aleitamento como algo biologicamente natural percebem em sua prática limites e sentem necessidade de desenvolverem aprendizagens, evidenciando que o ato de amamentar não é tão instintivo como se pensa.

E o pai? O pai é muitas vezes machista ao delegar os cuidados do rn única e exclusivamente à mãe. Ele é parte tão importante dessa rede de apoio e não pode se omitir com a desculpa superficial de “eu não tenho peitos”.

Em épocas de internet, redes sociais e grupos, a gente encontra pessoas com os mesmos interesses e vai formando redes de apoio à amamentação modernas, que acabam por pegar o lugar daquela cultura familiar ausente de acolhimento “técnico” à nova mãe e ao bebê.

Eu tenho um grupo de amigas que nasceu pela necessidade de encontrar um lugar-comum no aleitamento.

Minha filha nasceu 7 meses antes da filha da Aline, uma amigona que eu conheci online em grupos de “tentantes” (mulheres tentando engravidar). Durante o primeiro mês de amamentação dela e da Laura, ela teve uma fissura, mastite, problemas com a pega. Eu sabia que ela queria muito amamentar e me senti na obrigação de apoiá-la, uma vez que eu também tive muitas dificuldades no início da amamentação. Depois vieram a Fabi e a Mari. A Fabi era leitora do meu antigo blog e a Mari estudou comigo na escola. Elas conheciam a Aline de um outro grupo online de apoio ao parto humanizado.turma

A Mari teve uma série de dificuldades porque entraram com leite artificial no Gustavo ainda na maternidade, em virtude de hipoglicemia. Ele chegou a ficar uns dias na UTIneo, inclusive. Foi somente com uma consultora de amamentação que conseguiu reverter o quadro e ir para a amamentação exclusiva.

A Fabi teve fissuras gigantescas nos seios. Ela amamentava chorando o tempo todo. Os peitos sangravam muito. Concomitante a isso, a Anna Clara perdia peso loucamente. Ela chegou ao terceiro mês de vida com o peso do nascimento. As pessoas diziam para ela que ela estava matando a filha dela e ela se manteve firme. Veio aqui em casa na saída de um dos milhões de pediatras que visitou e eu a ensinei a colocar o mamilo na boca do bebê sem machucar, uma coisa que eu havia aprendido no banco de leite. Tão simples, tão boba e que mudou a história das duas. Mas a amamentação estava engatada e a Anna Clara continuava sem ganhar peso. Achou a pediatra que a apoiou a tentar sem leite artificial, fez milhões de exames, foi ao banco de leite. E lá está a Anna Clara, gigante, linda, de bochechas rosas e covinha. Seguiu com amamentação mista nos primeiros meses e até agora ninguém sabe o que foi que aconteceu. Mas não desistiu da amamentação e  tendo sucesso na introdução alimentar vai manter só o peito, como ela sempre quis.bebes3

Foi a Fabi quem trouxe a Débora para o nosso grupo, amiga do marido dela. A Débora fez implante e com muita luta e visitas ao banco de leite, amamentou exclusivo com um peito só – o peito que não havia tido a totalidade de seus ductos cortados. Teve problemas, entretanto, quando voltou a trabalhar e ficou muito nervosa. Não conseguia ordenhar e fazer um estoque razoável em um peito só. Entrou com a amamentação mista também, mas não desistiu da amamentação e a Helô é nossa bochechuda sorridente.

A Fabi trouxe também a Jéssica para o nosso grupo, que havia me arrumado no meu casamento. O Theo nasceu e o leite demorou dias e dias para descer. Ela foi ao banco de leite, obteve ajuda especializada e está na amamentação exclusiva até hoje, fazendo uma introdução alimentar linda, respeitosa e de muito sucesso.

bebes2Recentemente, eu trouxe a Erika para o grupo. Ela é minha amiga de infância e como 99% das mulheres, estava com dores para amamentar, dúvidas naturais e o baby blues não estava ajudando. A Mari já foi à casa dela, a Fabi ensinou a técnica que mostrei de colocar o peito na boca do bebê sem doer (lindo, né?)…e apesar de tudo, as coisas estão entrando nos eixos. O Guilherme é o nosso caçulinha…

Mulheres muito guerreiras, de quem tenho muito orgulho e vi o suor escorrer, mês após mês, para manter a amamentação.

Na prática, sinto que amamentei não só um bebê, mas também a Laurinha, o Gustavo, o Theo, a Anna Clara, a Helô e o Guilherme. Muito orgulho de ver tantas histórias de amamentação de sucesso em que eu tive um pontinho de participação. E por isso eu me sinto muito mal ao ver textos e pessoas desestimulando a amamentação e dizendo para uma mãe que QUER amamentar desencanar e seguir a vida. Quem quer amamentar recebe bombas desestimulantes todos os dias, não precisam também da minha participação. E é por isso que o meu apoio às mães que não amamentaram e gostariam de ter amamentado vem em forma de informação. Só a informação nos dá autonomia para escolher de verdade o que queremos para nós, os nossos corpos e os nossos filhos, além da força para lutar contra o status quo. Nadar contra a maré só é possível em equipe. E podem contar comigo se precisarem de mais uma para completar o time.

Beijos,

Ise.

Obs.: Não tenho fotos com o Gui da Erika porque ele ainda é muito pequeno e estou esperando para visitar <3 Mas nos falamos no whatsapp todo dia.

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4 Comentários

Karina Rinaldo
Responder 5 de outubro de 2015

Parabéns pelo blog Thaise! Não pude deixar de ler a história de vocês e de como uma ajudou a outra a ter força, segurança e seguir em frente! Me senti na obrigação de complementar sua história: Ao longo desse ano tive o prazer e a felicidade de conhecer 9 personagens dessa história. A começar pela Aline, Thiago e a Laurinha, que sem muitas delongas formam uma familia linda e muito segura em suas decisões, que sabem educar e amar ao mesmo tempo e não se deixaram levar por esses desestímulos ao aleitamento, o resultado maior vcs já conhecem a fofura da Laurinha! Depois me trouxeram mais uma família especial, Fabi, Victor e Anna que são exemplos de persistência e cumplicidade, que amadureceram junto com o crescimento e desenvolvimento da Anna, que provaram que amar e amamentar representa uma boa parte senão a quase totalidade da saúde, da alegria e da beleza da Anna Clara. E por fim tive o prazer de conhecer a Mariana, o Luiz Fernando e o Gustavo e que apesar de pouco menos de tempo e convivio já deu pra perceber que também são pessoas especiais, que buscam a cada dia aumentar seu conhecimento e aplica-lobda melhor maneira para o crescimento do Gustavo. Sim, sou a pediatra desses 3 anjos lindos! E apesar de parabeniza-los a cada consulta pela persistencia em amamentar e pela forma de como conduzem seus bebes, achei por especial deixar isso registrado nessa história! Parabéns Mamaholics e também Papaholics, afinal de contas 50% desse sucesso é merito desses papais tão dedicados, presentes em todas as consultas :-) também! Por fim faço questão de deixar minha última contribuição a essa história linda, já que tambem me sinto parte dela: Além de pediatraholic também posso me considerar uma mamaholic afinal ainda amamento minha filhotinha de 1 ano e 9 meses com o mesmo amor e carinho que eu fiz desde a primeira mamada! Saibam que dificuldades para amamentar todas as mulheres podem ter mas para cada uma de vocês existe uma solução mágica: Acreditar, persistir e ter muita paciência! Boa mamada para todas!

    Thaise Pregnolatto
    Responder 6 de outubro de 2015

    Perfeito, Dra! Não tenho uma vírgula para complementar! Quisera eu que todas as mães encontrassem uma Dra Karina na vida!

Melina Tonon
Responder 4 de outubro de 2015

Ganhei Cecília na quarta. Meu leite só desceu no domingo a noite. Sábado pela manhã ela começou a gritar de fome. Foi desesperador saber que os dois bancos de leite de Ctba só funcionavam de segunda a sexta. Desesperador. Como se pudesse escolher o dia em que precisaria de ajuda. Graças a Deus após eu começar a ter leite foi tudo perfeito. Já tínhamos aprendido na maternidade a fazer a pega correta e eu me encaixo no 1% de mulheres que não tiveram problemas com a amamentação. O que foi essencial, pois ficaria sem apoio aqui no interior.

    Thaise Pregnolatto
    Responder 4 de outubro de 2015

    Eu não tenho certeza, mas acho que todos eles funcionam de segunda a sexta. É uma crítica pertinente, mas em tese se seu obstetra ou pediatra estão bem alinhados, você não precisaria do BLH em esquema de emergência, eles teriam de dar conta do seu problema até segunda de manhã.

    Por isso a relação da sociedade com a mãe e o bebê é tão importante. Você tendo um apoio de quem passou por isso recentemente, saberia que 5 dias é a média de tempo que o leite demora para descer, que não houve nada de anormal. Que o seu colostro super dava conta do recado uma vez que o estômago dela não aguentaria uma quantidade grande de alimento e que os bebÊs choram por um milhão de motivos, especialmente nos primeiros dias após o nascimento. Te falariam sobre as técnicas de extero-gestação e você dormiria tranquila até segunda...

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