Maternidade e culpa


O filhinho de uma grande amiga está para completar um ano por esses dias. Por isso, ela parou de ordenhar e não vai mais deixar leite congelado para ele. Ele vai mamar “só” quando estiver com ela, ou seja, quando ela não estiver trabalhando.

No meio da manhã, essa amiga mandou uma mensagem e disse que estava com muito peso na consciência, sensação de estar fazendo algo errado, de não estar suprindo as necessidades do filho, de estar pensando nela em primeiro lugar.

Como heavy user de bomba extratora de leite, sei bem do que ela está falando. Tirar leite, todos os dias de sua vida várias vezes ao dia, cansa. Cansa muito. O barulho, a necessidade de ficar sentada parada quando você tem muito o que fazer, as muitas horas de sono deixadas de lado para ordenhar… não é mole. Mas não é MEEEEESMO. Eu brinco com esse grupo de amigas minhas e digo que amamentação depois de um ano é level easy porque amamentar sem ordenhar é muito fácil. A pior parte do aleitamento depois do início são as ordenhas, não tem nem discussão. É quase uma escravidão.

E a gente faz isso exclusivamente pelo bem dos filhos. Porque é daquelas atividades que não dão benefício NENHUM para nós, mães. É só na base do amor e vontade de amamentar mesmo.

Respondi para ela que às vezes eles crescem e as novas fases dão um frio na barriga. Eu me sentia muito estranha quando, com mais de 6 meses, dei a primeira fruta para a Catarina. A sensação de que estava fazendo algo errado me rondou por dias. Eu parava, respirava e me dizia que ela estava crescendo e que aquela era a nova fase. Às vezes é uma simples questão de se habituar com a fase nova e com a verdade absoluta: eles crescem rápido demais.

Tenho, inclusive, passado um pouco por isso esses dias. Eu me propus a não mandar a Catarina para a escolinha de jeito nenhum nos dois primeiros anos da vida dela, seguindo a guideline dos primeiros 1000 dias da criança. E amanhã vou fazer a matrícula da criança para o ano que vem. Às vezes me pego pensando se não seria melhor deixá-la em casa mais um ano ou dois. E aí tenho que me lembrar que eu escolhi uma proposta condizente com o que eu acredito para a fase em que ela está, no tipo de ambiente que eu quero que ela esteja e que se adapta totalmente à personalidade e às necessidades dela. Tenho que me lembrar que a vida depois de 2 anos não é mais vida de bebê e que o apartamento ficou pequeno para ela, que a falta de um irmão pesa muito. E aí meu coração fica em paz e lembro o quanto estou empolgadíssima para ver meu bebê virando gentinha. E como estou feliz de ter cumprido a meta à qual me propus ainda na gravidez. Orgulhosa mesmo.

Então, pensando nisso tudo, acho que é bem normal estranharmos uns dias as mudanças de fase que impactam demais na nossa vida.

Depois, eu disse à minha amiga que achava que ela estava olhando para a coisa com a visão errada. Ao invés de olhar como uma perda, ela deveria olhar como um ganho. Até um ano, a criança precisa mais mamar do que comer. Mas que agora ele estava maduro o suficiente – emocional e fisicamente –  para crescer e comer mais do que mamar. Ela conseguiu! Cumpriu duas metas de uma vez só: o aleitamento exclusivo até os 6 meses – mesmo trabalhando fora período integral – e o leite materno exclusivo como alimento complementar até 1 ano de idade. Além do mais, ela não está desmamando o filho dela…está simplesmente reduzindo as mamadas de lm! Ela não se deixou enganar por nenhum pediatra que quis fazer a introdução alimentar dele antes dos 6 meses em virtude da volta dela ao trabalho. Ela não deixou fórmula enquanto foi trabalhar. Ela foi uma supermãe e deu conta de ordenhar 7 meses de leite, todos os dias, para não entrar com leite artificial. Ela se virou nos 30 e reorganizou toda a vida, os custos, até a empresa dela e do marido mudou para pagar a babá ao invés de mandar para a creche antes de 1 ano – eram essas as metas dela. Quantas, mas quantas metas ela bateu? Sem contar o fato de que o bebê dela foi para a UTIneo quando nasceu e saiu de lá no leite artificial. Ela lutou deeeeeeeemais para colocá-lo em aleitamento exclusivo. E ela conseguiu com louvor.

Como é que alguém que conseguiu tudo isso pode sentir que está dando mancada com o filho porque está simplesmente deixando-o passar de fase e crescer?

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Mas a culpa e a maternidade andam juntas. É muito normal de se ver. Por que, gente? Sejamos felizes com as nossas escolhas e foquemos nos objetivos alcançados ao invés de uma maternagem que, para nós, pode ser irreal. Eu juro que não sinto um pingo de culpa. Fiz tudo conforme eu quis, tendo ciência como base e deixando as pessoas falarem sem me importar. As pessoas se ofendem se você quer dar uma criação diferente ao seu filho do que elas deram. É como se com isso você dissesse que a educação deles é ruim, sei lá. Mas isso é surreal. As prioridades das pessoas e das famílias são diferentes. Nós optamos por pausa parcial da minha carreira, diminuição total do nosso orçamento em prol da não-escolarização precoce e do aleitamento. Mas essas eram as MINHAS prioridades, o que eu como mãe acho melhor para a minha filha. Nós realmente não nos importamos com carro do ano, casa na praia, Ano Novo em Nova Iorque. Mas se tem quem se importe, QUAL É O PROBLEMA? Por que seguir como nota de corte para a nossa maternagem a maternagem alheia? Se você fez suas opções, mantenha-se fiel a elas e viva feliz. Aposto que você vai bater todas as suas metas sem dificuldades. Simplesmente porque elas são SUAS.

Tá faltando acolhimento e empatia. Não existe só um jeito de criar filho, não. E aí os julgamentos aparecem…e com eles as culpas.

Por uma maternidade livre delas. Por um pouco mais de sororidade.

Vocês já ouviram falar de pai que se sente culpado? Pensem nisso.

E amiga-você-sabe-quem-é, você é uma mãezona. Deixe seu filho comer e aposenta a bomba com gosto! Bem-vinda ao level easy do jogo! VOCÊ CHEGOU ATÉ ELE PELOS SEUS MÉRITOS.

Culpa não. As crianças do mundo precisam de leveza e tranquilidade. Nós também.

Beijos,

Ise.

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3 Comentários

Amanda
Responder 11 de novembro de 2015

Parabéns Thaise pelo ótimo texto. Tenho certeza que muitas mães dividem a mesma sensação de culpa assombrosa a cada nova fase dos filhos, e cada uma de nós certamente faz o melhor possível para que nossos filhos cresçam saudáveis e felizes. Pena que quase ninguém dá valor ou percebe isso, muitas vezes nem nós mesmas! E parabéns pelo feito, Mariana!

Aline
Responder 11 de novembro de 2015

Maravilhoso! Lindo texto. Menos culpa, nós merecemos!

Mariana
Responder 11 de novembro de 2015

Amiga Thaise, estou emocionada com suas palavras! Conforta meu coração ouvir, na verdade, o que já sei: fiz o meu melhor sempre! Agora ele pode caminhar um pouco menos dependente de mim! E que bom!!! Obrigada pelo texto!

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