A arte de saber esperar


Eu e o Gustavo estávamos conversando outro dia. Quando éramos crianças e acordávamos bem cedo (beeeem cedo, como só criança sabe fazer!), era comum que nossos pais não se levantassem. A minha mãe conta que ouvia a gente levantar (que criança faz o tipo silencioso? Rs) mas que ficava na cama um pouco para que meu irmão e eu tivéssemos um pouco de autonomia, que pudéssemos nos entreter sem a presença dela. Aliás, esse é todo assunto para um próximo post.

O que eu quero lembrar aqui é que, no final dos anos 80 e começo dos anos 90 quando eu era criança, nós acordávamos cedo e o SBT não estava no ar ainda. Vocês se lembram? Antes das 6h-7h da manhã, não havia programação no SBT – que era O canal dos desenhos matutinos, especialmente aos finais de semana.

Duvida? Não é da sua época? Clique AQUI e pule os primeiros 20 segundos para ver do que estou falando.

Nós tínhamos de esperar os pais “acordarem” para tomarmos café, nós tínhamos que esperar o SBT entrar no ar, tínhamos de esperar o jornal acabar (era tanta criança vendo jornal que colocaram até o “Feliz” fazendo previsão do tempo – (“E Piriri e Pororó” não é da sua época também? Clique AQUI). A Vovó Mafalda só começava depois do jornal. Não tinha jeito. Era a nossa única opção de ver desenho. Nesse meio tempo, a gente dava nossos pulos. Brincava com o irmão, brincava com os brinquedos, lia gibi quando mais velhos e ficava ali esperando.

Minha família tinha muito o hábito de sair comer fora. Não existia DVD portátil (nem DVD! abafa) , com muita sorte “o espaço kids” eram dois balanços e um escorregador. Mas era RARÍSSIMO. Giz de cera em mesa? Desenho? Não. A gente fazia era desenho com palitinho de dente no papel vegetal que protegia as toalhas de pano (anos 80 e suas breguices). Nós conversávamos, andávamos pelas mesas, espiávamos o banheiro, íamos dar uma espiada lá fora, sentávamos à mesa para esperar a comida (que na minha noção de tempo infantil, demorava DEMAIS! hahaha).

Para assistirmos a seriados, estávamos dependentes do orçamento da boa vontade das emissoras de canal aberto. Quando Anos Incríveis começou a ser transmitido aqui, já tinha até terminado nos EUA. E ficamos anos e anos assistindo aos episódios repetidos porque demorava anos e anos e anos para que comprassem outra temporada. Acho que eu só acabei a história do Kevin Arnold anos mais tarde, quando era adolescente e passava no Multishow. Quem dependia de TV aberta, está até hoje sem saber que o Kevin NÃO CASOU com a Winnie.

Enfim, toda essa filosofia de bar entre eu e meu marido porque um dia nossa filha esperneou que a Peppa entrou na propaganda. PRO-PA-GAN-DA.

Nós temos gravador digital em casa, então raramente assistimos à TV ao vivo. Deixamos tudo que queremos ver gravando e vamos assistindo conforme o ânimo, tempo e vontade. E, claro, passamos o comerciais para a frente. Se não isso, estamos no Netflix, que é infinito e não tem comerciais. Ou ainda os programas ON DEMAND da TV a cabo.

O Gustavo sempre ouviu horrorizado as histórias que eu contava dos meus alunos que não sabem esperar. Não aguentam esperar que eu carimbe 30 atividades, não aguentam esperar o amigo terminar a atividade, não conseguem ficar 5 minutos sem fazer nada até o recreio. Eles PRECISAM estar ocupados, fazendo alguma coisa, entretidos por outra pessoa que lhes diga o que fazer – nós, os adultos.

Não precisa ser um expert em desenvolvimento para saber que isso é PÉSSIMO para a saúde mental e o desenvolvimento de uma criança. Ócio tem um papel importantíssimo na infância (e na vida adulta!), assim como o livre brincar, o brincar sem um adulto para guiar a brincadeira (nós DETONAMOS a capacidade de faz-de-conta deles, tão importante para o desenvolvimento cerebral. Não adianta: uma vez adulto, você automaticamente perde essa habilidade. Seu fingir e brincar jamais será igual a um faz-de-conta infantil…).

Aliás, sinal de alerta aqui…Se o seu filho NÃO BRINCA SOZINHO, pode acender o sinal vermelho.

Enfim, de repente tínhamos uma criança dessas que não sabe esperar um comercial para voltar a seu programa favorito. Fizemos um momento de reflexão entre nós e um mea culpa: Nós também esquecemos como se espera. Quando o elevador demora, sacamos nossos celulares do bolso e vamos ler notícias. Quando o carro para no farol vermelho. Quando estamos na sala de espera do médico. Precisamos de entretenimento o tempo todo. Nós, que nascemos na época em que era preciso muita paciência para esperar a Vovó Mafalda começar esquecemos de como se espera. Imagine quem já nasceu com Netflix em casa.

É tudo muito novo. Há 5 anos atrás, se alguém quisesse fazer uma maratona de série, precisava de uma boa internet e uma conexão peer-2-peer, além de um bom antivírus (e mesmo assim….rs). Alguém aí entra ainda hoje no Limewire quando quer ver uma série? Está tudo evoluindo muito rápido e às vezes é difícil de se colocar de fora e ver o impacto disso na nossa vida e na dos nossos filhos.

Precisamos desacelerar e ensiná-los a esperar. Afinal, esperar vai ser muito necessário na vida…com ou sem tecnologia. A vida em sociedade está logo ali fora de casa, o respeito a vez dos outros está bem aqui dentro de casa. Caminho lado a lado com a EMPATIA, com a paciência, com a educação.

A geração de reizinhos que temos por aí mostra claramente quanto estamos falhando nesse aspecto. Nós, enquanto geração de pais. Como professora, eu digo e repito a vocês: não tem coisa mais triste do que ver um reizinho chegando à escola e caindo do trono. “Como assim eu não sou a pessoa mais importante do mundo?”

E que fique MUITO claro que dar limites não tem NADA a ver com falta de amor – muito pelo contrário. A minha filha pode ser a pessoa mais amada e mimada no quesito carinho do mundo, mas ela PRECISA entender de empatia e respeito ao próximo.

Por tudo isso, eu e o Gustavo baixamos um decreto aqui em casa há alguns meses. Iríamos ensinar a Catarina a esperar. Nada de infantolatria: todo mundo vai ter hora de ver TV (e aí não importa quantas TVs temos em casa!) e os outros vão assistir junto à programação escolhida. Se ela escolheu o Caillou, eu e o papai vamos assistir ao Caillou. Se o papai escolheu o jogo de futebol, vamos todos assistir ao jogo. Se a mamãe escolheu um seriado, vamos todos assistir ao seriado. “Doooooora!” e aponta para a TV. “Não, Catarina. Agora é a vez da mamãe. Quando for sua vez, vamos todos ver Dora.”

Claro que isso não funciona de uma hora para a outra, em especial com uma criança de 2 anos, que está descobrindo sua autonomia e quer falar “NÃO” por motivos biológicos. Mas é preciso que seja assim. Ninguém é mais importante que ninguém em um núcleo familiar. Todos têm sua importância, seu papel, seu espaço, suas preferências e precisam ser respeitados em sua individualidade. Só aprendendo isso em casa é que a criança será capaz de transpor para a vida em sociedade.

Os frutos a gente colhe a médio e longo prazo, como tudo em educação. Hoje fomos almoçar fora. Catarina está com 2 anos e (quase) 3 meses, o auge dos “terríveis dois anos” (Preciso fazer um post sobre isso! Não gosto desse nome!). Começamos o desfralde há 1 semana e saímos sem fralda pela primeira vez hoje. Ela estava morta de fome e o almoço se estendeu até mais do que o horário de soneca dela (horário de soneca aqui é MILITAR!). Ou seja, tinha tudo para dar errado.

Não mostramos a ela que o restaurante tinha espaço kids – já fomos lá, mas acho que ela não lembrou. Ela sentou na mesa com a gente, esperou a comida dela “conversando” e brincando. Demos o cardápio para ela ver, brincamos com os palitinhos, batemos palminhas e cantamos. Vale o adendo aqui: a Catarina é uma criança MUITO agitada. Mas eu JAMAIS disse isso na frente dela. Eu sempre a elogio dizendo como ela é boazinha e obediente. Tudo que uma criança ouve, ela entende como sendo verdade. Rotule uma criança como “difícil” e ela sempre será “difícil”.

Quando a comida chegou, ela quis comer sozinha com a colher. O restaurante tinha uma estrutura super bacana para crianças – aliás fica AQUI a indicação – e me trouxeram um cadeirão show, que funcionava só como uma cadeira de elevação para os maiores e um babador de colar na roupinha (ela comeu macarrão à bolognese e carne assada com a colher e as mãos e saiu de lá INTACTA, limpinha). Deixamos. Picamos tudo e, enquanto ela comia a comida dela, nós comíamos a nossa.

familia

Eu a levei 3x ao banheiro e em todas elas, ela fez xixi no vaso (sem vaso infantil, sem redutor de assento). Rolou até um cocô. Nenhum acidente. Queríamos comer sobremesa então tiramos a pessoinha que não come açúcar da mesa. Levamos a Catarina ao Espaço Kids, que é fechado e conta com 2 monitoras. Ela fica lá sozinha numa nice – eu acredito que segurança a gente ensina também. Já falei sobre várias vezes. Comemos nossa sobremesa, conversamos, namoramos…tudo na mais santa paz. E ela lá, se acabando de brincar. Ainda saímos do restaurante e fomos ao mercado. Achei que ela fosse dormir no caminho…que nada! Eu já tinha dito que ela ia no mercado dos carrinhos (vocês já viram no meu instagram? A gente faz mercado num lugar mais caro só pela tranquilidade dela ficar no fusquinha! hahahaha) e ela ficou acordadona. Não deu um pingo de trabalho. Esperou escolhermos as coisas, esperou passarmos no caixa, guardar as compras no carro.

Chegou em casa, fez a soneca sem fralda. Fez xixi de novo no vaso. Ficou assistindo ao futebol com o papai, ao lado da mamãe trabalho com o note. Uma paz!

Sem TV, sem dvd (DVD no carro jamais. Só se algum dia formos para BH de carro de novo…), sem nada. Poderia ter dado uma birra, é até o esperado para a idade. E vai chegar o dia que vai dar. Tudo bem, é normal. Mas é como agimos nesses momentos que definem quem nossos filhos serão. Está nas nossas mãos criarmos um reizinho ou um ser empático e respeitoso.

Educar dá um trabaaaaaaaalho. Mas às vezes temos dias que servem só para nos mostrar como estamos no caminho certo! Foco e fé que os louros estão logo ali. Não tem como dar errado quando fazemos o que é certo.

Beijos e ótima semana,

Ise.

Imagens pixabay e arquivo pessoal

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