“ANTES SÓ DO QUE MAL ACOMPANHADA” – considerações de uma mãe solteira por opção


Olá, pessoal!

São emocionantes as histórias das mães guerreiras que encontro por aí nesse mundo de maternidade cibernética. Esta me emocionou muito e gostaria de compartilar com vocês. É a história da Dani, do Piauí.

Quer participar do “Palavra de Mãe” ou “Palavra de Pai”? Mande um e-mail para contato@mamaholic.com.br.

Ótimo sábado a todos,

Ise


Vou contar a história das minhas gestações e o que aprendi com cada uma delas.

Conheci o pai da Ana Luísa, minha filha que hoje tem 8 anos, quando tinha 25. Eu cursava Publicidade e Propaganda e ele Administração. Ele era o típico filho de família abastada e eu classe média. No inicio, eu meio que não me apeguei muito, tinha acabado de sair de um namoro complicado, queria me divertir. Mas com o tempo fui me apaixonando e namoramos por 1 ano e três meses. O fim veio quando ele passou no vestibular para uma faculdade particular de Fisioterapia, comemoramos juntos mas sabia que não passaríamos de uma semana juntos, afinal quem quer entrar numa faculdade amarrado?

Dito e feito: uma semana após o inicio das aulas, ele terminou comigo. Sofri muito, chorei por uma semana, mas passado isso me levantei e segui em frente. Menstruava normalmente, mas após dois meses do término, minha menstruação não veio, eu continuava sozinha. Fui a minha endocrinologista pois tenho problemas na tireoide e de vez em quando isso acontecia. Fiz todos os exames e as taxas todas normais. A Dra me indicou ir ao ginecologista pois poderia ser uma inflamação. Marquei quatro consultas e na última eu finalmente consegui ir.

Era quinta à noite, três de maio de 2007. Durante o exame de rotina, a Dra Marta me questionou se eu estava suspeitando de gravidez. Muito assustada eu disse que não. Ela se levantou, mandou eu me vestir e ir à mesa dela. Quando me sentei ela olhou bem nos meus olhos e disse: “Daniella, você esta grávida e é de 5 a 6 meses. Você não sentiu nada de diferente?”. Na hora fiquei em estado de choque, eu ria e chorava ao mesmo tempo. Ela passou os exames de pré natal com urgência. Liguei para uma amiga, que hoje é minha comadre, e pedi que fosse à clínica se encontrar comigo. Contei às atendentes dos exames e todas me felicitaram e choraram comigo. Minha amiga ficou muito feliz e me levou ao shopping para comemorar. Eu liguei para meu irmão mais velho Júnior  (hoje faz 8 anos que ele faleceu) e disse que precisava falar com ele. Marcamos no quiosque do shopping após a faculdade dele. Comprei um par de sapatinhos vermelhos de lã, mandei embrulhar. Liguei mais de mil vezes para meu ex para contar a ele, mas ele não atendia e nem retornava.

Contei ao meu irmão da maneira mais fácil que encontrei. Dei o sapatinho embrulhado para que ele abrisse. Ao ver o que era, ele fumou dois cigarros seguidos, tomou uma dose de uísque pura e duas cervejas. Após isso, ele levantou, me abraçou e disse: “Estou com você para o que for, mas papai vai te matar.”

Na sexta pela manhã cedo, faltei ao trabalho e fui fazer meu primeiro ultrassom, sozinha. Minutos antes de entrar na sala de exames, meu ex me ligou. Atendi e ele disse: “Nossa você me ligou e deixou muitos recados! O que aconteceu de tão urgente?” Então eu disse sem piscar que estava na clínica esperando para fazer uma ultrassom pois estava grávida. O telefone ficou mudo por uns 10 minutos, eu o chamava e ele não respondia. Até que eu disse que estava sendo chamada e ele disse que quando terminasse tudo que ligasse para ele ir me buscar. Foi lindo o exame, ouvir o coração dela e saber que era uma menina. Saí da sala levando uma foto da minha princesa. Corri à uma lan house, queria pesquisar nomes enquanto esperava meu ex. Fui de Ayra a Cristina e não consegui escolher.

Enfim fomos ao shopping almoçar e lá contei tudo a ele. Ele não expressava nada, estava mais em choque que eu. Eu disse que ele não era obrigado a nada, que assumiria minha filha sozinha, que não precisava de esmola. Mas ele disse que não era nenhum moleque e que iria assumir. Perguntou quem sabia e eu respondi, mas pretendia contar a minha mãe ainda naquele dia e a meu pai em seguida. Ele se ofereceu para estar comigo mas achei melhor não.

Ao sair de lá, recebi a ligação do meu irmão do meio Daniel dizendo que estava comigo e que já havia contado a minha irmã mais velha, Mara, que mora em Brasilia. Assim que ele desligou, ela me ligou desesperada, chorando muito. Me disse para contar logo para a mamãe, mas eu precisava de um tempo. Fui pra casa e ao chegar, fui direto ao meu quarto. O telefone fixo tocou e, minutos depois, minha mãe veio ao quarto chorando. Sentou na ponta da minha cama e perguntou se era verdade. Eu confirmei e choramos muito juntas.

Passou o sábado e eu não sabia como contar ao meu pai. Sempre tive muito medo de decepcioná-lo e, após a gravidezda minha irmã – que já era mãe solteira –  havia prometido que só teria filhos após o casamento. Mas Deus quis diferente. Então no domingo antes do almoço, eu e minha fomos ao quarto deles para falar com meu pai. Meu irmão Júnior ficou na porta para ajudar e o Daniel na sala. Mamãe foi quem falou: “Ilcimar, a Daniella tem uma coisa a dizer”. Mas como eu não conseguia nem levantar a cabeça, ela disse “Ela esta grávida de cinco meses, descobriu na quinta.” Meu pai entrou no banheiro e trancou a porta. Saímos e fomos para a cozinha da minha casa, que fica no fundo, eu chorava muito. Após o almoço, meu irmão viu que papai tinha saído. Meu pai passou uma semana sem falar comigo, eu me escondia dele no meu quarto. Na sexta seguinte, no meio da manhã, ele me liga. Eu estava trabalhando e fiquei sem saber o que fazer. Ao atender, ele me perguntou se estava bem, se tinha me alimentado. Eu disse que sim. Ficou mudo uns dois minutos e então ele disse: “Filha, amo vocês.”

Meu mundo parou de girar naquele momento. Tudo ficou mais fácil, mais gostoso. Liguei para minha mãe, irmã e irmãos para contar. Os pais do meu ex só souberam depois e ficaram muito felizes. Passado isso tudo foi uma correria danada para preparar todo o enxoval.

No dia 03 de junho, completei 27 anos grávida da ANA LUÍSA, nome escolhido após assistir a novela da época onde a personagem era uma mulher dedicada à família e ao marido. Após descobrir a traição dele, ela resolve dar uma reviravolta na sua vida e sai por cima.

A família do pai da Ana é muito festeira, eles organizaram um arraial. Fui convidada e, no dia da festa, toda caracterizada, ele veio me buscar junto com sua irmã. Pediram para falar com meus pais e eu não achei estranho. Nós sentamos na sala e ele levantou, pegou minha mão e disse: “Eu vim aqui hoje para saber se você aceita se casar comigo.” Fiquei em choque, eu ainda era muito apaixonada por ele. Respondi chorando que sim. Meus pais nos parabenizaram e fomos à festa, onde fomos o casal de noivos.

Começou mais uma corrida em busca de casa para morarmos. Mas nem tudo era flores. A gestação não veio acompanhada de enjoo, nem nada, só câimbras, mas tinha um vazio que eu não sabia explicar. Meu pai era extremamente dedicado, carinhoso e atencioso. Mandava lanche, me ligava, comprava coisas… ele fazia o papel dele e do pai da Ana. Quando buscávamos um local, eu pensava no espaço para a Ana crescer, na segurança e conforto dela e ele pensava nos churrascos. Eu relevava, estava grávida e apaixonada. Enfim conseguimos uma casa a poucos quarteirões dos pais dele, alugamos e eles mobiliaram com móveis da loja deles.

Infelizmente, eu não poderia ter um parto normal pois aos três meses perdi 40% do líquido aminiótico, sem saber que estava grávida achei que era apenas água da piscina. 7 dias após completar os nove meses, a cesariana foi marcada. Era uma terça nublada, dia 21 de agosto de 2007. Fui à Igreja pedi proteção, me arrumei e fomos à maternidade. Eu, meus pais e meu irmão Júnior. Meu outro irmão ficou cuidando dos meus sobrinhos. Arrumamos tudo e fiquei esperando o chamado. Minha mãe e minha amiga-comadre me acompanharam na sala de parto. Foi um parto rápido, tranquilo. Ana Luísa nasceu com 3,475g medindo 50cm. Linda, rosada, saudável.

Bom, alguns podem perguntar: mas onde estava o pai? Ele tinha saído para comprar bebidas.

Quando saímos do centro cirúrgico, meu pai estava muito emocionado nos aguardando na porta. A Ana foi levada pelo pai ao quarto. Foi muita agitação, quase não consigo descansar. Mas minutos após o parto, passei pelo primeiro momento de aborrecimento com minha sogra. A mesma insistia em tirar a Ana do berçinho para mostrar a todos que entravam, sendo que a medica havia recomendado que não fosse feito isso pois a Ana estava com icterícia e esse contato poderia piorar. Ao pedir ajuda ao meu noivo, o mesmo me disse que tivesse paciência, afinal era a primeira neta dela.

A partir daí, vi o que me esperava. A ida para a casa dos meus pais foi tranquila. Meu pai havia preparado um quarto lindo, pintou a parede colocou os nichos e o berço, presente dos avós paternos, e uma cama de casal. Mas em momento algum o pai da Ana se sentiu à vontade para ficar. No começo ele ia nos ver todos os dias, depois começou a alternar e não ligava. Quando a Ana fez 15 dias, chamei o Júnior no quarto e disse que não queria mais me casar. Ele avisou meus pais que ficaram muito aliviados pois sabiam que não era o momento para casamento. Ao contar para o pai da Ana, ele não aceitou. Levou a irmã dele para conversar comigo mas não havia volta. Então o inferno começou realmente. A mãe dele não aceitava minha recusa, me fez chantagem e criou muitos conflitos, tanto que meu pai teve que intervir me defendendo.

O pai da Ana se afastou e passou sete meses sem ter contato com ela, não porque eu não deixasse, mas porque ele não queria. Aí eu cansei, não era justo com minha filha, ela tinha um pai. Então o procurei e marquei um encontro no shopping. Levei a Ana toda arrumada. Ele chorou ao vê-la. Conversamos e ficou acertado que ele poderia vê-la sempre, mas a cada 15 dias eu iria com ela no sábado ou domingo passar o dia na casa dele. Então eu fiz esse papel. Levava a Ana na maior boa vontade, queria que ela tivesse contato com sua família paterna, mas pra mim era muito dificil. Sempre voltava cansada física e emocionalmente.

Ela foi crescendo, e no aniversario dela de um ano, juntamos as duas famílias para celebrar. Foi quando comecei a fazer bolos, docinhos, lembrancinhas e decoração. Tudo idealizado por mim e realizado com a ajuda da minha mãe, pai e irmãos. Quando ela fez dois anos comecei a namorar. Então eu a deixava na casa do pai,  ia pra casa do meu namorado e a buscava a noite, mas a avó paterna não estava satisfeita, queria mais. Um belo dia recebo no meu trabalho a intimação para uma audiência para discutir a guarda compartilhada da minha filha. Surtei. Chorei muito, xinguei. Foi horrível. Falei com meu pai, fomos ao advogado e o mesmo me orientou a não acordar nada.

No dia da audiência, meu pai foi comigo. O pai da Ana nem nos olhava, era visível que ele não queria estar ali. Não houve acordo e ele deu andamento ao processo. Mesmo assim as visitas não cessaram. Ah, vale ressaltar que haviam visitas mas pensão não.

Nesse mesmo ano, meu irmão Júnior faleceu. Ele era viúvo há um tempo mas nunca superou a perda, então ele se enforcou em casa. Foi um momento de muita dor pra todos e, a partir daí, assumi a posição de alicerce da minha família. Por incrível que pareça, o pai da Ana foi um suporte muito importante pra mim. Ele esteve comigo no dia do velório, no enterro e nos 15 primeiros dias. Até cheguei a pensar que poderíamos ter uma volta, mas não era bem assim. Quando ele se reaproximou da gente, quando ela tinha sete meses, nós nos encontrávamos às escondidas. Eu ainda apaixonada e mesmo magoada, me entregava àquela situação que hoje vejo só me fez mal. Aguentei até os dois anos da Ana, aí eu o coloquei contra a parede: ou me assumia ou acabava ali aquela situação. Então ele me disse: “Por que mudar o que está bom?” Bom pra ele que me tinha na hora que queria e continuava solteiro. Cansada disso tudo, pus um ponto final e nunca mais atendi suas ligações no meio da noite, até elas parrarem.

Quando ela fez quatro anos, fomos intimados pela justiça a participar de um mutirão para resolver nosso caso. Ele foi todo de advogada e eu fui sozinha mas muito bem orientada por meu advogado. A advogada dele quis me humilhar, me diminuir, me marginalizar para a juíza. Ouvi tudo calada, mas quando chegou minha vez de falar, a juíza ficou pasma com tudo que contei. Enfim resolvemos a questão das visitas e eu joguei pensão nele. Foi horrível ouvir dele que suas necessidades eram mais importantes que as da filha. Até a juíza se aborreceu e meteu nele mais do que havia pedido. Então, a partir dali, a Ana vai a cada 15 dias passar o final de semana e as férias são divididas.

Não foi fácil a adaptação dela, muitas vezes saí de casa de madrugada para buscá-la pois ela chorava me chamando. Hoje ela enfrenta outras questões, faz terapia para conseguir entender a relação com o pai, pois ele ainda é distante dela. Atualmente ele está noivo e ela faz terapia para aceitar. Tivemos muitos embates por questão de pensão. Hoje procuro respirar fundo, mas ainda tenho muitos aborrecimentos. Não deixo ela saber dessas coisas, pois não quero que ela sofra. Ultimamente ele tem buscado mais estar com ela, mas ainda deixa para os dias que ela estará com ele. Ela ganhou um celular de aniversário, seria uma forma de facilitar a comunicação entre eles. Mesmo assim, é raro ele ligar ou mandar whats pra ela. Me preocupo muito com o bem estar físico e emocional dela por isso acabo fazendo o papel de apaziguadora em muitas situações. Não é nada fácil, mas precisa ser feito.

Bom, agora é a vez da gestação do João, que hoje tem 1 ano e 9 meses.

Conheci o Mauro pela internet através do site Badoo. Entrei pois estava cansada de levar porradas da vida. Trocamos email e mensagens por mais ou menos três meses, até que finalmente marcamos um encontro. Eu tinha muito medo, mas estava muito curiosa. Não era meu primeiro relacionamento via internet, mas esse era o primeiro na mesma cidade. Marcamos em um restaurante movimentado, ele foi muito gentil, simpático. Conversamos muito até começar a chover. Como eu ainda tinha que pegar minha mãe, decidimos ir embora.

Ao irmos para carro, ele tentou um beijo mas eu disse que ainda não. Fui deixá-lo em casa e lá rolou um beijo rápido. Marcamos outro encontro e fomos nos conhecendo cada vez mais. Mas em momento algum assumi compromisso ou o apresentei em casa. Nos víamos quando eu ia caminhar, ia ao shopping, na faculdade. Quando eu sentia que estava começando a ficar muito sério, eu sumia. Tinha medo de sofrer de novo e me afastava. Quando sentia falta dele, o procurava, assim foi durante dois anos. Até que no primeiro dia da festa de Folguedos, uma festa junina que tem todos os anos aqui na minha cidade, saímos e quando fui deixa-lo lá para se encontrar com os amigos, ele me pediu em casamento. Eu aceitei, mas tinha a condição de casarmos antes do final do ano. Isso foi em junho, vocês nem imaginam a correria.

No final de semana seguinte, o apresentei a minha família e filha, que já estava com seis anos. Meu pai levou o maior susto mas viu o amor que tínhamos e abençoou. Organizar um casamento em seis meses foi uma loucura mas foi muito gostoso. Então nos casamos na igreja no dia 29 de Dezembro de 2012. Foi tudo lindo. Inicialmente viemos morar na casa dos meus pais, ele tinha acabado de mudar de emprego e era mais viável. Éramos muito felizes, a Ana o aceitou super bem. Ele era o pai que ela não tinha: ele brincava, ensinava tarefa, assistia filmes, jogava e também sabia como chamar a atenção dela. Mas de repente, ele começou a mostrar um lado que eu não conhecia: o ciúmes excessivo.

Tudo começou quando fomos ao churrasco de nascimento do filho de um dos nossos casais de padrinhos. Só tinha amigos íntimos dele. Os homens estavam em uma mesa e as mulheres do outro lado. De repente, ele cismou que um dos amigos estava olhando demais pra mim e que eu retribuía. Juro a vocês que ainda hoje não sei do que ele estava falando. Ele começou a gritar comigo para irmos embora. Como sou mulher de pimenta ardida nas veias, ignorei. Ele veio até mim e me pegou pelo braço. Os amigos interviram mas resolvi ir embora antes do pior. Fomos discutindo muito, até que ele me acusou claramente de estar me exibindo e gostando. Não aguentei, vi um posto de gasolina, entrei nele, o coloquei para fora do carro e o deixei lá sozinho.

Quando cheguei em casa, ele já estava lá na porta sentado me esperando. O deixei entrar mas o mandei arrumar uma mochila e ir pra casa da mãe dele, pois daquele jeito não o queria por perto. Ele precisava pensar na burrada e depois conversaríamos. Ele foi e no final do dia voltou para casa. Conversamos mas em momento algum ele pediu desculpas. Como éramos recém casados, eu relevei. Mas desde então quando saíamos, eu ficava no pé para que ele não bebesse. Não adiantou pois mesmo sóbrio ele criava situações.

Ele começou a ter ciúmes do pai da Ana e isso me incomodava demais. Começou a me pressionar para engravidar, pois eu tinha um laço eterno com outro homem mas não com ele. Mais uma vez cedi, pois tudo o que queria era viver em paz com meu marido. Quando fizemos seis meses de casados, descobri a gravidez. Dessa vez estava com um mês e meio. Foi uma maravilha, todos amaram a notícia. Até a Ana ficou muito feliz por ganhar um irmão. Era tudo flores, carinho, amor.

Quando completei o terceiro mês e os enjoos começaram a aumentar, tudo mudou bruscamente. Eu enjoava com tudo, perfume, cores, vozes. Conversei com meu obstetra e ele me recomendou repouso e conversar com meu marido já que era a primeira gestação dele. Fiz tudo isso, ele disse que entendia e que iria ser mais compreensivo e amoroso do que já era. Pura conversa. Ele se irritava porque eu só queria estar deitada, por que eu não tinha disposição para nada. Eu explicava de novo que não estava fácil trabalhar o dia todo sem poder descansar nem no horário de almoço, que os enjoos não me deixavam comer nem dormir direito. Ele se fechava aborrecido.

familiaPassou a vigiar minhas redes sociais e qualquer frase ou foto que eu compartilhasse, imediatamente recebia um email ou mensagem no celular questionando o porquê de ter feito. Estava exausta física e emocionalmente. Ele começou a roncar muito e meu medico me pediu para mudar de quarto, pois o sono era extremamente importante. Meu medico explicou pessoalmente pra ele a situação e ele disse entender, mas continuava me cobrando, me questionando.

Cheguei ao limite de me odiar e pensar em por fim a tudo, mas lembrei que não era só eu, que tinha um bebê em jogo e que ele não tinha culpa. Então resistia. Tive várias crises nervosas. Chorava copiosamente no trabalho e em casa, por duas vezes na presença da minha mãe e da Ana. Isso acabou comigo.

Meu médico o chamou para uma conversa e foi curto e grosso: deixe-a em paz, senão o bebê poderá ter sequelas graves. Mas só resolveu por uma semana. Tudo continuou, o que mudou foi a minha disposição em me deixar magoar. Eu simplesmente passei a ignorar, o tratava como estranho. Mas ainda ficava triste por ver no que meu casamento havia se transformado.

Um belo dia, ele cismou em fazer uma sessão de fotos. Gente como é que eu teria disposição para sorrir para fotos se estava exausta, cheias de manchas pelo corpo do estresse, olheiras e tudo o mais? Não aceitei e foi mais uma briga. Quando fiz sete meses, depois de ser mais uma vez acusada de negligência etc, eu o mandei sair de casa. Ele estava no trabalho e eu também, mas ele saáa antes de mim, então o mandei para casa e arrumar uma mochila básica que depois mandava o resto, eu não queria mais viver daquele jeito. Cheguei até a dizer que preferia a agressão física a essa psicológica que ele estava fazendo, mas o que mais me aborrecia era a falta de consciência dele diante de tudo. Ele dizia que não estava fazendo nada demais, que eu é que tinha mudado, que a culpa era minha.

Quando minha mãe foi me buscar no trabalho, contei a ela aos prantos, pedi que fossemos para a casa da minha tia para dar tempo dele sair. Enrolamos e fomos pra casa umas duas horas depois. Ao chegar, minha mãe viu que ele estava no quarto me esperando e me pediu para conversar numa boa, que ouvisse e que desse uma chance. Que casamento não era só flores.

Então o ouvi e quando ele terminou de dizer tudo, ele me ouviu calado. Mas eu disse tudo mesmo, até coisas de antes da gravidez. Chorando, ele disse que queria ficar. Eu disse que tudo bem, mas que se ele pisasse na bola, um pequeno deslize que fosse, que ele estaria fora.

Continuamos dormindo separados, não era fácil pra mim ficar longe dele naquele momento, já que na primeira gestação também não tive essa presença, mas era o saudável a fazer.

No dia seguinte, conversei com meu medico e disse a ele que iria fazer a laqueadura. Não queria mais filhos. Ele me disse que só faria com o consentimento do meu marido! Expliquei  que isso era uma decisão minha mas que iria falar com ele. Fomos juntos conversar com o doutor e mesmo sem querer ele disse que concordava, que o corpo era meu e que dois filhos estavam bom pra mim. Mas ate o último instante, meu obstetra me questionou se estava certa da minha decisão pois após realizada ninguém desfaria. Eu continuava afirmando – mesmo hoje arrependida, mas no momento era o melhor.

A calmaria só durou duas semanas, então me fechei de vez. Liguei para a mãe dele, para a irmã e para dois amigos de infância que ele tinha como irmãos, precisava que alguém abrisse os olhos dele para tudo que ele estava fazendo com a gente, mas não adiantou. No dia do nascimento do João, 28 de Fevereiro de 2014, enquanto eu estava no quarto à espera da chamada para o centro cirúrgico, houve mais uma briga.

Ele tem pavor de sangue. Já havíamos acertado que minha mãe e minha comadre, que era enfermeira, me acompanhariam. Do nada ele resolveu mudar tudo. A mãe dele estava no quarto e foi contra, sabia que ele iria desmaiar e atrapalhar, ele não a ouviu. Insistiu até discutirmos aos berros, então minha mãe, pela primeira vez interferiu e o mandou se calar e me respeitar. Chamou o meu médico, contou a situação e o médico o mandou esperar na sala de espera. Ele quis questionar mas o doutor não permitiu.

O João, que já estava encaixado, subiu. Foi 1 hora e 30 minutos de parto, onde meu medico subiu sobre meu peito para empurrar a barriga e depois a esposa dele, também obstetra. Eu estava muito nervosa. Minha mãe viu em meus olhos o medo e me tranquilizou, mas não adiantou. Vi minha comadre com a roupa cheia de sangue e quase desmaiei. Finalmente João Belo veio ao mundo, pesando quase 4kg e medindo 49,5cm. Ele não chorou, estava cansado da luta. Mas não tinha problema algum. O vi muito rápido, mas minha mãe o acompanhou até o fim. As enfermeiras elogiaram muito ele, que era um anjo que era o único no berçário que não chorava. Ali esqueci de tudo e resolvi sobreviver por meus filhos.

Confesso que a volta pra casa me dava muito medo, mas era preciso. Continuei distante. Ele entrava no quarto, via o João, tentava se aproximar mas eu não queria. Estava muito magoada e não queria pensar em mais nada naquele momento. Queria ter tranquilidade em meu resguardo para que nada afetasse mais ao João. Mas mais uma vez ele não soube respeitar e insistia em querer conversar. Minha mãe tentou convencê-lo, meu pai, a mãe dele mas nada adiantava. Então quando o João fez uma semana, ele saiu de casa. Eu pedi que saísse para que eu pudesse me recuperar tranquilamente e disse que depois conversaríamos, mas ele agiu de forma brusca.

A saída dele não trouxe sossego. Meu celular era bombardeado constantemente e diariamente com muitas mensagens grosseiras, acusadoras e injustas. A cada dez mensagens ele mandava uma dizendo que não era aquilo, que queria voltar mas nunca um pedido de desculpas. Então, assim que João fez três meses, ele mandou uma mensagem que foi o ponto final de tudo. Eu estava decidida a ir buscá-lo para voltar pra casa, já havia combinado de ir no sábado na casa da mãe dele para conversar, mas ele se precipitou e me mandou uma mensagem me acusando de discriminar meu filho porque ele seria negro como o pai. Isso pra mim foi a punhalada final. Amo meus filhos mais que a mim e ele sabia disso.

Dois dias depois, fui à defensoria pública, dei entrada no divórcio sem que ninguém soubesse, entreguei a intimação quando ele veio ver o João e na semana seguinte nos divorciamos. Aí tudo parou. Pararam as brigas, as mensagens, as acusações, o amor parou.

Eu digo que nesse dia minha alma morreu, que aqui vive só o corpo físico, sobrevivendo todos os dias. Ainda tivemos problemas quanto à pensão e outras coisas. Ele ainda agia como se fosse meu dono, até cair a ficha de que nada mais existia entre nós. Quando o João fez um ano, resolvi procurá-lo para acertarmos as arestas e conviver em paz pelo João. Desde então conversamos, ele vem ver o João e temos nos dado bem.

Eu trabalhava em uma concessionária, mas hoje voltei a fazer bolos, cupcakes, lembranças, bem-casados etc, pelo menos até achar outro emprego pois ter dois filhos não é fácil, precisa de muito trabalho. Parece loucura, ficção mas é a minha vida. Hoje me arrependo de algumas coisas que fiz, mas entrego nas mãos de Deus pois só ele sabe tudo. Se aconteceu é porque tinha um propósito, pois tudo na vida tem um porquê. Seja a situação boa ou ruim, temos que buscar tirar lições dela.

Espero que minha história ajude a muitas mulheres ou que apenas as entretenha. Agradeço à Thaise pelo convite para dividir com vocês um pouco da minha luta. Isso me fez um bem enorme.

daniperfilDANIELLA BELO BARBOSA é mãe, filha, tia, pau pra toda obra, confeiteira e mulher. Você pode saber mais sobre a vida e o trabalho dela seguindo o perfil @confeitosdadani no Instagram.

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