Disfunções sexuais femininas


Queridas,

Vocês não acreditariam na quantidade de mensagens que recebo de mulheres que têm problemas de ordem sexual. E por mais que a sociedade tente fazer com que a gente deixe nossa satisfação de lado, é fundamental buscar ajuda. O sexo não é uma grande parte somente da vida do homem, como somos ensinadas desde pequenas. Sexo bom e prazeroso é fundamental para a saúde física e emocional de cada um de nós, homens E mulheres. É necessidade, é direito nosso também.

Eu não tinha gabarito para responder à maioria das perguntas, então pedi para a Dra. Samantha Rizzi, fisioterapeuta uroginecológica, explicar um pouco dessas questões para nós, com ênfase em pós-parto.

Não sofram sozinhas em silêncio. Não há nada de feio, não deveria ser tabu. PROCUREM AJUDA ESPECIALIZADA!

Beijos,

Ise.


Vamos conversar um pouquinho sobre as disfunções sexuais femininas. No entanto, primeiro vamos entender como funciona a resposta sexual feminina.

A resposta sexual humana difere da de outros mamíferos, pois está associada ao prazer, independente do ciclo reprodutivo, relacionada a aspectos biológicos, psicológicos e sociais1. Foi primeiramente descrito Masters & Johnson, depois ligeiramente alterado por Kaplan, um modelo linear reposta sexual feminina e masculina, com quatro fases: desejo, excitação, orgasmo e resolução 2,3.

Figura 1 - Modelo linear da resposta sexual

Figura 1 – Modelo linear da resposta sexual

Um novo modelo foi proposto por Basson, o qual considera as particularidades da resposta feminina (modelo circular). Diferente do homem, que tem grande influência da testosterona no início da estimulação, a mulher tem pouca influência hormonal para o estímulo sexual. A estimulação da mulher é mental e subjetiva, motivada por fatores não estritamente sexuais, como, por exemplo, proximidade emocional com o parceiro. Além disso, o orgasmo pode ou não ocorrer e sua ausência não necessariamente está relacionada com insatisfação sexual4.

O modelo circular é importante, pois a maioria das mulheres não apresenta sempre desejo sexual espontâneo e poderiam ser consideradas portadoras de disfunção sexual caso o modelo linear ainda fosse seguido.

Figura 2 - Modelo circular da resposta sexual

Figura 2 – Modelo circular da resposta sexual

As disfunções sexuais femininas são caracterizadas por alterações em qualquer uma das fases do ciclo de resposta sexual feminino, ou por presença de dor relacionada à atividade sexual, que ocasionem sofrimento ou incapacidade de a mulher conduzir sua sexualidade da maneira como gostaria5.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria, que está em sua quinta edição (DSM-V) descreve as seguintes disfunções sexuais femininas 6,7:

– Transtorno do Orgasmo Feminino: atraso ou ausência persistente ou recorrente de orgasmo, após uma fase normal de excitação sexual.

– Transtorno do Interesse/Excitação Sexual Feminino: deficiência ou ausência de fantasias sexuais e desejo de ter atividade sexual / incapacidade persistente ou recorrente de adquirir ou manter uma resposta de excitação sexual adequada de lubrificação-turgescência até a consumação da atividade sexual.

– Transtorno da Dor Genito-pélvica / Excitação: no DSM-IV esse transtorno era anteriormente subdividido em Dispareunia (relação sexual com penetração dolorosa) e Vaginismo (impossibilidade de penetração, geralmente devido à um espasmo doloroso da musculatura da vagina).

Estes transtornos podem estar presentes sozinhos ou combinados, e podem ser categorizados nos seguintes subtipos de ocorrência6:

– Ao longo da vida: desde as primeiras experiências sexuais

– Adquirido: se desenvolveram após um período de função sexual relativamente normal.

– Generalizado: ocorrem independente do parceiro e do estímulo.

– Situacional: ocorrem somente com determinados tipos de estimulação, situações ou períodos.

Resumindo, ausência de desejo sexual após estímulo, ausência de excitação ou incapacidade de mantê-la, ausência de orgasmo ou de satisfação sexual e dor durante a relação sexual, com ou sem penetração, são disfunções sexuais femininas, que devem ser diagnosticadas e podem ser tratadas.

As disfunções sexuais muitas vezes precisam de acompanhamento transdisciplinar, com médico, psicólogo e fisioterapeuta. O médico identificará possíveis causas orgânicas, com alterações hormonais, alterações estruturais e possíveis doenças infecciosas ou sexualmente transmissíveis. O psicólogo avaliará os fatores psicossociais relacionados à queixa sexual, muitas vezes o fator causal de algumas disfunções sexuais. O fisioterapeuta avaliará a consciência e a função de assoalho pélvico, aderências e cicatrizes, presença de dor, além de realizar avaliação global de postura e disfunções motoras.

Apesar de especialidade pouco conhecida, o fisioterapeuta uroginecológico tem ampla atuação no tratamento das disfunções sexuais femininas. Exercícios de assoalho pélvico são utilizados objetivando aumento da vascularização, com consequente melhoria da lubrificação e da excitação8. Além disso, também podem promover o aumento da força dos músculos que se inserem no corpo cavernoso do clitóris, e aumento da sensibilidade pélvica e do fluxo sanguíneo, com melhora do orgasmo 9,10.

As disfunções sexuais dolorosas são tratadas pelo fisioterapeuta com técnicas de consciência corporal e de períneo, massagem, eletroestimulação, biofeedback e técnicas de dessensibilização local. Dilatadores vaginais podem ser utilizados associados a exercícios de relaxamento dos músculos do assoalho pélvico, para que a mulher supere a ansiedade de penetração 7,11. Importante ressaltar a importância do acompanhamento psicoterapêutico da paciente com disfunção sexual, em associação com a fisioterapia.

Particularidades do pós-parto:

O puerpério está relacionado com diversas mudanças fisiológicas e psicossociais. Ocorrem alterações hormonais e corporais, que influenciam a imagem corporal da mulher nesse período conturbado. Além disso, a reestruturação do ambiente familiar, com grande demanda de tempo ao bebê, geralmente ocasiona diminuição na intimidade do casal em vista do novo contexto familiar13.

Dentre os sintomas relacionados às disfunções sexuais relatados no período puerperal estão: diminuição do desejo sexual, dor perineal, vagina seca, incontinência urinária, dispareunia, mastite, sintomas depressivos, cansaço e exaustão13.

A associação entre disfunção sexual e via de parto não é clara, sem diferença relatada na função sexual de mulheres submetidas à cesárea ou ao parto vaginal espontâneo (sem episiotomia ou fórceps)14. No entanto, alguns fatores intraparto são citados como importantes para função sexual no puerpério: laceração perineal, duração do segundo período do parto, tempo de puxos, tipo de fio utilizado e fórceps13.

O trauma perineal, a presença de laceração e o uso de fórceps estão associados com dispareunia e dor pélvica no puerpério. A utilização de fios sintéticos de longa absorção (poliglicólico) nas suturas pode minimizar a dor, especialmente no pós-parto imediato.  Mulheres submetidas a episiotomia apresentam maior possibilidade de permanência da dispareunia e diminuição de lubrificação15 e a utilização de fórceps aumenta a possibilidade de dor perineal persistente e de problemas sexuais no pós-parto16. O parto vaginal espontâneo está relacionado à retomada mais precoce à atividade sexual, em comparação ao assistido17.

Durante o período de amamentação ocorre elevação da prolactina, diminuição de andrógenos e estrógenos e liberação de ocitocina. A diminuição dos níveis de esteroides sexuais pode ocasionar queda do interesse sexual e da lubrificação vaginal, podendo ocasionar dispareunia. A depressão também deve ser considerada com grande fator causal para ausência de desejo sexual e dificuldade de orgasmo no pós-parto13.  É extremamente importante que o casal tenha consciência de que a diminuição do desejo e da lubrificação não ocorre pelo desinteresse sexual da parceira, mas que fatores orgânicos estão envolvidos. O uso de lubrificantes vaginais diminui o desconforto do coito causado pela secura vaginal13.

A disfunção sexual pós-parto, portanto, é multifatorial e deve ser sempre acompanhada pela equipe transdisciplinar. A sexualidade do casal deveria ser investigada mesmo antes da gravidez e durante a gestação, pois algumas alterações podem até nem ser inerentes ao parto, mas prévias. A fisioterapia uroginecológica pode ser uma aliada na prevenção e tratamento de algumas disfunções sexuais18 relacionadas à gestação e pós-parto, através de orientações sobre anatomia pélvica e alterações fisiológicas da gravidez, preparo de períneo e do corpo para o parto (exercícios de consciência, massagem, alongamento e fortalecimento se necessário), acompanhamento fisioterapêutico intraparto e reabilitação pós-parto.

Quero deixar como mensagem final, que disfunção sexual deve fazer parte da avaliação médica e de saúde em geral. A sexualidade é parte importante da saúde do ser humano e precisa ser considerada como tal pelos profissionais de saúde. E o mais importante de tudo, disfunção sexual tem tratamento. Não hesite em buscar ajuda profissional sempre que necessário.

samantharizzi
SAMANTHA KARLLA LOPES DE ALMEIDA RIZZI é graduada em fisioterapia pela UFSCar, mestre e doutoranda pelo Departamento de Ginecologia da UNIFESP. Fisioterapeuta da Rizzifisioterapia

Referências:

1 – Marques FZC, Chedid SB, Eizerik GC. Resposta Sexual Humana. Rev. Ciênc. Méd. Campinas, 17(3-6):175-183, maio/dez, 2008.

2 – Masters WH, Johnson V. Human sexual response. Boston: Little, Browne & Co; 1966.

3 – Kaplan HS. Hypoactive sexual desire. J Sex Marital Ther 1979;2:3.

4 – Basson, R. The female sexual response: a different model. J Sex Marital Ther. 2000;26(1):51-65.

5 – Mendonça CR, Silva TM, Arrudai JT, Zapata MTAG, Amaral WN. Função sexual feminina: aspectos normais e patológicos, prevalência no Brasil, diagnóstico e tratamento. FEMINA | Julho/Agosto 2012 | vol 40 | nº 4.

6 – American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 2013.

7 – American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4ª ed. Texto revisado. Porto Alegre: Artmed; 2002.

  1. Pena Outeiriño JM, Rodríguez Pérez AJ, Villodres Duarte A, Mármol Navarro S, Lozano Blasco JM. Tratamiento de la disfunción del suelo pélvico. Actas Urol Esp. 2007;31(7):719-31.
  2. Chambless DL, Sultan FE, Stern TE, O’Neill C, Garrison S, Jackson A. Effect of pubococcygeal exercise on coital orgasm in women. J Consult Clin Psychol. 1984;52(1):114-8.

10 – Shafik A. The role of the levator ani muscle in evacuation, sexual performance, and pelvic floor disorders. Int Urogynecol J Pelvic Floor Dysfunct. 2000;11(6):361-76.

11 – Rosenbaum T. Managing Postmenopausal Dyspareunia: Beyond Hormone Therapy. The Female Patient. 2006;31:24-30.

12 – Rao TS, Nagaraj AK. Female sexuality. Indian J Psychiatry. 2015 Jul;57(Suppl 2):S296-302.

13 – Vettorazzi J et al. Sexuality and the postpartum period: a literature review. Revista HCPA. 2012;32(4):473-479

14 – Hicks TL, Goodall SF, CNM, Quattrone EM, Lydon-Rochelle MT. Postpartum Sexual Functioning and Method of Delivery: Summary of the Evidence. J Midwifery Womens Health. 2004;49:430–43.

15 – Ejegård H, Ryding EL, Sjogren B. Sexuality after delivery with episiotomy: a long-term follow-up. Gynecol Obstet Invest. 2008;66(1):1-7

16 – Brown S, Lumley J. Maternal health after childbirth: results of an Australian population based survey. 1998;105(2):156-61.

17 – Rowland M, Foxcroft L, Hopman WM, Patel R. Breastfeeding and sexuality immediately post partum. Can Fam Physician. 2005;51:1366-7.

18 – Mendonça CR, Amaral WN. Tratamento fisioterapêutico das disfunções sexuais femininas – Revisão de Literatura. FEMINA | Março 2011 | vol 39 | nº 3.

VOCÊ TAMBÉM VAI GOSTAR

feminismo
Empatia
December 17, 2016
guacamole
Receita do melhor guacamole do mundo
September 20, 2016
pré natal
Mãe precisa de (MUITA) ajuda
August 28, 2016
empreendedorismo materno
A maternidade me transformou em uma profissional mais feliz
August 09, 2016
festa peppa pig
Festa de 2 anos da Catarina: a comida!
July 25, 2016
amamentacao
Curso Avançado em Amamentação
July 19, 2016
gravida
Preparando o períneo para o parto normal
May 15, 2016
Choro-da-Madrugada
Padecer no Paraíso: Aham. Senta lá, Cláudia.
February 18, 2016
utineo
Perdi meu filho enquanto eu estava na UTI
January 21, 2016

1 Comentários

Lisa
Reply 9 de outubro de 2015

Texto ótimo! Nós mulheres desta geração nascida ao final dos anos 70 - começo de 80 - somos o divisor de águas entre uma sociedade machista, sufocante e cheia de tabus para uma de mulheres independentes e com voz. Vamos criar um admirável mundo novo para nossas meninas.

Deixe um Comentário

Seu endereço de email não será publicado. Preencha os campos obrigatórios marcados com *