A dor do parto e o terrorismo


Queridxs,

Como já vieram me perguntar mais de uma vez, vou explicar aqui: eu fiz cesárea. Por necessidade e de emergência, é verdade, mas já havia sido muito opção há muito tempo – amplamente discutida com a minha médica, inclusive, que é mãe de 4 filhos, todos de parto normal. 

Eu, Thaise, conhecia os benefícios do parto normal e ciente de todos os riscos, optei pela cesárea. Eu pude escolher. Eu não fui enganada. Eu faço cara de lâmpada cada vez que alguém diz que eu só opta pela cesárea quem está mal informada. Tenho preguiça. Tenho todos os meus motivos para justificar a minha decisão, mas acho que isso nem cabe aqui. Se eu ficasse grávida cem vezes, eu faria cento e uma cesáreas. 

Isso não me impede de lutar pela causa da propriedade absoluta do corpo da mulher. Muito pelo contrário. Quero que todas possa escolher, informadas e conscientes da sua escolha. Quero que toda mulher possa ter papel ativo no planejamento de todos os detalhes do seu parto. Quero que nenhuma mulher seja enganada pelo médico. Quero que as mulheres possam escolher independente do quanto tenham possibilidade de pagar. Independente do que diz o plano de saúde. Independente dos pitacos alheios. Com muita informação. Eu sou a primeira a passar todo mundo que chega para mim dizendo que quer parto normal para a Aline, que entende das dificuldades milhões e trilhões de vezes mais que eu. Porque parto não é assunto para se escolher um time e viver de briguinhas. Parto é luta de todas. Pelo direito inalienável ao nosso corpo. 

Então vai ter muito texto de parto normal SIM! E vai ter muita ocorrência de mulher apoiando mulher sim. E vai ter muita defesa do direito ao seu próprio corpo sim. 

Tudo isso para dizer que nem percam tempo escrevendo comentários defendendo este ou aquele tipo de parto. Eu não vou aprovar. Tem um milhão de blogs e comunidades no Facebook para quem quer brincar de guerrinha. Aqui não.

Nossa pegada é outra.

Beijos,

Ise.


Vamos falar de dor?

Vamos começar do começo. Dói, dói bastante para a maioria, mas cada um tem seu jeito e seu limite para dor, concorda?

Acho que o acontecimento parto/nascimento não pode só ser resumido a isso.

Quando alguém diz para mim que não quer parto normal por causa da dor, eu fico aqui me perguntando por qual motivo nunca ninguém avisou essa mulher que existe analgesia?

Humanização é isso gente. Engana-se quem acha que parto humanizado é só entrar na banheira, usar bola, receber massagem… Vai muito além, eu te garanto!  O principal é respeitar as escolhas da gestante usando sempre as evidências científicas. E não é frescura, como já ouvi de muitos por aí.

Se essa mulher deseja um parto normal, mas sente muito medo da dor, poxa, vamos trabalhar isso de alguma forma, e se mesmo assim ela ainda tem medo, vamos em frente com a opção da analgesia. Por que não?

Verdade seja dita: existe o momento certo para entrar com ela e isso deve ser muito bem avaliado pela equipe que está acompanhando. Pode ser um tiro no pé  se dada na hora errada.

É preciso também informar o que analgesia pode acarretar de consequências. Não é nenhum bicho de sete cabeças, mas uma intervenção pode, vejam bem a palavra: PODE, gerar outras intervenções. Se a mulher escolher assim, vamos lá.

Num próximo post vou trazer mais claramente a questão da analgesia, baseado nas evidências mais atuais sobre o assunto.

O que vejo muito também, é dizerem: “Sentir dor em 2015? Isso é absurdo”.

É absurdo para você, mas para mim e para um outro tantão de gente pode não ser. Se essa frase vier do seu médico então, já comece daí a duvidar se ele realmente apoia a causa.

Não posso querer impor a alguém algo que para mim pode ser óbvio, porque pessoas simplesmente pensam diferente.

Essa cultura que se criou acerca da dor do parto assustou e assusta muita mulher.

Você precisa saber que existem formas de lidar com a dor, existem técnicas não farmacológicas para alívio e existe sim uma boa analgesia, feita na hora certa, para quem a deseja realmente.

Eu aposto meu mindinho que se mais mulheres soubessem de tudo isso, a coisa mudaria de figura.

Vamos pensar fora da caixa: se fosse a dor da morte, nós não teríamos chegado até aqui. E olha, a natureza é sábia.

Para quem deseja sentir tudo, do começo ao fim, deixe isso claro para quem te acompanha.

Exemplificando meu caso…

Eu combinei com a minha médica e minha parteira que não iria usar analgesia – mesmo que no alto da partolândia eu pedisse – e de fato eu pedi. Estávamos tão alinhadas que elas, a todo momento, me faziam lembrar dos motivos pelos quais eu havia decidido pelo modo natural. Até que eu parei, saí da partolândia por um minuto, lembrei e não pedi mais. E foi a melhor experiência da minha vida, sentir a intensidade da força que eu tinha que fazer, sentir cada centímetro do corpinho dela saindo. Foi MARAVILHOSO. Lembro da dor? Não. Se eu tivesse usado analgesia poderia ser bom? Sim, poderia também. Mas ter conseguido aquilo que eu desejava foi a sensação mais indescritível da minha vida.

A dor nos remete muitas vezes ao sofrimento e isso também está muito ligado ao tratamento que você recebe durante seu trabalho de parto ou com experiências que você escutou por aí, daí a importância de estar com gente que te apoia, sempre que possível.

Voltamos a pergunta. Dói? Dói sim senhor. Pode ser bom mesmo assim? Pode. E como pode!

alinekisALINE KIS tem 26 anos e foi através de um parto natural – onde ela renasceu e se reencontrou – que recebeu a Laura nos braços. É formada em Ciências Contábeis mas repensou toda a vida após a maternidade e tornou-se doula através do GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa). Aline atende Grande São Paulo e é possível encontrá-la através do e-mail: alinekisdoula@gmail.com. Não deixe de seguir a página dela no Facebook e no Instagram @alinekisdoula.

 

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1 Comentários

Pamela
Responder 1 de dezembro de 2015

Lindo post! Parabéns!

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