O sistema contra a amamentação


Amamentação

Quando eu fiquei grávida, sabia que queria amamentar bastante e ponto. Não sabia muito sobre amamentação. Achava que os bebês nasciam sabendo mamar e pior – achava que a gente simplesmente sabia amamentar. Tipo comercial de Dia das Mães: “Quando nasce um bebê, nasce uma mãe”. Fácil assim. Põe o peito para fora, tudo resolvido.

Comecei a estudar e vi que a realidade era outra. Estava preparada para o pior: seios machucados, pega errada, muita dor e sofrimento. Mas acho que não estava preparada para a falta de estrutura do sistema.

Ah, o sistema. Sempre ele…

Nos meus dias na maternidade, ficou muito claro para mim que em 99% dos casos, a diferença entre amamentar exclusivamente ou não é a INFORMAÇÃO. Não basta querer.

Eu li muito. MUITO MUITO MUITO MUITO MESMO. Falei muito com a minha obstetra. Escolhi uma pediatra que era pró-aleitamento exclusivo e não tentaria me convencer a dar suquinho para a minha filha aos 4 meses. Eu escolhi uma maternidade com banco de leite e grupo de apoio à amamentação formado por especialistas porque sabia que existiriam problemas.  Era a minha escolha para a minha filha e eu precisaria de estrutura para bancá-la. Comprei bomba manual, bomba elétrica, concha de base rígida, concha de base flexível, almofada de amamentação e toda a parafernalha a que eu tinha direito como mãe de primeira viagem, empolgadíssima com a missão.

Minha filha nasceu, eu tinha muito colostro (meus peitos vazavam desde o 6º mês de gravidez). O leite desceu super rápido – apesar do mega terrorismo que fazem sobre o aleitamento x cesárea. Ela não teve problemas com a pega. Meu seio não feriu, não sangrou, nada. Meus peitos cheeeeeeeios de leite, pingavam. Explodiam.

E eu saí da maternidade com uma receita de amamentação mista. Mamadas com leite artificial intercalando mamadas no peito. Tudo explicado em detalhes pelo pediatra que assinou a alta da minha filha.

O que faltava? Eu tinha tudo. Vontade, conhecimento, apoio do marido, da família, dos médicos que nos acompanhavam, estrutura em casa, leite abundante, tecnologia de ponta.

Como boa parte dos recém-nascidos, a minha filha só queria dormir nos dias seguintes ao seu nascimento. E era todo aquele trabalho para acordá-la e fazê-la mamar. Ela sugava dois minutos e dormia. Tira tooooooda a roupa. Troca a fralda. Cutuca o pé. Mexe na orelhinha. Estimula aqui, aprende como colocar o reflexo não sei das quantas lá.

Tudo o que é esperado. O bebê tem reservas para esse período de adaptação.

Mas o pediatra do hospital fazia parecer que era uma coisa de outro mundo. “Não está mamando” “Está perdendo peso” “A enfermeira disse que não está pegando bem”.

Tentei conversar. Está mamando sim, mamando no ritmo dela. Num ritmo inicial que não é o ideal, mas está longe de ser anormal. Está perdendo peso porque também é o esperado. Nasceu de cesárea, 37 semanas, inchadinha. O percentual de peso perdido até agora está fora da normalidade? Ah, não? Sei. Ela pega bem sim. Mas ela dorme. Estou fazendo tudo o que as enfermeiras ensinaram, mas conversei com uma amiga minha que é enfermeira obstetra e vou passar no grupo de apoio à amamentação para ver o que mais posso fazer durante essa fase.

O olhar que ele me deu, eu nunca vou esquecer. Parecia que eu estava questionando a autoridade santa dele. Ofendi. Sei lá. Ele falava comigo como se eu fosse retardada, juro. Na verdade, isso acontece muito com mãe de primeira viagem. Todo mundo te trata como se você fosse retardada e não soubesse absolutamente nada sobre aquela pessoa que saiu de dentro de você.

Eu sabia o mais importante:  se eu alternasse as mamadas com leite artificial, logo a a minha produção cairia e eu ficaria dependente do leite artificial. Era um ciclo vicioso no qual eu não queria entrar. Se o lance era oferecer leite em colher – coisa que ela nunca aceitou bem, aliás – por que não oferecer o MEU leite já que meus peitos estavam EXPLODINDO?

Resolvi mudar de tática. Comecei a acenar com a cabeça e sorrir amarelo. Entra por um ouvido e sai pelo outro. Deixe ele falar o que quiser. Eu vou fazer como EU SEI que tenho que fazer e me entender com a pediatra dela. Infelizmente já percebi que ele não está aqui para conversar, discutir e fazer o melhor pela minha filha e por mim.

Deu certo no começo. Mas no segundo ou terceiro dia, foi tudo por água abaixo.

-Ela estava com hipoglicêmia, então prescrevi o Enfamil e as enfermeiras do berçario já ministraram…

COMO É QUE É???

Virei bicho. COMO É QUE DÃO ALGO PARA A MINHA FILHA SEM ME CONSULTAR???

Lembro do meu primeiro pensamento na hora, juro. Pensei que o leite artificial cai como uma feijoada no pequeno estômago do bebê, digere de maneira bem mais lenta e ela pularia a mamadinha que faria em mim – ou seja – meus peitos iriam ficar latejando mais umas duas horas.

Juro que foi a primeira coisa que passou na minha cabeça.

Eu fiquei uns segundos em silêncio, processando a informação. Meu marido me olhava em pânico – ele sabia o que estava por vir.

-Quanto está o índice dela?

-49.

-Qual é o normal?

-50.

-E esse era o único procedimento possível para este quadro?

Ele ficou mudo. Respondeu algumas palavras que eu nem ouvi. Eu só queria que ele saísse logo dali. E como toda puérpera, eu queria CHORAR.

Quando a minha filha voltou para o quarto, eu olhei para ela e me acabei. Eu me senti a mãe mais incompetente do mundo. Eu não era capaz de alimentá-la. Ela estava hipoglicêmica por minha causa. Por minha causa, ela precisou tomar leite artificial.

Eu fiquei muito mal aquele dia e nem conseguia dormir à noite. As coisas tomam proporções absurdas no pós-parto. São muitos hormônios…rs

Mandei uma mensagem para a minha amiga enfermeira obstetra que estava de plantão. Ela subiu para o meu quarto e encontrou uma nova-mãe, sentada na cama no escuro, se acabando de chorar (aliás, chorar foi uma coisa que eu fiz muito por umas duas semanas! hahahahaha). Meu marido dormia tão pesado que não viu nada – nem o choro, nem ela entrando no quarto, nem a nossa conversa.

Ela pegou a ficha da Catarina e foi olhar os resultados dos destros. Com muita calma e paciência, me explicou que não eram todos os resultados que estavam baixos – e que os que estavam baixos não estavam tão baixos. Que nem a OMS tinha parâmetros muito certos do que seria hipoglicêmia para um bebê, mas que todos concordavam que a amamentação era o melhor tratamento. Enfim, ela teve toda paciência para me explicar e acalmar. Foi o apoio que eu precisava para continuar. Saber que tudo aquilo estava dentro da normalidade foi essencial para mim.

No dia seguinte, fui ao grupo de apoio à amamentação e nossa primeira consulta durou 4 horas e meia! Lá aprendi tudo: da posição para a mamada até a usar a sondinha para complementar COM MEU LEITE as mamadas sonolentas da minha filhinha.

Saí de lá feliz e com a certeza de que, com toda aquela ajuda especializada, eu iria conseguir amamentar. E assim foi: voltei lá outras três vezes no primeiro mês. Depois, foram outros 6 meses de amamentação exclusiva. Só peito e mais nada. Uma introdução alimentar feita com muito sucesso – não levou ao desmame. E cá estamos nós, muitos quilos e centímetros depois.

Tenho guardada a receita com a orientação de amamentação mista, para me lembrar que somos vencedoras. Com a ajuda de pessoas especiais, muito estudo e principalmente força de vontade, conseguimos.

Infelizmente, não são todas que conseguem lutar contra o sistema. E não é culpa delas. Coincidências da vida, uma amiga ficou no mesmo exato quarto de maternidade em que fiquei e foi atendida pelo mesmo pediatra. Adivinhem qual foi a mesma exata recomendação?

Para quem quiser saber mais, recomendo:

Hipoglicemia no Bebê

Cartilha Aleitamento Materno e Alimentação Complementar – Ministério da Saúde

– Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano

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4 Comentários

Juliana
Responder 22 de agosto de 2015

Passada!
Teve uma noite no hospital que passei lendo o La Leche Legue e outro site oficial de apoio ao aleitamento materno na Itália.
Como é bom ter informações e argumentos para não acreditar e aceitar tudo...

Juliana
Responder 22 de agosto de 2015

Como assim deram leite artificial para a Catarina sem sua autorização? Fui praticamente coagida por uma enfermeira do berçário no turno da noite a dar leite artificial (ela fazia a gente pesar os bebês antes e depois das mamadas, fora que a gente ia tudo no mesmo horário e os bebês têm ritmos diferentes). Mas eu assinei uma autorização e fui eu a dar.
Como você, também saí com a receita de aleitamento misto (há alguns dias li em um grupo de maternidade que dizia ser ilegal o hospital receitar leite) e juro que pensei em escrever um email para a pediatria contando que chegamos a 14 meses de amamentação, sem nunca ter complementado.

    Thaise Pregnolatto
    Responder 22 de agosto de 2015

    O pediatra passou no quarto informando que ela estava hipoglicêmica, mas que já estavam ministrando LA. PEN-SA.

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