Carta a uma mãe-solo


Você é mãe. E educar uma criança é uma tarefa árdua. O trabalho é grande e não tem fim. É peleja das brabas e quando se está só, é preciso estar armado até os dentes. A maternidade já é um pouco solitária mesmo, mas no seu caso, é preciso se esforçar para não findar na solidão.

Saia com o pequeno de casa, leve-o a pracinha mais próxima. Chame uma vizinha que também tenha filhos para tomar um café com você enquanto as crianças brincam na sua casa. Aproxime-se de seus familiares. Conheça grupos de mães no bairro. Faça parte de grupos de mães na internet. É que o fardo é bem pesado e ter com quem dividir, facilita.

Vão tentar fazer você acreditar que está tomando decisões erradas o tempo todo. Vão dizer que você trabalha muito e criticar que seu filho passa o dia inteiro na creche. Mas se você diminuir o ritmo do trabalho vão dizer que você é folgada e quer viver da pensão do pai da criança. Vão dizer que você deve curtir a vida, mas se você fizer isso, vão dizer que lugar de mãe é em casa com os filhos. E nada de colocar homem dentro de casa, hein? Namorar não é bacana quando se tem filhos de outro homem. Um filho de cada pai e você continua solteira? Claro, o defeito é você. Vai ser difícil se encontrar nesse turbilhão de paradigmas, nos quais não nos encaixamos. Mas siga seu coração. Não se preocupe em agradar a torcida, pois isso, realmente, vai ser complicado.

Ser mãe solo significa deitar a cabeça no travesseiro e enfrentar expectativas e decepções, lidar com a insegurança das decisões que tomamos sozinhas sobre a vida de nossos filhos, encarar olhares e preconceitos de peito aberto e no carão, sem deixar transparecer que sim, tá ruim.

mae solo

Pode ser que o pai do seu filho seja um cara bacana. Pode ser que não. Pode ser que você não se incomode em conviver com a nova família dele, pode ser que você evite. Mas você vai perceber que a sociedade apoia a irresponsabilidade paterna. São todos coniventes. E que não vale a pena brigar contra isso. Faça o possível para conviver com o pai da criança de forma harmoniosa. E se não for possível, não conviva. Mas não perca energia lutando contra algo que está muito forte em nossa sociedade. Aproveite esta energia para educar seu filho de forma diferente. Para que ele possa fazer parte de uma sociedade mais igualitária e humana no futuro.

Cobre na justiça o que é previsto em lei. O quanto antes melhor. Porque facilita muito. Por mais que você tenha um bom relacionamento com o pai do seu filho, o acordo legal traz determinações que vocês não haviam nem pensado. E isso poupa discussões extensas e desentendimentos futuros. Se você for do Estado de São Paulo, te aconselho a procurar o Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania – CEJUSC, mais perto da sua casa. Eles são rápidos e muito experientes em negociações de guarda e pensão. Vale a pena!

Todo o lado ruim que você imagina que pode existir na maternidade solo existe mesmo. Mas é ainda pior porque existe todo um lado ruim que você nem sequer imaginava. No entanto, tem o sorriso do seu filho. Aquela mãozinha que te faz carinho toda hora. A potência do vir a ser que uma criança carrega. A maravilha de descobrir um novo mundo pelo olhar de uma criança

“A peleja é longa e, no fim, é só você contra você mesmo”. Esta frase, de um belíssimo texto da jornalista americana Mary Schmich, escrito em 1997 para o Chicago Tribune, traduzido e publicado no Brasil pelo Pedro Bial, resume o que é ser mãe solo.

A peleja é sem fim. E é contigo. Seja sua melhor amiga. Você é a melhor mãe que seu filho poderia ter.

Na matemática da vida você vai perceber que ser mãe sempre compensa.

danicircleDANIELA FALCÃO é mãe-solo do Augusto, feminista, viajante desde que soube que o mundo era redondo. Quando criança, sempre dizia que seria médica e depois professora. Deu quase certo, hoje é nutricionista e pedagoga, mestre em Saúde Pública pela Universidad Americana do Paraguai. Leva a vida brincando, literalmente, no Pé no Chão Espaço de Brincar. É atriz de formação e artista cheia de emoção. Só faz e fala aquilo que vem do coração. 

Imagens: pixabay

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