Culpa por não ter conseguido amamentar


Como (quase) todas as grávidas no final da gravidez, passo boa parte da noite acordada. Tento dormir de novo, mas quase nunca consigo. Chega uma hora em que eu desisto, levanto e começo a ler as mensagens que vocês me mandam, respondo às dúvidas que consigo receber, encaminho às que não consigo aos profissionais…enfim. Leio também fóruns de mães, estudo, baixo papers, anoto ideias para posts… Costumam ser madrugadas produtivas as minhas! Rs

Essa noite eu caí num post do BabyCenter sobre culpa materna. Acho que é dos assuntos mais recorrentes no mundo da maternidade. Até aqui no Mamaholic já falamos sobre isso.  Mais de 90% dos posts se referiam ao fato da mãe sentir culpa por não ter conseguido amamentar.

Não é difícil de entender. Como já discutimos aqui exaustivamente, o sistema não ajuda a mãe.   O pós-parto é um período muito difícil, em que a gente não consegue pensar com clareza e estamos inundadas de hormônios. Amamentar é MUITO, muito difícil. Além disso, os mitos que envolvem a amamentação são muitos. E, infelizmente, parece que os palpiteiros e profissionais que não estão preparados são maioria absoluta. É muito mais fácil encontrá-los do que topar com alguém que te diga “Miga, senta aqui que eu vou te explicar como essa parada funciona!”.

Os motivos para o desmame desses tantos bebês de mães que queriam ter amamentado não são de difíceis resolução no geral. Bastava realmente um pouco mais de informação, apoio e ajuda especializada em alguns casos.

  1. Necessidade de dormir uma noite inteira

Motivo campeão do desmame e facílimo de se entender: as pessoas precisam dormir. Não é questão de egoísmo, é questão de sobrevivência, especialmente num país onde a maioria esmagadora das mães volta a trabalhar antes que o bebê tenha 4 meses. Por melhor que um bebê de 4 meses durma, ele não vai dormir a noite inteira todas as noites. E mesmo que esteja numa fase boa do sono – o primeiro ano do bebê é feito de fases e ciclos – logo começam a despontar os dentes, quando a criança vai para a creche começam a aparecer os resfriados e as viroses…enfim, quem teve filhos dessa idade sabe que qualquer coisa resulta em uma noite em claro.

Porém, dificilmente as questões do sono estão diretamente ligadas à amamentação – muito pelo contrário, uma vez que diversos estudos comprovam que o leite materno tem substâncias que ajudam o bebê a regular seu relógio biológico. Sono é uma habilidade adquirida e isso quer dizer que as crianças precisam ser ensinadas a dormir. Isso não tem nada a ver com largar bebê de 4 meses chorando no quarto sozinho, tem a ver com uma série de técnicas que vão regulando os ciclos de sono paulatinamente. Assunto para um (ou mais!) posts inteiros. Enfim, não é incomum que um bebê pequeno desmamado continue a acordar, se não para mamar, para tomar a mamadeira. Óbvio que num primeiro momento, a qualidade de sono pode melhorar – o leite artificial é menos digestível que o leite materno. Depois de se entupir com uma feijoada, a gente só quer dormir, não é? Mas não necessariamente essa criança não vá acordar, especialmente a longo prazo quando o “efeito fejuca” diminui.

Algumas famílias optam por cama compartilhada. Aqui em casa não era uma opção, mas para algumas pessoas realmente pode ser o divisor de águas.

Além disso, após 1 ano de idade, é possível fazer o desmame noturno – que posso dizer por experiência, dá super certo. Mas ele deve ser feito de maneira respeitosa, nada de enfiar um monte de coisa no peito para o bebê largar porque não gosta mais do gosto. É cruel isso, gente. O peito é mais do que alimentação, é aconchego, é proteção, é vínculo. Não é porque o desmame é respeitoso que ele é demorado ou muito mais trabalhoso. E disso eu falo com propriedade também porque eu tive um final de semana para desmamar a Catarina antes de começar o tratamento do câncer de tireoide. Ela desmamou fácil e tranquilamente em 2 dias. Não passei nadica no peito, coitada!

Leitura CIENTIFICAMENTE EMBASADA sobre desmame – fonte GVA

2. Preciso tomar remédio tal e o médico disse que preciso desmamar

Um absurdo que esse tipo de coisa ocorra em 2017 com TANTO acesso à informação que temos. Eu sofri antes de conhecer o E-LACTANCIA porque toda vez que saía do círculo das minhas médicas, era um show de horrores. Quando a Catarina tinha um mês, tive uma crise de cólica biliar de madrugada. Gustavo me levou ao hospital. Era uma madrugada muito fria, encapotamos a Catarina e lá fomos nós. O médico que me atendeu disse que não poderia me medicar se eu fosse amamentar, que eu deveria dar algumas mamadeiras de leite artificial para a minha filha (de 1 mês, em amamentação exclusiva). Arregalou o olho como se estivesse vendo um fauno quando eu disse que só amamentava no peito. Insisti com ele. A pediatra da Catarina já havia me alertado que para TUDO existe compatibilidade com a amamentação, menos HIV e alguns tratamentos para câncer. Acabou que saí do hospital com dor, sem medicação e o médico alegando que era um absurdo isso “só” porque eu não queria oferecer leite artificial à minha filha. Com certeza ele não leu nenhum estudo sobre o índice de alergia das crianças que tem contato com leite de vaca antes de 1 ano, nem sobre as vantagens da amamentação com LM e nem sobre confusão de bicos ao me mandar dar mamadeira. Poderia ter sido o início do desmame da Catarina, mas felizmente eu estava bem informada. Infelizmente, ainda com muita dor. Fui embora sem ter recebido cuidados médicos adequados.

Depois que descobri o e-lactancia, a vida ficou muito mais fácil. É um portal onde você escreve o nome da substância do medicamento e ele te informa, numa escala de 1 a 4, qual o risco da medicação para a criança. O portal é atualizado SEMPRE com os estudos mais recentes da área.

elactancia

Acima, como exemplo, pesquisei o IBUPROFENO (Ibuprofen). Ele me deu bandeirinha verde, ou seja, compatível com amamentação.

Indetectável ou insignificantemente detectável no leite materno.

Frequentemente prescrito por pediatras para crianças.

Medicação preferencial para alívio de dor em lactantes.

A Academia Americana de Pediatria o considera compatível com amamentação.

Para quem não lê em inglês, o site também está disponível em espanhol… é bem fácil para um falante nativo de português entender. Eu costumo procurar o nome dos remédios em espanhol pois costuma ser parecido ou igual aos nomes em português…rs

Supondo que a medicação fosse incompatível com a amamentação, ele indicaria um equivalente:

elactancia2

Nebivolol é o nome da substância do Nebilet, medicação para hipertensão. Não chega a ser o nível vermelho, mas a indicação é que ele é pouco seguro e que uma alternativa mais segura deveria ser empregada. Ao lado direito, você vê outras quatro opções de medicamentos com a mesma função e risco verde para a amamentação.

O que eu fazia? Entrava com o celular no consultório médico. Se o médico me receitasse algo com risco, eu mostrava para eles e mostrava as opções na direita e 99% das vezes eles amavam o elactancia, anotavam para usar posteriormente e me davam outra opção, dentro das liberadas. Um ou outro médico com baixa auto-estima não gostaram porque sentiram sua divindade e pseudo-autoridade sendo questionadas.

Pronto, ninguém mais precisa ficar sem tratamento médico ou desmamar bebê em caso de necessidade.

3. Eu não tinha leite/não conseguia ordenhar/o bebê chorava de fome

Se você estiver oferecendo o peito em livre demanda e não usar bicos artificiais, o choro não é de fome. Bebês choram e ponto. O mundo é um lugar bem menos confortável que o útero. Existem uma série de técnicas para aliviar o desconforto, como o balde e o sling.

A quantidade de leite ordenhada não é indicativo da sua produção de leite. Tem mulheres que amamentam 2-3-4 anos e nunca conseguiram fazer uma ordenha, ou por falta de manejo ou simplesmente porque o bebê é muito mais eficiente em tirar o leite do que a bomba. Não existe bomba nenhuma no mercado que seja mais eficiente do que um bebê mamando. Além disso, o peito não é armazém, é fábrica. O leite é produzido DURANTE a mamada do bebê.

O leite não seca do nada. Costuma ser bem difícil quando a gente desmama o bebê, muita gente toma remédio para secar o leite porque não é incomum ter leite nos peitos meses ou anos depois do desmame. Mas é possível amamentar e não ver NENHUMA gota de leite. Na verdade, é o normal. É isso que acontece depois que a produção estabiliza. De novo: o fato de você não estar vendo não quer de jeito nenhum dizer que o bebê não está conseguindo mamar.

Também é mais fácil ganhar três vezes na mega-sena do que não produzir leite, estatisticamente falando. É uma condição raríssima que costuma estar ligada a alguns tipos de tumores cerebrais. O que acontece é que nos primeiros após o nascimento do bebê, ainda não há leite no peito da mãe, há colostro e em pouca quantidade, mas o suficiente para alimentar o estômago MINÚSCULO do recém-nascido. O colostro é importantíssimo para a cria e não raro a gente vê as mulheres sendo orientadas a entrar com leite artificial porque o leite “AINDA” não desceu.

4. Tive de voltar a trabalhar então o pediatra me orientou a dar mamadeira com leite artificial.

Péssimo pediatra. Ao invés disso, ele deveria ter te orientado a fazer ordenha e armazenar leite materno. É difícil e muito cansativo, mas totalmente possível manter a amamentação exclusiva na volta ao trabalho. Algumas leis trabalhistas também (tentam) proteger as mães que amamentam. Além disso, se o leite (qualquer um que seja) for oferecido na mamadeira, o bebê vai desmamar e aí você não poderá aumentar nem quando estiver com ele. Ou seja, orientação mais errada que essa não há.

VIRGEMMARIA

5. Meu filho desmamou com 7-8-9 meses porque quis.

Não existe desmame por vontade do bebê antes de 1 ano e idade. Normalmente os desmames estão ligados ao uso de bicos artificiais e erros na introdução alimentar (introdução alimentar muito rápida, por exemplo). Até 1 ano de idade o principal alimento do bebê deve ser o leite materno.

6. Dificuldades não previstas

Elas acontecem e são reais. Freio de língua curto, hiperlactação, mastite, cândida mamária, refluxo etc etc etc Se você tem um problema no carro, você o leva ao mecânico, certo? Se você tem um problema com amamentação, precisa de ajuda especializada – que normalmente não vem do pediatra. Procure uma consultora de amamentação ou um banco de leite! Fale sobre seu problema com mulheres que já amamentaram exclusivamente. Vá atrás de fono. Normalmente, ficar parada em casa esperando melhorar sozinho leva ao desmame porque, enfim, ninguém vai deixar a cria passando fome, né? Eu vivo recebendo pedidos de indicação das leitoras e cada história de sucesso na amamentação sinto um pouco minha também.

A média de amamentação exclusiva no Brasil é de 54 dias, mas definitivamente não é por vontade ou “culpa” das mães…

Como eu sempre digo, a única proteção para as mães é o estudo, não depender de ninguém. E não adianta esperar o bebê nascer para ir atrás disso, afinal ele nasce e já precisa ser alimentado, né? O ideal é aproveitar o período de gravidez para se preparar.

Eu recomendo:

Grupo Virtual de Amamentação

Curso Avançado em Amamentação – Isa Crivellaro (RECOMENDO MUITO!!!)

Amamentar é…

Manual de Aleitamento Materno – SBP

Tetê nosso de cada dia

 

 

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