Educação Infantil Bilíngue: “ensinando” inteligência


Oi, pessoal!

Recebi inúmeros pedidos para falar sobre educação infantil bilíngue no Instagram e tentei fazer um texto bem simples para quem nunca estudou linguística na vida. Espero que ajude!

Eu acho engraçado (e triste!) como todo mundo é especialista em Educação.  A gente ouve barbaridade atrás de barbaridade que as pessoas acostumaram a repetir com o ar de quem passou anos e anos se dedicando ao assunto: “Nossa! Tem um aninho e não vai para a escola? Essa criança precisa socializar, coitada!”, “Período integral é bom porque a criança gosta da escola, assim fica ocupada o dia todo”, “Precisa colocar na escolinha para desenvolver”, “Pagar uma fortuna para colocar uma criança em uma escolha bilíngue é jogar dinheiro fora! Depois faz curso de inglês quando estiver grande…”.

Não estou entrando aqui nos méritos de necessidade e escolhas pessoais, até porque eu como feminista entendo que a creche é a célula mais primordial para a saída da mulher ao mercado de trabalho e reintegração à sociedade pós-maternidade. Mas aqui estou olhando sob a perspectiva do desenvolvimento infantil em todas as esferas e principalmente para o fato de que, em se tratando de educação, as pessoas adoram discordar das ciências em nome de suas opiniões ou justificativas pessoais. Não importa quanto alguém ache que uma criança precise socializar com 1 ano de idade, ela não tem maturidade psicossocial para fazer amigos no conceito de amizade que o adulto conhece e brincar a dois ainda. Em resumo, todo mundo é especialista em educação e neurociências porque já foi para a escola. Eu, entretanto, já fui operada 3 vezes e não me arrisco a ensinar nenhum cirurgião! Hahahahaha

É a sina das Ciências Humanas.

Eu e meu marido decidimos que, após 2 anos em casa, Catarina irá à escola ano que vem. Gostaria de deixá-la em casa mais um ano, entretanto o contexto familiar atual hoje me diz que ela estará melhor meio período na escola. Aqui ela não tem o espaço que precisa, ela não faz as atividades físicas que deveria estar fazendo nessa idade (se o tempo estiver ruim, é o dia inteiro trancada dentro de um apartamento!), em virtude do câncer não posso engravidar a curto prazo – e portanto a única companhia dela é a Dorinha –  e agora, com 2 anos, ela entra em nova fase de maturidade imunológica além de finalmente ter uma maturidade interacional mais complexa e desenvolvida.

BilingualImageComo professora de línguas estrangeiras, a educação infantil bilíngue sempre foi meu sonho de consumo. Há 15 anos, quando eu estudava os processos de aquisição de linguagem na faculdade, já havia decidido que era aquilo que eu queria para os meus filhos. Não precisei nem convencer meu marido, que fala cinco idiomas e também dá muito valor às portas que se abrem para quem fala outras línguas. E não estou falando de mercado de trabalho não. Sinceramente, não é o que eu tenho na cabeça quando penso no início do processo mais importante da formação da pessoa que a minha filha vai ser. Eu penso nas possibilidades culturais, pessoais, de compreensão do mundo, do tipo de cidadã que eu quero que ela seja – sempre disse que eu queria criar uma cidadã do mundo e não uma garota provinciana! Hahahahaha Falar outras línguas te torna uma pessoa com um olhar diferente para a vida. Não é possível aprender uma língua sem aprender a pensar e a raciocinar como os falantes da mesma. Isso significa desconstruir e reconstruir conceitos culturais muito enraizados em nós. Ensina empatia. Ensina respeito. Permite que você alcance graus de compreensão muito mais profundos.

Mas acima de tudo isso, penso nos benefícios cognitivos que só uma criança exposta à duas (ou mais) línguas ainda na infância obtém. Vou detalhar isso mais lá embaixo.

E é de tudo isso que eu quero falar aqui hoje. Como como diriam os ingleses, first things first!

Quem não é da área de linguística ou política, provavelmente nunca nem ouviu falar num fulaninho aí chamado Noam Chomsky. E sem falar da teoria que ele propôs no final da década de 50, não podemos nem começar a ter essa conversa!

A Teoria Gerativa, proposta por Noam Chomsky, assumiu como seu objeto de estudo a descrição e a explicação de algumas características particulares do conhecimento linguístico adquirido e amplamente desenvolvido nos primeiros anos de vida de um ser humano, independente de instrução.  FIORIN, J.L. (org) in Introdução à Linguística p.96

Em outras palavras, Chomsky propôs descrever e, a partir daí, tentar analisar o procedimento complexo de como as crianças simplesmente sabem falar a língua do meio no qual estão inseridas sem que ninguém as ensine formalmente. E isso ocorre – salvo alguma deficiência específica – com todos os seres humanos: ricos, pobres, filhos de pais com estudo ou não, que moram no hemisfério sul ou norte. Você pode até corrigir o seu filho e dizer que não se diz, por exemplo, abou e sim acabou, mas você jamais precisará ensinar que não é possível generalizar a aplicação da passiva a toda a classe de verbos transitivos diretos, que verbos psicológicos são verbos que denotam um estado emocional e funcionam como exceções para que seu filho forme frases como Ana era amada pelo irmão mas não forme frases como *O pai é preocupado por Ana.

Segundo Chomsky, a faculdade de linguagem é INATA ao ser humano. Isso significa que todas as crianças, sejam elas falantes de português, chinês ou suahíli, são dotadas da mesma faculdade da linguagem e partem do mesmo estado inicial. Esse estado inicial vai sendo modificado à medida que a criança vai sendo exposta a um determinado ambiente linguístico. Assim, uma criança que cresce em um ambiente linguístico em que se fala português desenvolve o conhecimento dessa língua, a partir da interação da informação genética que ela traz no estado inicial de sua faculdade de linguagem com os dados linguísticos a que é exposta. Esse conhecimento permite às crianças construírem todas as sentenças possíveis de sua língua. FIORIN, J.L. (org) in Introdução à Linguística p.96

Simplificando, toda criança nasce com o “aparelho” para falar qualquer língua do mundo. E esse aparelho vai ser “configurado” para funcionar nas línguas às quais essa criança for exposta.

Entendem aonde quero chegar?

Quero dizer que, uma criança que seja exposta à duas línguas, vai ter competência de um falante nativo nessas duas línguas. É um processo totalmente diferente de adquirir uma segunda língua num curso de idiomas, estudando regras e fazendo exercícios de drilling. Por mais proficientes que sejamos numa segunda língua, se crescemos nos comunicando em português, seremos nativos em português e poderemos aprender outras tantas línguas quanto quisermos – ou conseguirmos. Uma criança que é exposta a duas línguas é NATIVO nas duas. São dois sistemas independentes de língua no cérebro, duas “configurações” do aparelho, funcionamento ao mesmo tempo.

É o que podemos observar nos filhos de casais de nacionalidades diferentes. Se cada um dos pais comunica-se com a criança em sua língua, a criança cresce igualmente proficiente nos dois idiomas, sem nunca precisar sentar e estudá-lo (não para aprender a falar, mas obviamente para que se aprendam as nuances da língua, a formalização do “natural” faz-se necessária, tal qual nós temos aulas de português na escola mesmo sendo falantes nativos…).

Honestamente, não acredito que a educação bilíngue tenha exatamente o mesmo efeito dos pais de nacionalidades diferentes, por diversos motivos: tempo de exposição às duas línguas, questão afetiva da língua, os professores muito provavelmente não são nativos – até porque a criança se expressa em português com frequência etc Mas tudo isso, do ponto de vista dos benefícios, não desabona em nada a proposta bilíngue.

E é sobre isso que eu estava falando lá em cima, quando disse que minha opção pelo ensino bilíngue não tinha relação com o fato de querer que a minha filha aprenda uma língua aos 2 anos de idade. Eu quero que a minha filha USUFRUA DOS BENEFÍCIOS DE APRENDER UMA LÍNGUA AINDA PEQUENA.

Compliquei? Explico: falar (ou compreender, no caso de uma criança de 2 anos) inglês é a cereja do bolo. É bônus. É extra. Os bilíngues têm uma série de vantagens cognitivas se comparados aos monoglotas. Existe um estudo canadense, por exemplo, que mostra que os bilíngues superaram os monoglotas em 15 testes, verbais e não verbais. Em TODOS os testes que foram aplicados – de raciocínio lógico a interpretação de textos – os bilíngues pontuaram mais. Estudos americanos mostram que crianças expostas a duas ou mais línguas antes dos três anos de idade terão facilidade para aprender idiomas pelo resto de suas vidas.

Bialystok, cientista canadense especialista em bilinguismo,  defende que os cérebros de bilíngues passam por melhorias no chamado “sistema executivo” do cérebro, um conjunto de habilidades mentais que dá capacidade de bloquear informações irrelevantes. Essa vantagem seria a responsável por eles conseguirem se concentrar na gramática e ignorar o sentido das palavras. A característica também os ajuda a passar de uma tarefa para outra sem ficarem confusos. O sistema executivo é fundamental para praticamente tudo que fazemos, da leitura à matemática e até dirigir carros. Logo, melhorias nesse aspecto resultam em maior flexibilidade mental.

As virtudes do bilinguismo podem até alcançar nossas habilidades sociais. Outros estudos de Princeton mostraram que indivíduos bilíngues são mais capazes de se imaginar no lugar dos outros, pois têm mais facilidade de bloquear informações que já conhecem e se concentrar no ponto de vista alheio.

São muitos os estudos mostrando as vantagens do bilinguismo. Em geral, eles apontam para vantagens no desenvolvimento cerebral. E o que mais a gente busca em uma escola de educação infantil?

Infelizmente, a Educação Infantil no Brasil ainda tem status de “depósito de crianças”. Os pais, normalmente por necessidade alinhada à falta de informações, acabem procurando pelo lugar onde possam deixar seus filhos entretidos enquanto estiverem no trabalho. O que a ciência mostra, entretanto, é que são os primeiros anos de escolarização os mais importantes na vida da criança. São eles que vão ditar os ritmos de desenvolvimento, o relacionamento dos alunos com o estudo para o resto da vida, o quanto de seu potencial a criança vai aprender a usar e até inteligência emocional. Dessa forma, não é incomum que os pais acabem por optar em colocar o filho em uma escola mais “meia-boca” porque ele é pequeno e deixarem para investir de verdade no colegial, ou quando a criança for maior.

Vale dizer que essa qualidade não necessariamente tem a ver com preços. Temos excelentes escolas públicas que são de modelo e referência nesse sentido (infelizmente, não conheço nenhuma bilíngue) e inúmeras escolas particulares caras que minam o desenvolvimento infantil por falta de estrutura ou despreparo dos profissionais.

A ciência diz que, a melhor hora de investir no seu filho, é enquanto ele é pequeno. E não é só investir dinheiro não. É investir tempo, paciência, pesquisa, execução de processos…

A Teoria do Período Crítico, inclusive, nos mostra que após a puberdade, a forma como nosso cérebro aprende uma segunda língua é totalmente diferente.

Tenho tanto, tanto, tanto, mas TANTO para falar desse assunto que acho que vou precisar de uns mil posts! =) Pretendo voltar ainda para contar porque escolhi a escola da Catarina enquanto proposta didática (não é só de falar inglês que vive o desenvolvimento da criança, né? Rs).

Uma salva de palmas para quem leu até aqui! Rs Espero ter ajudado a clarear um pouco para quem não é da área mas quer conhecer todas as opções para fazer uma escolha consciente e bem-pensada!

Se tiverem dúvidas, podem escrever nos comentários. Eu prometo que respondo o que eu souber e pesquiso o que não souber.

Ótimo resto de sábado a vocês,

Thaise.

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1 Comentários

Juliana
Responder 22 de novembro de 2015

Adorei! Penso exatamente igual! Desde os 2 aninhos, Davi está no bilíngue e nem por isso deixou de aprender o português ou aprender errado. Pelo contrário. Conjuga os tempos verbais bem demais pra idade dele! Valeu demais colocar ele no inglês! Não me arrependo de jeito nenhum! ????????????????????????????

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