Em terra de mamadeira, quem amamenta…


Quando eu falo para vocês que amamentar exclusivamente é uma verdadeira guerra, eu não estou falando de ensinar a pega certa, de deixar o bebê mamar sangue tamanha as fissuras do peito, de voltar a trabalhar quando o bebê tem 4 meses e manter a amamentação exclusiva até 6, de estar à disposição do bebê dia e noite. Eu não estou falando da exaustão que dá no final do dia (muita gente não sabe que amamentar exclusivo te suga as energias e você acaba o dia como se tivesse corrido uma maratona – passa a noite em claro muitas vezes – para correr outra maratona no dia seguinte). Eu não estou falando do fato que você precisa organizar todos os seus mínimos passos pois se ausentar 1 horinha quer dizer deixar leite congelado, um cuidador treinado em oferecer o copinho, um bebê treinado em tomar o copinho, ordenhas prévias, bomba de leite, recipientes estéreis.

Nada disso.amamentando em públicoEu estou falando em viver em um mundo que não está preparado para amamentação exclusiva. Um mundo onde o default é a mamadeira. Onde as pessoas te olham feio porque você defende licença de 6 meses. Mas o que custa dar mamadeira para ir trabalhar? Custa muito. Pode custar a amamentação que foi tão suada lá no começo e que foi conquistada a duras penas com sonda, ordenhas para complementar com meu próprio leite. Uma amamentação conquistada literalmente com sangue (Aurora mamou sangue várias vezes entre as sessões com laser para cicatrizar o mamilo que latejava a cada mamada). Custa a formação dos músculos faciais, da arcada dentária. E, principalmente, vai contra as recomendações da OMS. Como normalizar uma prática que vai CONTRA o que é preconizado e validado pela ciência?

Difícil é viver nesse mundo.

Há quase 4 anos, eu acordei de madrugada com dores muito fortes nas costas depois de comer pizza com uns amigos na janta. Eu tinha cálculo biliar (tanto que acabei operando a vesícula depois) e não sabia ainda, mas estava tentando a minha primeira cólica biliar. Uma madrugada muito fria, Catarina com 1 mês, enrolada no bebê conforto com uns 3 cobertores, eu chorando de dor na sala de espera do Hospital Vitória, na Vila Formosa. Demoraram umas 2h para me chamar. Quando o médico finalmente me chamou, ele receitou uma medicação para a dor enquanto eu aguardaria por exames: o bom e velho Buscopan na veia, remédio de todo mundo, da galera que abusou na balada até as cólicas de grávida (nas duas gravidezes, eu tomei MUITO Buscopan na veia). E a orientação: eu não poderia amamentar a minha filha por 24 horas depois de tomar o Buscopan. Tinha que dar mamadeira nesse meio tempo.

Como é que é?

Em resumo: ou eu abria mão da amamentação exclusiva ali (na mamadeira, o que é mais incabível ainda) para tomar uma medicação que – hoje eu sei – é compatível com a amamentação ou iria embora com dor.

Nessa época, eu ainda estava dando leite para a Catarina com a seringa, indo quase que diariamente ao banco de leite, lutando muito para engrenar a amamentação. E não pensei duas vezes: fui embora com dor. Atenção: eu fui embora para casa, sem medicação, com cólica biliar.

No dia seguinte, falei com a minha obstetra e com a pediatra da Catarina, que acharam um absurdo eu não ter sido medicada. A pediatra da Catarina, inclusive, me disse nesse dia algo que eu nunca mais esqueci: as duas únicas coisas incompatíveis com amamentação são HIV e tratamento para câncer. Foi a primeira coisa em que pensei quando peguei minha biópsia de tireoide, um tempo depois.

Catarina mamou somente meu leite até 1 ano e 4 meses, quando precisei desmamar em virtude do câncer de tireóide.

Nesse meio tempo, conheci o e-lactancia e fui aprendendo, sempre instruída pela minha gineco e pela pediatra da Catarina, o que podia e não podia. Assim, vi que medicação e amamentação não eram, absolutamente, incompatíveis.

Mas penso em quanta gente que saiu do Hospital Vitória – e de tantos outros hospitais – com orientações tão equivocadas pode ter desmamado um bebê…

Anos se passaram, muito se fala sobre amamentação, a informação está mais do que espalhada. Esse tipo de coisa não acontece mais, não é?

Infelizmente a história se repete.

Eu nunca mais havia voltado ao Hospital Vitória até hoje. Meu plano mudou e fui empurrada para lá de novo. Mas juro: cheguei de mente aberta, apreciando a rapidez (fui atendidaamamentação em uns 15 minutos!) e certa de que era um problema localizado, do médico que me atendeu naquela madrugada. Eu estou há 3 dias com uma dor bem estranha do lado da barriga e fiquei com medo que pudesse ser apendicite. Fiquei com tanto medo que hoje cedo comecei a estocar leite para a Aurora, tamanha a dor. Eu tinha certeza que ia ser internada e operada. Vocês sabem como é, mãe entra em desespero esperando o pior. Hoje cedo eu chorava de dor para me movimentar e eu sou bem resistente a dores em geral.

Como sempre, eu aviso todo mundo que amamento exclusivamente. Desde a enfermeira da triagem até o médico durante a consulta. O Dr, simpático e atendia bem, me examinou e disse que a minha dor era muscular. Ufa! Parece que uns 3kgs saíram dos meus ombros. E no final das contas, fazia todo o sentido ser muscular pois a Aurora tem passado umas semanas bem difíceis, o dia inteiro no colo, no peito e vamos combinar: ela está com quase 8 kgs. Eu passo metade da madrugada sentada torta amamentando e durante o dia levo a vida como dá.

-Precisa fazer repouso.
-Mas Dr, eu tenho duas filhas. Uma de 3 anos e uma de 4 meses… cuido sozinha delas o dia todo.
-Se fizer esforço, a dor não vai passar.

Suspirei e me resignei. O que um homem daquela idade sabe sobre criar filhos? Fiz o que toda mãe faz, chacoalhei a cabeça, exasperada concordando – e sabendo que repouso na minha vida non ecsiste. Qual seria a minha alternativa? Contratar alguém para colocar e tirar a Aurora do berço, trocar a Catarina, me dar a Aurora para mamar quando eu estiver sentada com as costas retas na cadeira de amamentação?

Não me lembro se ele perguntou se eu amamentava, lendo a minha ficha, ou se eu falei de novo. Sei que ele me disse que quem amamenta não pode tomar anti-inflamatórios, corticóides, relaxantes musculares. Só paracetamol.

Mostrei o e-lactância para ele, disse que a minha obstetra havia me ensinado a usar, e que havia opção para todas as medicações. Quase tudo era liberado, mas o que não era, o próprio sistema dava um alternativa de um equivalente e ele poderia me escolher o que achasse mais adequado.

Juro, ele nem deu bola. Nem olhou. Abriu uma bula no computador (cetoprofeno, acho) e me mostrou que era contraindicado para grávidas e lactantes.

-Mas, Dr…a gente sai do hospital tomando cetoprofeno depois da cesárea! Já tomei várias vezes, é inclusive o antiinflamatório que a minha obstetra me recomenda amamentando…

-Ah é? Ela autorizou? Então vou prescrever, mas fica sob seu critério.

Ainda, como última alternativa, tentei mostrar a ele que o cetoprofeno estava liberado no e-lactância:

-Olha, aqui, Dr. É verde! E ainda li para ele o que dizia.

cetoprofeno

Eu estava COM DOR. Uma dor suficiente para me tirar de casa correndo de manhã, fazer meu marido perder a manhã de trabalho para ficar com a bebê e ir até o hospital. Mãe não vai ao hospital à toa, especialmente mãe de bebê. Quando ele disse “relaxante muscular” meu olho brilhou. Pensei logo que se eu estava com toda aquela dor muscular, era justamente o que eu precisava para ficar BOA e voltar ao normal. Porque com duas crianças em casa e trabalho para fazer, a gente não tem o direito de ficar mal, deitada, de repouso. Eu precisava de algo que me colocasse de volta à ativa. Provavelmente o cetoprofeno vai fazer isso, mas amanhã ou depois. E até lá? O que eu faço da minha vida hoje? Se ele, que é o médico, achasse que o relaxante muscular não era uma boa ideia, talvez algo injetável? Mas não. Sabem como é. Quem amamenta, só pode paracetamol. Aliás, na própria bula do paracetamol diz que é preciso discutir com o médico em caso de lactação…

Eu já caí no erro de bater boca, de ouvir “eu sou o médico” e lamento que não sejam todos os profissionais realmente interessados em discutir tratamento com pacientes, em dar opções, em simplesmente OUVIR. Tudo bem ele não saber nada sobre amamentação, de verdade. O problema está em não querer aprender. O e-lactância hoje poderia ter mudado completamente a prescrição dele para mim e para outras futuras pacientes lactantes que ele poderá ter. Fosse para mandar um whatsapp para a minha obstetra perguntando qual relaxante muscular eu posso tomar, não teria gasto um tempo precioso da minha vida – no mínimo, eu que não dormi com a dor à noite, poderia ter me deitado no sofá enquanto a Aurora fazia a sonequinha da manhã.

O mundo não está preparado para a amamentação exclusiva, eu não tenho dúvidas. Mas ver que um hospital não está preparado para seguir as recomendações da SBP e da OMS (sim, sabemos que vocês também oferecem mamadeira na UTINeo, duas amigas passaram meses tentando reverter os danos causados à amamentação feitos aí) é de chorar. Parece que amamentar é frescura e mãe que amamenta tem que sofrer mesmo.

NÃO TEM.

Ah…e a saber:

  1. Procurei todos os componentes receitados no relaxante muscular da obstetra. Todos liberados para quem amamenta.
  2. Corticoide também pode:
    Compatibilidade de Prednisona

    Compatibilidade de Prednisona

    3. Antiinflamatório, se não pudesse, ninguém teria alta do hospital pós-cesárea…

    4. Eu sou doadora de leite. O Hospital Leonor Mendes de Barros, para onde doo, faz uma triagem e acompanhamento muito sérios das doadoras. Quando comecei a doar, eu inclusive usava medicação psiquiátrica para o transtorno de ansiedade. Imagina se só pudesse paracetamol se eu poderia ter doado os quase 40 litros de leite que doei até agora?

doação de leite

E o mais importante: Tudo bem (acho) não conhecer o e-lactância, ou de repente não querer seguir guidelines internacionais, sei lá. Mas o MINISTÉRIO DA SAÚDE tem um documento online, disponível para consultação do público (inclusive pacientes, para azar dos médicos menos preparados) com os remédios liberados e proibidos para amamentação. E não é novidade. Esse que eu consultei hoje é de 2010, quando eu nem pensava em amamentação.

PARA CONSULTAR, CLIQUE AQUI.

Este documento do Ministério da Saúde é retificado pela SBP. Aliás, a SBP tem um capítulo atualizado só sobre isso no Manual de Aleitamento Materno. Custa menos de R$ 40,00 e poderia ajudar o Hospital Vitória a abolir as mamadeiras da UTINeo, por exemplo.

Não podemos ficar caladas, temos de comprar essas brigas para que não sejam as batalhas das nossas filhas no futuro. Para que toda mulher receba informação de qualidade, atendimento de qualidade. Cada bebê desmamado indevidamente é um pouco nosso filho também. Cada mãe que chora o desmame leva lágrimas nossas.

Em terra de mamadeira, quem amamenta merecia atendimento VIP e não achismo e argumento ad hominem. Cuidar de uma mãe que amamenta é cuidar de 2 pessoas (às vezes 3 ou 4!).

Como vocês podem ver, quem quer amamentar exclusivamente, mata um leão por dia. É uma verdadeira guerra. E infelizmente a batalha a ser travada contra a galera da saúde, que mais deveria APOIAR a mãe lactante, e principalmente contra os hospitais e seus protocolos que vão contra as evidências científicas é dura. Se você souber mais ou menos sobre amamentação acaba por sucumbir cedo ou tarde. E é por isso que eu não canso de recomendar que vocês estudem, estudem, estudem se quiserem amamentar ANTES do bebê nascer (depois fica bem mais difícil pois em meio à turbulência, você ainda precisa alimentar seu filho).

Leite materno é o melhor alimento que você pode oferecer ao seu filho. E isso não significa que em 2017 você precise sofrer. Pelo menos não mais do que alguém que não amamenta.


Para quem quer estudar, recomendo SEMPRE:

CURSO AVANÇADO DE AMAMENTAÇÃO – ISA CRIVELLARO

É pago, mas é o melhor e mais completo. Pode dividir no cartão e no final das contas, não custa muito mais que uma semana de leite artificial comprado na farmácia.

GVA – ÍNDICE ALFABÉTICO

Grátis, o tira dúvida mais rápido que você vai encontrar na internet, com referências científicas sempre. Eu, honestamente, não morro de amores pela parte da criação com apego. Faz parecer que é impossível amamentar exclusivamente sem fazer cama compartilhada, por exemplo – o que não é verdade. Mas a parte técnica é espetacular. Das informações grátis, é imbatível.

AMAMENTAR É

O blog da Chris Nicklas, aquela que era da MTV quando éramos adolescentes, é muito bom, com várias fontes confiáveis e embasamento científico.


 

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9 Comentários

Vanessa
Responder 29 de novembro de 2017

Perfeito texto, o mundo realmente faz propaganda sobre amamentação, mas não está preparado, como a licença amamentação não é lei nada pode obrigar as empresas a conceder o tal benefício, 14 dias a mais fariam muita diferença pra uma mãe.

Renata
Responder 28 de novembro de 2017

Eu! Hahaha eu não tomei nenhuma medicação depois da cesárea... O.O Acabou de conhecer uma! Hahaha

Aline
Responder 28 de novembro de 2017

Ah, vale também dizer que, um bom tempo depois, fui internada com uma dor abdominal, em plena amamentação de um bebê de 10 meses (minha segunda filha). Em todos os procedimentos avisei sobre a amamentação e fui extremamente respeitada por todos os profissionais, inclusive o médico, que autorizou a entrada dela para que eu desse de mamar, já que eu não tinha estoque de leite congelado em casa.
Isso é apoiar a amamentação, Hospital Vitória. Aprendam lá com o Villa Lobos, na Mooca.

Aline
Responder 28 de novembro de 2017

Por que o ego de alguns profissionais de saúde não permite que eles também aprendam com uma paciente? Por que eles não nos escutam? Por que? Já vivi isso. Eu tive uma sinusite horrível e amamentava minha filha de 1 ano e 1 mes na época. A médica foi receitar o antibiótico e eu logo avisei “ Dra. eu amamento “ a resposta dela foi “quanto tempo tem o bebê “, e ao ouvir minha resposta virou os olhos e falou “ah, então vc vai gastar, porque esses são mais caros viu”.
Pra que isso, gente?

Fabiana
Responder 28 de novembro de 2017

Em pleno 2017 sair de PS com dor pq amamenta é surreal. Só pra constar eu sair da maternidade com cetaprofeno tratamento pós parto. Amamentando exclusivo.

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