Como descobri o câncer de tireóide


Peguei meu resultado e fiz uma coisa que eu nunca havia feito até então. Sentei e abri o envelope no laboratório mesmo. Era a biópsia de um nódulo calcificado que havia na minha tireóide. Curiosamente, eu não estava preocupada. Todo mundo me disse que era comum e que não seria nada. Mas no dia de buscar o resultado, eu estava estranhamente nervosa. Acho que a gente pressente certas coisas.

“blá blá blá condizente com carcinoma papilífero maligno”

Eu não precisava entender mais nada do resto da frase. Eu entendia “carcinoma” e entendia “maligno”.

Mas como chegamos nisso?

Um mês antes de engravidar (2013), fui a uma endócrino porque achei que talvez eu poderia ter ovário policístico. Não tinha. Ela perguntou se eu já havia feito algum ultrassom de tireóide e, como eu disse que não, ela me fez um pedido.

-É sempre bom fazer. Na pior das hipóteses, você tem um parâmetro de comparação no futuro.

Eu não poderia imaginar como ela estava sendo profética com aquela frase.

Meu exame mostrou um nódulo, pequeno, meio centímetro. Sem nenhuma característica que pudesse indicar anormalidade. É bastante comum que as pessoas tenham nódulos na tireóide. Eles normalmente não significam nada.

Fiquei grávida, tive um pouco de hipotireodismo na gravidez que foi controlado com a dose mínima de hormônios e passou com o nascimento da Catarina. Ela teve restrição de crescimento ao final da gravidez em virtude de um problema com a passagem de nutrientes pelo cordão –  o que levantou suspeitas na minha médica, já que eu não tinha pressão alta e não fumava.

Ela nasceu bem e eu fui voltando ao normal. Engordei 10 kgs na gravidez e perdi todos eles nos primeiros 10 dias de vida dela, com a amamentação. E aí que o tempo foi passando e eu amamentando exclusivo e engordando. Catarina mamando mais e mais e eu engordando. Uma coisa fora do normal.

Reclamei com a minha gineco, que é uma das médicas da minha vida. Ela me encaminhou para um endocrino e disse que para facilitar a minha vida, já daria os pedidos dos primeiros exames que ele pediria junto aos dela, de forma que eu já fosse para a primeira consulta com algo em mãos.

E lá fui eu fazer os exames de sangue – que voltaram normais – e novo ultrassom da tireoide. Meu nódulo havia crescido 0.3 cm em 1 ano  e “calcificado”. O médico que fez o exame disse que eu nem deveria me preocupar, que provavelmente não era nada. Eu não me preocupei.

Minha gineco também disse que provavelmente não era nada, mas olhou, olhou e olhou meus exames torcendo o nariz. Disse que ia me pedir uma biópsia para que levasse ao endocrino porque ele com certeza iria pedir.

Continuei tranquila, me organizando para “colocar ordem na casa” pois já sentíamos que estávamos demorando para providenciar o segundo baby. Eu descobri que estava grávida no dia que fiz os exames pré-operatórios para tirar as pedras da minha vesícula e suspendi isso totalmente em virtude da amamentação da Catarina. Ela só tomava meu leite, então eu não queria arriscar anestesia, medicação ou ter de dar o leite artificial. Minha cirurgia já estava marcada para o começo de julho, minhas férias. A Catarina estava grande, eu já havia conversado com a pediatra dela (outra médica da minha vida – e literalmente pois foi minha pediatra a vida toda!) e ela ficaria sem mamar por 24 horas, não entraríamos com leite artificial. Manteríamos só comida nesse período (ela estaria com 1 ano e 4 meses) e assim que eu saísse do hospital, ela voltaria a mamar.

Então eu estaria preparada fisicamente para partir rumo ao projeto “irmão da Catarina”.

E aí abri aquele envelope e tudo mudou.

Eu não sei como cheguei em casa. Acho que estava em negação ainda. Liguei para meu marido, que só conseguiu me dizer: “E agora?”. Falei com um grupo de amigas no whatsapp que foram pesquisando para mim o que era “papilífero”  enquanto eu dirigia. Eu estava sozinha, voltando buscar a Catarina na casa da minha mãe. Dirigi por meia hora com a cabeça em parafuso, mas razoavelmente controlada. Quando cheguei na minha mãe, desabei.

Chorei, chorei e chorei. Chorei e gritei tanto de desespero que meu pai cardíaco passou mal duas vezes de me ver daquele jeito.

Eu não conseguia olhar para a minha filha. Achava que ela ia ficar órfã, que ela não teria mais a mamã dela. Que ela iria sofrer. Que mãe não entra em desespero de pensar na cria sofrendo? Aliás, vou fazer um post sobre isso também…os efeitos físicos e psicológicos do trauma…

Minha mãe cuidou dela e de mim a tarde toda. Eu não conseguia levantar do sofá. “Eu gosto tanto da minha vida. Por que eu? O que vai ser do Gustavo criando uma criança sozinho? Nós havíamos combinado que faríamos isso juntos…”

Ele veio do trabalho para ficar comigo. Me abraçou e me disse: “Estamos juntos”.

No final da tarde, uma amigona me colocou para falar com uma amiga dela que já havia passado pela mesma coisa. Foi ali que comecei a entender que não era a minha sentença de morte. 97% de chance de cura. Altíssimo índice.

Mas e como não pensar nos 3% quando você tem um serzinho em casa que depende completamente de você?

Os dias que se seguiram foram muito difíceis, até que finalmente chegou o dia da consulta com a cirurgiã para discutirmos o tratamento. E sobre ele vou falar no próximo post senão o texto fica infinito!

Beijos,

Ise.

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Para saber mais sobre o câncer de tireoide:

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2 Comentários

Melina Tonon
Responder 1 de outubro de 2015

Nem sei o que mais falar além de "Chorei". Chorei e chorei.

Lisa
Responder 1 de outubro de 2015

Meu Deus. Não gosto nem de lembrar daqueles dias. Meu coração se partiu em um milhão de pedaços pela minha prima-cumadre-irmã de coração..... e só de ler e relembrar me arrepia e me enche de lágrimas.... Graças a Deus a cicatriz é, hoje, a prova da guerra vencida.

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