PAI: Como o seu bebê cria vínculo com você?


Eu sou extremamente contra esse papo fuinha de que toda mulher nasce mãe. Elenco meus motivos:

1- Somos pessoas, individualidades e só nascemos filho ou filha de alguém. Só. Assim como tudo na vida, a maternidade é uma coisa construída e muitas vezes escolhida.

2- Esse papo desmerece todo o esforço em se preparar para a chegada do bebê. Leituras, grupos de apoio, pesquisas, conversas, cursos. Fora o processo de desconstrução, íntimo e profundo, que fazemos de nós mesmas.

3- A ciência já cansou de explicar que não necessariamente o amor de mãe é automático como o folclore gosta de pintar. Basta uma rápida pesquisa na internet e você encontrará inúmeros relatos de mães desesperadas por aí porque não sentiram aquele amor devastador ao seu filho logo que o viram pela primeira vez.

4- É machista demais. Sorry. Coloca a mulher numa posição de obrigação e o homem em uma posição extremamente confortável. Tudo bem ele não saber uma vírgula do que fazer com o bebê, mas ela…ah…ela NASCE sabendo. É natural. É biológico. Só que não.

Morro de preguiça.

Eu acho que o bebê talvez seja mais concreto para a mãe, a princípio. Não raramente, ele se faz ouvir desde as primeiras semanas. Conheço muito gente que diz que não se sentia grávida antes da barriga, mas comigo não foi assim. Eu descobri que estava grávida justamente porque estava me sentindo estranha. Estranha de um jeito que nunca havia sentido antes. Não pensem que era um pressentimento de mãe ou algo do tipo – talvez um pouco, porque eu fiz o teste de gravidez quase uma semana antes da minha menstruação atrasar. Mas depois descobri que tinha mais a ver com a minha pressão que não saía de 6×3! hahahahaha Logo depois, comecei a vomitar tanto quanto uma grávida de novela mexicana. E passei 4 meses jogada no sofá. Então, para mim, a gravidez era BEM real. Eu não conseguia esquecer por um minuto que estava grávida: Eu não conseguia comer, eu não conseguia dormir (sono de grávida? Só tive insônia de grávida!) e muito frequentemente, eu não conseguia andar porque a cabeça girava loucamente.

Para meu marido, a única prova concreta de que a Catarina estava lá era a lembrança do que um dia havia sido a esposa dele. E as vezes em que ele precisou levar o carro lavar durante a semana porque…bem, acidentes aconteciam com muita frequência. =P Não havia diferença para ele, na prática, da gravidez ou de uma bela intoxicação alimentar eterna.

Mentira. Tinha UMA COISA que fazia a nossa filha um pouco mais real: o doppler. Compramos um doppler para ficar ouvindo o coração dela, todo dia. Mas não era simples e mágico assim: até as 12 semanas, não é rápido para localizar o batimento cardíaco pois o bebê é muito pequeno. Você acha que ele tinha paciência de ficar duas horas animadíssimo do meu lado, enquanto eu ficava passando o troço na minha barriga? Não raramente eu gritava que havia achado o batimento e até ele chegar…eu já havia perdido de novo! hahahaha

Achei que fosse melhorar quando a Catarina começasse a chutar. Mas acontece que eu sentia chutar e ele não. HAHAHAHA Ali eu entendi que, pelo menos até aquele momento, a Catarina era muito mais minha filha do que nossa.

Antes dela nascer, expliquei para ele que os bebês criam vínculo – até por uma questão de sobrevivência da espécie – com quem CUIDA deles. E que, pelo menos nos meses iniciais, ser pai se resumiria basicamente a trocar fralda, dar banho, se sujar de leite golfado e cuidar de mim para que eu pudesse amamentar em livre demanda.

Claro que ele não via lá muito retorno disso, especialmente antes dela começar a sorrir. Mas quando ela tinha uns três meses, começou a sorrir loucamente para ele quando ele chegava à noite do trabalho. Logo depois, começou a corresponder a brincadeiras só deles. E quando ele me perguntava “Será que ela sabe quem eu sou?” eu respondia, com toda a certeza do mundo: “Claro que sabe. Ela sabe que você é o papai dela…”.

E só para constar: os sorrisos de quando ele chegava à noite foram trocados por gargalhadas. E depois por gritos. E depois por bebê engatinhando ao encontro dele… Hoje, tem uma pessoa aqui em casa que pula no sofá quando ouve a chave na porta.

Caro papai, se você está meio perdido, seguem algumas sugestões do tipo de coisa que você pode fazer sem moderação pelo seu bebê:

1.AINDA NA GRAVIDEZ, não deixe toda a preparação e cuidado só a cargo dela. Não basta ler os textos que ela te manda, participar dos cursos nos quais ela te inscreve. Seja pró-ativo: traga você alguns textos para ela também, sugira algum curso, informe-se por conta. Tem material suficiente de estudo para dois, acredite. É fundamental informar-se sobre a escolha de parto dela e sobre o que ela espera de você nesse momento, também a escolha do hospital e eventual confecção do plano de parto – assim como garantir na hora H que essas escolhas sejam respeitadas completamente.

2. LOGO QUE O BEBÊ NASCER, por favor, cuide das visitas. Controle o fluxo, os horários, o momento certo, o acesso ao hospital ou a casa de vocês. Aliás, faça da casa de vocês um santuário no primeiro mês. Não é regra, claro, mas provavelmente ela vai querer ficar meio reclusa nos primeiros dias – mesmo que jure que não antes do bebê nascer. Os hormônios deixam a gente doida (mesmo), o bebê demanda muito peito e a gente nem consegue colocar blusa, não existe dia nem noite. A gente precisa de colo total e não de fazer sala para visita. Serião.

3. AMAMENTAR não é serviço só da parte do casal que foi agraciada com peitos. Amamentação de sucesso normalmente é feita a quatro mãos, no mínimo. Em primeiro lugar, informe-se. Não é só colocar o bebê no peito – o início aliás, é provavelmente bem difícil. Mesmo que não exista problema com pega, existem várias outras coisas com as quais vocês precisarão lidar. Fora isso, ela vai precisar que alguém cuide da alimentação dela, traga (litros de) água e a coloque para dormir sempre que der. Sem essa tríade (água-comida-descanso), não tem leite.

4. LEMBRE-SE: Você não está ajudando. A obrigação é tão sua quanto dela. Não se esconda atrás da licença: “amanhã eu acordo cedo para trabalhar e ela não”. Acredite: cuidar de um RN é tão ou mais pesado que que sair trabalhar. No primeiro mês, vai todo mundo despencar de sono. Depois melhora, juro.

5. Você ganha uma estrelinha se de MADRUGADA deixar só a parte de amamentar com ela e se responsabilizar por todo o resto. Translado (pegar o bebê no berço e trazer para o quarto de vocês), fralda, arrotar. Todo mundo está com sono e os bebês ficam um tempão mamando quando são pequenininhos, ela já vai ficar um tempão acordada. Não esqueça que ela precisa se manter minimamente descansada e tranquila para garantir a produção de leite. Acredite, seu filho vai reconhecer seu esforço e a mãe dele, a parceria.

6. BANHOS são excelentes momentos para criar vínculo com seu filho e dar um descanso para a mamãe. Meu marido empenhou-se especialmente neste momento no primeiro mês da Catarina: comprou CDs, colocava musiquinha para ela, cantava, fazia massagem. Quando ela completou um mês, transferimos os banhos para o chuveiro e aí fazíamos todo o procedimento em dupla, alternando os momentos. Logo ela começou a ficar muito grande e pesada e ele mais uma vez assumiu sozinho. Eu ouço da sala as gargalhadas dos dois enquanto tomam banho. Ela ama e aposto que ele também.

7.FRALDAS troque tantas quantas puder e faça disso um momento de vocês. O bebê costuma observar muito nossas expressões, voz e fala nesse momento. Aproveite para conversar e receber as risadas mais banguelas e lindas que você vai ver na vida.

8. Descubra seu próprio jeito de colocar o bebê para DORMIR. Ele salvará noites da família inteira! Até hoje, quando a Catarina não dorme de jeito nenhum, zás: o Gustavo coloca no sling. É tiro e queda. Fico de boca aberta. Comigo não funciona da mesma forma, porque ela fica tentando mamar (safada!) e esquece de dormir. Fora que hoje ela está muito pesada para mim – 5 minutos de sling e eu estou engatinhando! hahahahaa Mas o sling com papai foi absolutamente fundamental nas piores épocas: cólicas e dentes. Ganhamos muitas horas de sono.

9. Aliás, ela dorme muito melhor com ele do que comigo. Comigo passava dias inteiros sem fazer soneca, com ele dormia o dobro de horas ao dia, em qualquer situação e qualquer ambiente. Ela SABIA que papai era garantia de sonecas de qualidade e eu morria de inveja disso! hahahahaha Sofá, cama, chão. Vale tudo. Eles se abraçam e tchau. É tipo um poder mágico, sei lá. Dormir abraçadinho aumenta a produção de ocitocina, o “hormônio do amor”.

10. Você também pode ALIMENTAR seu bebê, mesmo que ele seja amamentado exclusivamente de leite materno. Basta fazer ordenha (manual ou com bomba) e congelar o leite (por até 15 dias no congelador). Depois é só descongelar em banho maria e oferecer em uma colher, copinho, seringa. Só não vale a mamadeira, para não causar confusão de bicos. No começo pode ser um pouco estranho e complicado, mas depois fica tão normal como respirar. Aproveite para alternar com a mãe quem acorda cedo aos finais de semana ou incentivá-la a dar umas saídas sozinha, sem bebê no colo.

11. CONVERSE com seu bebê. LEIA livros para ele. CANTE. Mesmo que você ache que ele não entenda uma palavra. Fora o fato de que ele se acostuma a sua voz, o processo de aquisição de linguagem é ultra complexo e começa muito antes do que as pessoas imaginam. Seu filho está não só aprendendo a te amar, mas também aprendendo habilidades que vão ajudá-lo em outros momentos, no futuro.

12. Vá à consulta com o PEDIATRA. Faça perguntas. Acompanhe o crescimento do seu filho. Informação direto da fonte acalma, tranquiliza. Fora que é importante que você também estabeleça uma relação de confiança com o profissional que está cuidando da saúde do seu bebê.

13. Vá PASSEAR. Sozinho com o bebê. Você dá conta, é seu filho. Vale volta no quarteirão de carrinho, casa da vovó, ida ao mercado. A relação de vocês se fortalece nos momentos a dois.

14. BRINQUE. Conforme o bebê cresce, aumenta também sua interação com as pessoas e o mundo. Aproveite e vá brincar. Mães e pais tendencialmente brincam de formas diferentes com os filhos e, dessa forma, ajudam a desenvolver habilidades diferentes.

15. COMIDA. Nas famílias italianas, a gente aprende desde cedo que a relação com a comida é uma relação de amor e afeto. Após os 6 meses, começa a introdução alimentar do bebê. O jantar aqui é sempre oferecido pelo papai, quando chega do trabalho e eles matam as saudades de um dia separados. Fora isso, vale o carinho do preparo: quem faz a comidinha da Catarina é ele, que cozinha mil (milhões, bilhões) de vezes melhor que eu. Ela ama a comida dele e a da vovó.

Claro que são dicas e não regras, porque receita de bolo não existe. As dinâmicas familiares são diferentes, os tempos, as prioridades. Fora isso, é importante estar à vontade com os cuidados. O Gustavo não gosta de cortar as unhas dela, enquanto eu faço sem grandes problemas. Em contrapartida, toda vez que ela se recusa a dormir à noite, ele assume porque eu despenco de sono. Não aguento. E assim é, com tantas outras coisas. O importante é dividir de forma que todo mundo fique bem e que o bebê tenha a chance de aprender a confiar em alguém além da mãe, que ele já conhecia pela voz e pelo cheiro antes mesmo de nascer.

É fundamental dizer também que para que isso aconteça, a mãe precisa permitir. Muitos são os pais que reclamam que ao tentar assumir os cuidados com o bebê, são duramente criticados pelas mães. Ora, mamães: tudo nessa vida é questão de prática. Sua primeira troca de fralda não foi um primor, não é? Você também ficou insegura no seu primeiro banho, não ficou? Dar uma chance verdadeira ao pai é uma daquelas situações em que todo mundo ganha: você fica mais tranquila sabendo que quando não puder estar por perto, tem quem assuma com total confiabilidade os cuidados com seu filho, permite ao seu filho se aproximar do pai, permite ao pai a chance de ter uma paternidade ativa desde o início, aumenta a relação de companheirismo com o seu parceiro (mesmo que vocês não sejam casados…criar um filho juntos é trabalho para a vida toda e vocês precisarão de cumplicidade!), você não fica sobrecarregada…enfim, quando todo mundo assume suas responsabilidades igualmente, todo mundo fica mais feliz! E é verdade que quanto mais tempo a gente passa com alguém, mais o entende, não é? A mesma lógica vale para os bebês e crianças. Eu sou contra essa ideia de “tempo de qualidade”. Acho que tempo é quantidade também. Só passar tempo juntos permite que a gente compreenda as necessidades complexas de alguém que não sabe expressá-las ainda através da fala.

O grande segredo é que nenhum poder divino emana das mães para saber cuidar dos filhos. Nós passamos tempo suficiente com eles para observá-los, entendê-los, testar e confirmar (ou não) hipóteses e teorias. Nós nos entregamos de corpo e alma, nós nos esforçamos muito, nós sentimos as necessidades dos nossos filhos na pele. Nós nos conectamos a essas crianças como se fossem parte de nós ainda. E talvez sejam. A gente aprende a ouvir silêncio, a ler olhar, a prever movimentos.

As crianças não precisam falar, a gente entende tudo porque eles falam a língua do amor. Que os papais sejam igualmente proficientes – porque é assim que tem que ser. Feito a dois, criado a dois.

Ótimo final de semana,

Ise.

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1 Comentários

Juliana
Responder 14 de setembro de 2015

Verdade, Ise! Eu sempre falei para ele sobre esse vínculo e nos momentos de "esquecimento", de muito trabalho e tal, ela mesma lembrou que precisava mais da atenção dele.

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