Minha filha foi para a escola e eu não chorei – nem vou chorar!


Há uns tempos eu causei um certo furor no instagram explicando porque eu não tinha dó de vacinar a Catarina, eu simplesmente fechava os olhos e agradecia. Este post vai na mesma linha…

Catarina foi para a escola pela primeira vez no dia 1º de fevereiro. Quem me segue há um tempo sabe que eu não queria colocar a Catarina na creche de jeito nenhum antes dos 2 anos e por isso reduzi minha carga de trabalho ao mínimo, larguei quase todos os meus freelas, parei com os cursos por uns tempos…enfim, me foquei em ficar com a minha filha. Quando ela nasceu, eu saía três manhãs por semana de casa e dava aula por 4 horas.  Primeiramente, ela ficou com a minha mãe e, quando isso deixou de ser viável, nós contratamos uma babá.

Só que nosso plano nunca foi manter a Catarina filha única por tanto tempo (eu tive câncer e preciso esperar um ano do tratamento para engravidar de novo), não achávamos que a área de lazer do prédio era tão fraca quanto se mostrou ser depois que tivemos um toddler e nos pegamos dependendo do tempo (que em São Paulo está invariavelmente ruim) para manter a cota de exercícios que uma criança da idade dela precisa. Decidimos então que ela iria para a escola aos 2 anos (ela faz aniversário em março), somente enquanto eu estivesse na escola e continuaria passando as tardes comigo no aconchego do nosso lar e na segurança da rotina dela. Sabemos pela ciência que com 24 meses as interações começam a evoluir, que a médio prazo ela começará a brincar COM as crianças (e não AO LADO delas, cada um fazendo suas coisas), que estaria num bom momento cognitivo e comportamental para encarar o novo desafio.

Se eu disser que visitei um monte de escolas, estou mentindo. Eu sabia exatamente o que eu queria. Sou professora e moro há muitos anos no bairro. Toda as informações de backstage eu tinha e tive uns 13 anos de carreira para decidir o que eu queria para a minha filha – e principalmente o que eu NÃO queria.

Apertos aqui e acolá, prioridades definidas. Colocamos a Catarina na escolinha que queríamos – Gustavo compartilha da mesma filosofia educacional que eu. Acreditamos que Educação não pode ser achismo, precisa ser ciência. E que desenvolvimento infantil é uma coisa muito séria. Eu fiquei MUITO feliz. Sei que poder colocar os filhos na escola que a gente acredita ser a melhor opção para o momento é privilégio de poucos em uma país com um abismo social – e educacional – como o nosso.

Mas a minha felicidade não era felicidade pura e sem bases. Eu realmente estou segura de ter feito a melhor opção para a vida da minha filha – e não de ter encontrado um lugar para “depositá-la” enquanto eu trabalho (fosse esse o caso, eu teria me arrumado outra coisa para fazer da vida e abriria mão, pelo menos momentaneamente, da minha carreira atual). E o que acontece é que quando estamos seguros, os nossos filhos ficam seguros também.

Para simplista ou passe de mágica, mas é real: os filhos pequenos têm nos pais seu termômetro de segurança. Somos mais ou menos como as aeromoças de um voo com turbulência. Aeromoça sorrindo e conversando despreocupada no meio de uma turbulência: pode respirar. Aeromoça com cara de pânico: PEGA O PARAQUEDAS E REZA.

O início da vida escolar não começa no primeiro dia de aula da vida de uma pessoa. É necessária toda uma preparação. Falamos muito da escola para a Catarina. Mostrei vídeos, fotos. Mostrei que a Peppa também ia para a escolinha e que a professora dela se chamava “Madame Gazela”. Levei a Catarina para comprar material. Quando dava, deixei que ela escolhesse o que levar. Levei a Catarina para comprar uniforme – e fizemos muita festa quando ela o colocou. Festa de novo quando lavamos, quando passamos. “Este é seu uniforme…e você vai usar só para ir à escola! Vamos guardar nesta gaveta?”. Comprei laços e deixo que ela escolha qual quer usar. Na sexta-feira antes da segunda, primeiro dia de aula, a escola teve uma sacada maravilhosa: marcou entrevistas individuais com os pais, a criança e a professora. Enquanto eu conversava com a Catarina, ela mexia em tudo da sala de aula, fascinada. Já conheceu a professora, a auxiliar de classe e ainda ganhou um presente na hora de ir embora, das mãos da professora dela: um urso lindo, com o uniforme da escola, igual ao dela. Passei o final de semana falando da escolinha e na segunda de manhã, fomos todos juntos (eu, papai e ela) para a escola. Papai e Mamãe contando histórias de escola, dizendo como a gente gostava de estudar, quantos amigos fizemos.

firstdayEstacionamos, pegamos a Peppa (a mochila…ela não desce do carro sem ela! Rs) e fomos os três para a escola. Chegando lá, ela se lembrou de onde era “a sala dela” – da reunião da sexta-  e foi. Não deu tchau, não virou para trás, não chorou. Nada.

Fiquei as duas horas de adaptação sentada lá, esperando a coordenadora voltar com as fotos da sala no tablet. As fotos iam para a TV da sala de espera e eu ficava namorando, orgulhosa, minha filha tão independente.

Independente sim. Porque tem uma galera que fala que bebê não precisa de independência. Acho que é ÓBVIO que ninguém está falando que um bebê precisa se trocar sozinho e sair trabalhar. Mas autonomia e segurança são ensinadas desde sempre. É preciso mostrar para o seu filho que você acredita que ele é capaz de realizar aquela determinada coisa, não menosprezar a capacidade dele. Não tem nada a ver com falta de amor – muito pelo contrário. Segurança miniminiza o choque com o mundo. Ter medo das coisas, de enfrentar o novo, de não ser capaz é muito sofrido.

Chorar é, na minha opinião, muito egoísta. É fazer seu filho acreditar que o avião está caindo. É mostrar para ele que você não confia 100% na segurança dele naquele local. É dizer para que você não acha que ele é capaz de ficar bem longe de você. E não adianta chorar escondido: seu filho não é bobo e as crianças cheiram tensão e insegurança a quilômetros de distância.

Bateu a vontade de chorar? Racionalize. Meu filho está onde eu gostaria que ele estivesse? Eu confio que vão cuidar do bem-estar dele? Ele vai se divertir? É a melhor opção que tem para ele? Foi o que eu fiz no dia em que voltei a trabalhar, quando a minha licença acabou. Deixei a Catarina e saí com um nó na garganta. Achei que ia chorar. Me policiei: “Thaise, ela está onde você quer, com quem você quer. Está tudo do jeitinho que você queria e escolheu. Você pensou muito nisso.” Mentalmente, eu me respondi: “É sim. É o que eu quero. É o que eu escolhi!”. E fui feliz da vida trabalhar. Voltei para casa morrendo de saudades e a encontrei numa boa na casa da vovó.

Eu tenho muitas inseguranças e muitas questões a resolver comigo mesma. Mas cuido (MUITO) para que elas sejam MINHAS DIFICULDADES e não as dificuldades da Catarina!

Não choro e nem vou chorar. Minha filha está indo ser feliz – e tudo bem para o meu ego se isso acontecer quando não estou por perto. É só o que eu quero: que ela seja feliz quando estou por perto mas que se sinta plena também quando não estou!

Bom ano letivo para todas vocês,

Ise.

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4 Comentários

Andreia
Responder 17 de fevereiro de 2016

Hum, eu chorei, escondida. Porque meu filho foi para a escola aos 3 anos e chorou demais. Demais mesmo. Na escola ele tinha a prima querida na mesma sala, a outra prima querida na sala ao lado, uma tia e uma prima que trabalham na escola. Ainda assim chorou. Eu sofri, me encaixo nas mãe "molengas".
E como você disse, muitas mães não podem colocar na escola que gostariam, daí o sofrimento deve ser maior. Mas fato, é, que, uma hora a criança tem que ir pra escola.

Abraço!

    Thaise Pregnolatto
    Responder 17 de fevereiro de 2016

    Eu não tenho a menor dúvida de que isso pega MUITO. É difícil desencanar e relaxar se você está pensando que as coisas poderiam estar melhores em outro lugar, né?
    Meu irmão deu MUIIIIITO trabalho com escola. Só começou a frequentar de verdade no que hoje é o 1o ano e entrava sob protestos, com o tio da porta o levando! hahahahahahaha Tá tudo certo hoje, juro!

Juliana
Responder 17 de fevereiro de 2016

Sem dúvidas esse foi o seu melhor post! Catarina é uma garota de sorte por ter pais tão concientes.
É por essas e por outras q te sigo desde o NMN.
Parabéns Thaise!

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