Meu filho não brinca sozinho. E agora?


Estou deitada no sofá faz umas 2h. Minha pressão está baixa e estou numa moleza infinita. O Gustavo está concentrado na sobremesa para depois começar o almoço. E o que a Catarina faz enquanto isso? Ela está correndo e gritando pela casa. Em uma mão, tem a Skye, da Patrulha Canina e na outra a Minnie. Se eu entendi bem, a Patrulha Canina está indo “ao resgate da Minnie”, que é mãe de outras duas Minnies menores que ela tem e de um Mickey. Logo passa a Polly, em seu carro e o Hulk, fazendo seu barulho característico – que eu nem sei exatamente o que é e para que serve porque eu NUNCA curti superheróis. Terminou todo mundo no parquinho da Borboletinha, aquela da Galinha Pintadinha e depois foram tirar uma soneca na casa da Branca de Neve. Isso foi o que eu consegui pegar da história, mas com certeza teve muito mais na cabeça dela porque eu ouvi as sirenes do caminhão de bombeiros e a Pinkie Pie jogada no meio do corredor.

Para nós, adultos, o que parece uma viagem na maionese é, na verdade, um sinal de desenvolvimento cognitivo de amplo espectro. Quando a criança não está em atividade monitorada e tem a possibilidade de brincar com a sua imaginação, ela desenvolve sua inteligência, organiza suas ideias e constrói, tijolinho de imaginação a tijolinho de imaginação, seu mundo interno. A máxima “Criança aprende brincando” é ainda muito mais verdadeira nessa faixa etária. É assim que elas elaboram o que veem no mundo (Elas estão em processo de entender como o mundo funciona. Não é pouca coisa…), testam suas teorias, comportamentos, colocam para fora suas questões, desenvolvem a independência, a auto-estima, a criatividade, gastam energia e…SE ACALMAM. Pois sim: para as crianças, o livre-brincar é tão relaxante quanto é para você chegar depois de um dia de trabalho pesado, tomar um banho quente e se espichar no sofá à meia luz com uma garrafa de vinho e uma caixa de chocolates.

O problema é que cada vez mais crianças não brincam sozinhas. Recebo com muita frequência mensagens das mães falando sobre isso e quase sempre se lamentando – nós sabemos, mesmo que instintivamente, que a necessidade de um adulto -ou mesmo de outra criança- para poder brincar é anti-natural.

meu filho não brinca sozinho

O problema – parte 2- é que para enfrentarmos esse problema, precisamos colocar o dedo em muitas feridas que são nossas e não das crianças. Como sempre, né? Rs

Acho que o primeiro grande x da questão é como colocamos nossos pequenos em rotinas com horários de adultos – por necessidade ou por opção – mas que sempre acabam por impactar no desenvolvimento deles em algum ponto, cognitivo ou emocional. Se para um adulto já dói ficar o dia todo fora de casa, para uma criança – ou pior, para um bebê – dói muito mais. Entre possíveis comportamentos que vão desde transtornos alimentares ou de sono até reações de agressividade aparentemente inexplicáveis, ensinamos nossos filhos que o dia deles é inteiro ocupado. Escola, aulas de natação, de judô, de ballet, de kung-fu, de inglês…e aqui na academia ao lado de casa tem aula de  -pasmem!- brincadeiras de rua. 2x por semana as crianças aprendem tudo aquilo que nós aprendemos ralando o joelho e através de explicações de outras crianças: esconde-esconde, rouba-bandeira, cabra-cega, passa-anel, pega-pega. Vivemos uma época tão ruim para o livre-brincar que até as brincadeiras de rua tem dia marcado, hora para acontecer e o pior – um adulto para mediar.

Qual o resultado desse modus operandi? A criança só sabe brincar das brincadeiras propostas (por outros adultos), a criança tem horários fixos, hora de começar e terminar tudo, enfim… agenda. E vai pedir para um adulto brincar junto porque esses hábitos são tão nocivos que até o faz-de-conta é abalado. Adulto não sabe brincar direito de faz de contas, não é natural. Nosso cérebro funciona de uma maneira linear, totalmente diferente do da criança, em formação absoluta.

Outra questão, que um pouco descende da primeira, mas um pouco tem a ver também com a época em que vivemos, é a falta de momentos de ócio. Eu estou esperando o elevador e não tenho paciência de ficar 2 minutos parada. Saco o celular e começo a ler notícias. Como eu fazia há 5 anos atrás? Óbvio que passamos isso para as crianças. Então eu me policio MUITO, principalmente com os horários de tecnologia e televisão. Não a deixo brincar no meu celular, ela não tem e não terá tão cedo tablet e nem DVD. Aquela hora do fatídico “Mãe, não tenho nada para fazer” é a golden hour da infância. Não resolva isso pelo seu filho. É no tédio que vem do ócio que nascem as melhores brincadeiras – e as melhores oportunidades de aprendizado e, consequentemente, de desenvolvimento.

Tendo dito tudo isso, acho que a maior das dicas é: arrume tempo de ócio para seu filho. Quando ele estiver “sem nada para fazer”, não ligue a TV, não dê o tablet ou o celular. No máximo, mostre alguns brinquedos e alguns non-brinquedos também: papelão, prendedores de roupas, panelas, potinhos, caixas, feijão, forminhas fazem verdadeiros milagres por aqui.  E claro, alinhado a isso, verifique sempre a questão da rotina. Lembre-se sempre que uma criança não deve fazer horários de adultos, tempo em casa é fundamental. Na ausência de alternativas (ou prioridades, sei lá…cada um sabe onde seu calo aperta, né?), busque uma escola que tenha foco no livre-brincar, que dê tempo livre para as crianças (não vale aquele tempinho pós-almoço de descanso..é tempo livre DE BRINCAR, sem adulto, sem ninguém dizer do quê) e capriche no ócio aos finais de semana. Espaços de brincar como alternativa às escolas de período integral no contra-turno costumam ser uma boa opção também.

brincar

E claro, além de tudo isso, é o caso de conhecer seu filho também – e ninguém sabe disso melhor que você. Então não existe receita de bolo para “ensinar” a brincar sozinho. Existem formas de estimular, como por exemplo começar brincando junto, se afastar e sair de fininho, pedir para que a criança desenvolva determinada atividade (“Pinta esse desenho lá na mesinha do seu quarto e quando acabar traz para a mamãe ver? Vamos achar um lugar bem legal para pendurar…”) ou ainda expor a criança à determinadas atividades que exigem bastante concentração e não intervir. Aqui tem algumas sugestões.

O importante é entender que educar é um processo e as coisas não acontecem do dia para a noite. Não dá para estimular uma ou duas vezes e desistir porque “meu filho é muito difícil e nada dá certo com ele”. Será mesmo? Talvez seja a hora de colocar a mão na consciência, dobrar a dose de paciência e parar de rotular. Claro que quanto maior for a criança, mais trabalho vai dar. Não é assim com a gente também? Hábitos velhos são os mais difíceis de serem quebrados…

Boa sorte!

Ise

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