Cama compartilhada? Não, obrigada!


As pessoas com muita frequência partem do pressuposto de que eu faço cama compartilhada. Acho que tem a ver com a forma como criamos a Catarina, sempre no sling, pertinho da gente, sei lá. Mas taí uma coisa que na MINHA realidade seria absolutamente infactível e também vai contra a maioria das coisas que eu acredito ser boa para uma criança.

Antes das pedras que eu sei que vou receber, eu gostaria de dizer que eu dormi com meus pais até os 4 anos e, posteriormente, dividi quarto com meu irmão até os 26, quando me casei. Eu só fui ter meu quarto, meu mesmo, durante uns 2 anos quando morei fora de casa para ficar mais perto da faculdade. E Deus do céu, como ter o meu espaço me fez falta!

Eu questiono muito esses estudos que dizem que as crianças da cama compartilhada são mais seguras (também existem vários estudos dizendo o contrário, tá? É tudo uma questão de qual linha você quer seguir…) porque eu tenho medo de escuro até hoje, do alto dos meus 32 anos. Nunca gostei de dormir sozinha, morro de medo. Tenho pavor mesmo. Quando fiz a minha pós-graduação na Itália (eu já estava noiva, tinha uns bons 25 anos nas costas), eu ligava chorando para a minha mãe quase toda noite porque eu tinha absoluto pavor de ficar sozinha no escuro e no silênco. Mais de uma vez fiquei conversando com ela e com o Gustavo até cair no sono, por puro pavor. Até hoje, quando o Gustavo diz que vai deitar, eu saio correndo e pulo na cama na frente dele porque tenho horror a ser a última a deitar, apagar a luz, fechar tudo e, principalmente, dormir por último.

Então a minha negação a esses estudos que pregam que cama compartilhada é tudo de bom para a segurança de uma criança é empírica…rs

E agora as divas da criação com apego devem estar colocando meu nome na boca do sapo. Não vou nem entrar profundamente nesse mérito, só vou ressaltar que:

  1. “Criação com apego” é, por excelência, extremamente elitista. Sim, galera. Problematizar é preciso. Preta Materna tem um texto ESPETACULAR sobre isso. LEIA AQUI.
  2. “Criação com apego” é, ao meu ver, algo extremamente redundante para um povo latino. Nós criamos NATURALMENTE com apego. Abraçamos, beijamos, damos colo, colocar para fora de casa com 17 anos é algo surreal para a maioria das mães latinas – que o digam as italianas, com os filhos em casa com mais de 40 anos! hahahaha Talvez menos as mães francesas, que tem uma cultura um pouco diferente nesse sentido. Mas nós brasileiras, latino-americanas, portuguesas, espanholas, italianas respiramos apego à cria. Então nunca vou entender essas “cartilhas” no Brasil. E digo cartilhas mesmo, porque não acho nome melhor para uma série de preceitos a serem seguidos em nome de uma pseudo-boa maternagem.

Como vocês já devem saber, um dos preceitos principais da criação com apego é a cama compartilhada. E olha só, acho excelente que funcione para algumas pessoas. Mas para a maioria da blogosfera materna, o oposto de cama compartilhada é deixar a criança chorar e abandoná-la – o que é de uma ignorância absurda.

Em desenvolvimento infantil, a gente estuda que sono é uma habilidade adquirida. Mais cedo ou mais tarde, a criança vai adquirir essa habilidade. Mas ela pode – e deve – ser ensinada. E isso não quer dizer em absoluto abandonar uma criança trancada num quarto aos prantos como gostam de pregar. O sono tem papel importantíssimo no desenvolvimento físico e cognitivo da criança, portanto, quanto antes ela dormir bem, melhor para ela. O pico do hormônio de crescimento se dá na madrugada e é óbvio que um sono interrompido não é benéfico. E claro, não estamos falando aqui de bebês pequenininhos que precisam acordar à noite por uma série de fatores fisiológicos – inclusive estimular a produção de leite materna, uma vez que o pico da prolactina também se dá de madrugada.

O problema é que eu acho que existe toda uma romantização em torno da cama compartilhada. Circulam memes e mais memes pela blogosfera materna orgulhando-se de dormir mal:

criação com apego

Ilustrações: Pipipum.com (gentilmente cedida!)

O que acontece com a gente que acha graça em dormir apertado e desconfortável e acha que isso é a normalidade? Se isso não é romantização, o que é? Eu admiro quem durma mal e consiga ser uma excelente mãe durante o dia. Eu não consigo. Fico mal humorada, sem paciência e sem querer acabo sendo dura demais com meus alunos e sem paciência nenhuma com a minha filha. Preciso das minhas 8 horas de sono.

Feliz ou infelizmente, eu sou daquelas pessoas que têm altas memórias da infância. Lembro de quando a minha mãe me contou que eu teria um irmão (eu tinha pouco mais de 1 ano!), lembro do meu aniversário de 1 ano, de quando meu irmão nasceu (eu tinha 1 ano e 10 meses), lembro de muita coisa mesmo. Sabe qual é uma das memórias mais fortes que eu tenho? De chegar dormindo de algum lugar e de ser colocada na cama. Ser colocada na cama era um alívio. Colo era um negócio quente e desconfortável para dormir…rs

Pensando em tudo isso e mais um pouco, com alguns artigos científicos da época da faculdade debaixo do braço, eu e o Gustavo decidimos, quando eu ainda estava grávida, que a Catarina ia para o berço desde sempre. Ela ficou alguns dias dormindo no carrinho no quarto com a gente pois meus sogros estavam em casa e eu morria de vergonha de levantar sem blusa para amamentar. Então no quarto eu já dormia sem blusa mesmo e estava tudo certo. Assim que meus sogros foram embora, ela foi para o berço. Passou pela fase de que o berço parecia que tinha espinhos – e eu carregava no sling pela casa. Passou pela fase de não dormir de dia – e eu fazia qualquer coisa que desse certo para que ela pegasse no sono. Passou por várias fases, como é normal de todas as crianças. Mas a rotina da noite jamais foi abandonada. E o berço nunca chegou a ser um grande problema, apesar das fases ruins que eventualmente aconteciam – e que acontecem independente de berço. Para mim, sempre foi muito claro que ela estaria mais confortável lá do que apertada no meio do Gustavo e de mim.

Em alguns momentos, ela chorou para sair do berço, claro. Até 1 ano nós tirávamos e eu amamentava à noite (coisa que era bem rara de acontecer depois dos 6 meses de vida). Com 1 ano fiz o desmame noturno e ela nunca mais acordou de madrugada, a não ser por algum xixi na cama, calor ou eventual doencinha infantil. Mas acordar simplesmente por acordar? Nunca mais.

Durante o dia, ela quis várias e várias vezes pular a soneca. Catarina nunca quis perder tempo de brincadeira para dormir. Mas eu sabia que ela PRECISAVA, então para mim era claro que eu não poderia fazer a vontade dela. Eu sou a adulta da relação, ela não tem capacidade de avaliar causa e efeito ainda. Eu ficava ao lado do berço, fazendo carinho, massagem no pé, brincando com fantoches, cantando…até passar. Logo ela aprendeu a dormir sozinha. Eu colocava no berço acordada depois de ter amamentado, ela simplesmente deitava e dormia. E daí foram só avanços. Pouco depois de ter aprendido a andar, passamos para a caminha dela e quando ela fez 2 anos foi para uma cama de solteiro normal, grande e alta, que ela AMA. “Gandona cama Cata, mamãe!”. Ela se estiiiiiiiica e vai de um lado para o outro, toda feliz. Toda noite, ela me dá boa noite onde eu estiver e vai deitar na cama quando dizemos que é hora de dormir. Eu não gosto de menosprezar a capacidade das crianças e acho de verdade que o que dá segurança de verdade é a independência – que a galera da criação com apego adora dizer que um bebê não precisa ser independente. Óbvio que ninguém espera independência varonil em uma criança, mas dar a oportunidade a ela de fazer o que ela é capaz é confiança e prova de amor. Eu nunca tive dúvidas de que ela era capaz de dormir bem, a noite inteira e no espaço dela. Ela nunca foi abandonada.

Mais do que seguir uma receita de bolo pré-determinada porque alguém falou que precisa ser assim, a maternidade (e a paternidade!) precisa ser uma coisa pensada, racionalizada, embasada. Ninguém precisa dormir mal e apertado para criar uma criança segura. Ninguém precisa dormir mal para criar “com apego”. Ninguém precisa deixar chorando para ensinar a dormir. Não e óbvio?

Para mim é tão claro como o fato de que ninguém precisa bater para educar, humilhar para ganhar respeito, ameaçar para ser “obedecido”.

Os extremos são sempre problemáticos. E os preceitos pré-determinados de maternidade também.

Obs.: Dia desses estávamos com visita e coloquei a Catarina na minha cama. Ela se mexeu, se virou, procurou posição e pediu para dormir no sofá porque estava muito apertada. Tudo, mas tudo mesmo nessa vida, é hábito. Vai de cada um decidir quais hábitos quer embutir na cria =)

Beijocas,

Ise.

Imagem Pipipum

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4 Comentários

MARANA AGUIAR
Responder 28 de outubro de 2016

A minha história é muito parecida com a sua. Minha bebê tem 1 ano e 1 mês, No começo sofri mto devido às levantadas de noite, mas hj ela já sabe colocar a chupeta (chupeta mal necessário aqui, ela queria chupar o dedo) e volta dormir sozinha. Só tiro do berço se eventualmente ela ficar sentada conversando (O pai dela fala dormindo, pode ser hereditário). De dia deixo ela bem livre pra brincar com o q ela quiser, salvo coisas perigosas. E sinto minha filha bem decidida sobre suas decisões.

Cibele
Responder 28 de outubro de 2016

Olá Thaise, encontrei o Noiva Muito Neurótica depois de você já ter casado, por isso acho que nunca comentei lá. Agora te acompanho aqui no Mamaholic e adoro seus posts! Admiro o jeito que estão criando sua filha (que é fofa demais). Meu bebê está com 7 meses, ele dorme no berço desde recém-nascido, porém só adormece no colo. Já deixamos chorar no berço sozinho pra ver se ele dormia (o que não acontece). Já levamos pra nossa cama, mas aí quem não dormia éramos nós. Espero que mais pra frente ele consiga aprender a adormecer fora do colo...

    Thaise Pregnolatto
    Responder 28 de outubro de 2016

    Ah..não se preocupe! Ele é novinho ainda! Essa época é bem comum que eles ainda durmam no peito e tudo bem. Mantenha a rotina certinha que você vai ver que ele vai aprendendo numa boa, sem traumas!
    Obrigada pelo carinho! Eu abandonei o NMN faz uns tempos. Coitadinho. Ele não merecia! hahahaha

Luana Le Grazie
Responder 28 de outubro de 2016

Aqui em casa Isadora sempre dormiu no berço,desde que chegamos da maternidade e NUNCA deixamos quem ficasse chorando no berço.
Detesto cama compartilhada,as poucas vezes em que tentei levá-la pra minha cama,ninguém dormiu.Nem nós e nem ela.E ela tb não gosta,é espaçosa igual a mamãe dela e gosta de se esticar...rsrsrs...Respeito que gosta e funciona assim,mas aqui em casa nunca foi bom e é cada um na sua cama/berço,sem dramas e com muito acolhimento qd ela chora e chama a gente.

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