Hipotireoidismo e gravidez: um desabafo


Quem não me segue há muito tempo, provavelmente não sabe que eu tive câncer de tireoide.

Para saber como eu descobri, clique AQUI.

Para saber sobre a cirurgia de tireoidectomia, clique AQUI.

Para saber sobre a iodoterapia, clique AQUI.

Você também pode ler os posts que eu fiz na época na hashtag #lutandocontraocancerdetireoide no Instagram.

Em resumo, eu não tenho mais a tireoide, portanto tomo hormônio sintético todos os dias. Em miúdos, é como se eu tomasse pela boca aquilo que eu não tenho mais tireoide para produzir. O grande problema é que normalmente se demora muito para acertar completamente a dose (tem médicos que falam em uma média de 5 anos) e qualquer “coisinha” que acontece pode desestabilizar. Isso quer dizer que você demora um mundo para estabilizar a quantidade certa de hormônios para você e voltar a ter “vida normal”, mas isso não quer dizer em absoluto que será a dose que você vai tomar o resto da vida. Engordou, muda a dose. Emagreceu, muda a dose. Às vezes nada aconteceu, mas seu metabolismo mudou, muda a dose. Por isso, quem não tem tireoide faz um controle frequente com exames de sangue. No primeiro ano sem tireoide, era um ao mês. Eu praticamente tenho carteirinha de laboratório de análises clínicas, cliente VIP.

Acontece que ano passado, acertou a minha dose. A primeira coisa que foi visível é que comecei a perder o peso que ganhei durante o processo todo. Em 3 meses, sem muitos esforços, eliminei 15kg. Outra coisa é que meu ânimo mudou: de 3 remédios psiquiátricos que eu tomava, passei a tomar um só e na metade da dosagem que eu tomava anteriormente.

Sabe o que aconteceu? Fiquei tão bem, mas tão bem, que engravidei na primeiríssima vez que namoramos em 3 anos sem proteção.  Leia mais AQUI.

A gravidez é uma daquelas “coisinhas” que muda todinho o esquema hormonal de quem não tem tireoide porque o corpo passa a exigir MUITO MAIS.


Da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia:

Hipotireoidismo

1. De que maneira o hipotireoidismo afeta a fertilidade da mulher?

Resposta: Existe uma interação importante entre os hormônios tireoidianos (HT) e os ovários. Assim, receptores tireoidianos, que são estruturas através das quais os HT atuam, são expressos nos oócitos e células da granulosa do ovário. Os HT sinergizam com FSH (hormônio hipofisário que estimula o ovário) para exercer efeitos estimulatórios diretos nas células da granulosa incluindo diferenciação morfológica. Estudos experimentais mostram que o T4 (hormônio da tireoide) é necessário para taxas máximas de fertilizações e desenvolvimento do óvulo fecundado.

2. Quais os cuidados necessários durante a gravidez, nos casos de mãe com hipotireoidismo?

Resposta: Durante a gravidez, as mulheres portadoras de hipotireoidismo devem ter a sua dose diária de T4 aumentada. Não é bom para o desenvolvimento do bebê se o T4 estiver baixo. Além disto, as mulheres com hipotireoidismo podem ter dificuldade de engravidar e tem maior risco de abortamento.

3. Em mulheres que engravidam durante o tratamento de hipotireoidismo a dosagem do hormônio pode prejudicar o bebê?

Resposta: O ideal é que a mulher hipotireoidiana tenha a gravidez planejada e engravidem com concentrações normais de T4 no sangue. Entretanto, assim que souberem da gravidez devem procurar o seu endocrinologista, o qual, provavelmente, terá que ajustar a dose da medicação. O hipotireoidismo bem controlado não trará qualquer prejuízo ao feto.

4. A mulher que está amamentando pode continuar fazendo sua reposição de hormônios da tireoide sem causar danos ao bebê? Existe algum medicamento específico neste caso?

Resposta: A mulher hipotireoidiana poderá amamentar o bebê sem qualquer problema, mas deverá ajustar a dosagem da medicação, de acordo com as recomendações médicas.


Tenho feito a minha lição de casa, dosando aos hormônios, indo ao médico e cuidando do pré-natal direitinho. Mas desde o começo da gestação, estou travando uma batalha contra meu TSH. Ele deveria ficar entre 0,5 e 2,5 e raramente estava abaixo de 3,5-4, o que me dava cansaço, peso no corpo, a pele absurdamente seca, me fazia engordar com facilidade (já foram quase 10 kgs nessa gestação!), perdi muito cabelo, tive muitas dores no corpo, nenhuma capacidade de concentração e mais vários e vários outros sintomas do hipotireoidismo

Este mês, piorei muito. Muito mesmo. Eu, que sempre fui uma pessoa extremamente matutina e pulo da cama sem o menor esforço, comecei a não conseguir levantar para ir trabalhar. Meu cabelo, que sempre foi lisinho e bonito está parecendo uma palha. Não tenho ânimo nem forças para fazer nada, absolutamente nada. Enrolo uma vida para levantar e fazer xixi porque dói levantar para ir até o banheiro. Eu nunca fui de dormir à tarde, mas seu eu não deitar, não consigo fazer absolutamente mais nada o resto do dia. Fui à consulta de pré-natal e minha médica disse que não queria que eu esperasse até o final de semana (sempre colho sangue aos sábados ou domingos para não perder dia de trabalho) para a coleta. Queria na manhã seguinte. Ela, que já me conhece muito bem, farejou e farejou certeira: meu TSH estava em quase 16!

Eu, obviamente, fiquei muito preocupada. Sei o tanto que aumenta o risco de aborto, de restrição de crescimento, de parto prematuro (péssima ideia quando você está só de 23 semanas), de possibilidades de sequela e tudo mais. Já vi esse filme antes, na gravidez da Catarina, que nasceu de 37 semanas. Mas eu chorei de alívio ao pegar o resultado.

Alívio porque as pessoas não entendem o que é o hipotireoidismo. É um monte de gente falando que você “tem que lutar contra” a falta de ânimo de vontade de fazer as coisas, como se fosse algo psicológico. NÃO É. A tireoide controla quase tudo no nosso metabolismo. Os sintomas mais doidos estão ligados à problemas com ela. É gente te olhando como se fosse folga. “Como assim não consegue levantar do sofá?”. E eu tentei seguir vida normal, continuo trabalhando fora no período da manhã, cuidando sozinha da minha filha à tarde, fazendo meus frilas à noite. Continuo tocando todos os meus projetos paralelos, mesmo que mais devagar (vide o blog, coitadinho!). Mas às vezes não dou conta e preciso deitar. Preciso descansar. Preciso respeitar meu corpo. E me dá uma vontade absurda de chorar porque essa NÃO SOU EU. Eu sou a Thaise que levantava às 4h30 da manhã e ia dormir às 23h, feliz e realizada. Cansaço nunca me parou. Sempre fui ligada no 220v, sempre fiz um milhão de coisas ao mesmo tempo e sempre fui feliz. Eu me pego pensando se algum dia serei assim de novo. Acho que não.

Enfim, mas esse sofrimento todo as pessoas não veem. O hipotireodismo só é real para quem o vive. Para as outras pessoas, não há nada que o diferencie de uma ressaca, de uma gripe forte ou de pura folga. E é muito difícil lidar com isso. Não, não dá para levantar e ir à padaria. Tem dia que não dá para levantar e tomar banho. Não, não dá para sacudir a poeira e fazer esforço. Tem dia que não dá para ler um único parágrafo. É frustrante demais. Mas é muito mais frustrante para quem sempre foi independente e resolveu a vida dependendo só de si.

Para mim, já é um esforço absurdo depender das pessoas em virtude da gravidez. Cai alguma coisa no chão e ninguém faz menção de pegar, eu não peço. Eu faço o maior contorcionismo da paróquia e pego. Não me oferecem lugar para sentar, eu fico em pé. Não me mandam parar um pouco, eu não paro. Não me dão lugar na fila, eu não entro na frente. Só peço para a minha mãe. Porque eu SEI que a minha mãe não me julga. Mesmo assim, fico sem graça de pedir sempre, porque sei que ela tem a vida e as obrigações dela.

O hipotireoidismo é um aprendizado de vida forçada porque eu simplesmente não dou conta. Eu não tenho como dar conta sozinha. É horrível, absurdamente horrível, ter de sair dirigindo, sentir tontura e pensar: “Eu não deveria estar fazendo isso…mas vou fazer o quê? Não tenho outra opção!”. “Eu não devia estar indo trabalhar hoje”, “Eu não devia levantar daqui hoje”. Mas simplesmente preciso achar um limite entre dar conta e pedir ajuda, porque também tenho que pensar na coitada da Aurora. Decidir parar, apesar de todas as obrigações, é minha responsabilidade de mãe também. E sempre, ABSOLUTAMENTE SEMPRE, a Catarina e a Aurora serão minhas prioridades.

Chorei de alívio porque, afinal, eu não sou folgada. Eu só estou doente.

Como diz o meu psiquiatra, a minha vida vai ficar mais fácil no dia que eu ACEITAR que tenho uma limitação. Mas é difícil para mim. Não sei, eu tenho a impressão de que quando eu começo a aceitar, vem alguém e insinua que eu sou folgada/irresponsável/distraída e fica tudo mais difícil.

Eu acho que estava lidando melhor com isso antes de estar grávida. Eu normalmente sou do tipo de pessoa que não liga uma vírgula para opinião alheia, nunca liguei. Só me preocupo em ser feliz e beijo para quem perde tempo enchendo. Mas eu estou extremamente sensível nessa gravidez, muito mais do que fiquei na da Catarina. Se algo, de leve, me incomoda eu choro. Choooooooro. É mais forte do que eu.

Sei lá, sempre tenho essa impressão de que gravidez é um negócio que deixa a gente totalmente fora de quem somos mesmo. Eu quase admiro essas grávidas impassíveis, cuja vida é exatamente a mesma antes e durante a gravidez. Eu não sou mesma. Eu sou uma versão muito, mas muito mais vulnerável de mim mesma. Tento fazer disso um exercício contínuo de auto-conhecimento. Tento observar melhor quem sou nesses momentos em que estou muito mais “intensa”.

Lerda e, ao mesmo tempo, intensa. Há. Coisas que só dividir seu corpo com outro ser humano pode fazer por você.

A boa notícia é que estou curtindo mais a minha barriga do que na gravidez da Catarina. Estou menos incomodada com ela em todos os sentidos. Sinto bem menos pressão do que sentia na primeira gravidez, as contrações de treinamento são bem menos frequentes (pelo menos por enquanto!) e ter a Catarina enfiada na minha barriga o dia inteiro interagindo com a Aurora é simplesmente o máximo.

Sobre a conduta médica, gineco e endocrino aumentaram imediatamente a minha dose por alguns dias para subir bem mais na semana que vem – não pode subir de uma vez o tal hormônio. Em 30 dias, vou colher sangue novamente. Torçam por mim… mas até lá, vai ser punk. Paciência. Não vai ser a primeira vez que vou passar por isso.

O prêmio vale milhões de vezes o processo. 😉

Beijocas,

Ise

 

Obs.: Acho que deu para entender o por que de eu estar postando com uma frequência tão doida, né? Não tenho mais dia fixo para postar, posto quando aguento. Então, assine o blog. Basta deixar seu e-mail na nossa newsletter e confirmar na mensagem que vai receber imediatamente. Assim, você recebe todos os posts no seu e-mail e não perde nada. Cuidado com a caixa de spam 😉

 

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3 Comentários

Glaucia
Reply 31 de maio de 2017

Haha exatamente assim .. estou gravida de gemeos, com hipotireoidismo ..pensa numa exaustão 😂

    Thaise Pregnolatto
    Reply 4 de junho de 2017

    MEEEEEEEU DEEEEEEEEEUS! Você me mostrando que sempre dá piorar hahahahhahaa Firme aí, miga! #tmj

vivi
Reply 2 de abril de 2017

Descrição perfeita do que sinto como gravida com hipotireoidismo! Me senti bem melhor agora nao sou a única! Eu sempre falava do cansaço da preguiça mas as pessoas acham que é pura desculpa! E eu odeio me sentir assim!
Também estou na luta pela dosagem correta, pior é não entender direito a respeito dessa condição!
Gratidão pelo seu post! Boa sorte

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