Pai de menina


Quando recebi por telefone a notícia da Thaise de que estávamos grávidos, uma emoção tomou conta de mim: alegria. Eu seria um pai agora. Mas pai de quem? De uma menina ou um menino?

Thaise sempre disse que seria uma menina e tinha absoluta certeza disso. Tinha até visto em um sonho. Entretanto quis ela fazer um exame de sangue o quanto antes para “confirmar” o que Morfeu havia dito. Resultado em mãos e deu menina!!! Alegria de novo? Claro!!! Para mim, de qualquer forma, eu ficaria feliz, desde que torcesse para o Galo! =P

Imaginava vantagens e desvantagens (e responsabilidades!) de ser pai de uma menina. A primeira coisa que pensei – admito –  foi no estereótipo de sempre ter uma pessoinha meiga, carinhosa, delicada que gosta de conversar com o papai e o tem sempre como ídolo. Depois pensei na minha filha, ainda criança, ouvindo coisas como “lugar de mulher é na cozinha”, “menina sempre tem que ajudar a arrumar a casa”. Quando crescesse, sofreria com preconceito para estudar determinadas áreas, arrumar empregos, ser promovida. Invariavelmente vai encontrar homens machistas em seu caminho, ter seu corpo sempre visto como objeto, conviver com assédio disfarçado de elogio.

Eu sou homem e tenho meus próprios preconceitos falando alto. Desconstruir é trabalho para uma existência inteira. Durante boa parte da minha vida, eu tratei mulheres como objeto, fiz piadas machistas e acreditei piamente que era sempre melhor trabalhar com um homem do que com uma mulher.

Ocorreu-me que já basta o que ela vai encontrar na vida. Aqui dentro de casa, não. E isso eu posso garantir. Minha relação com a mãe dela é o que ela vai levar como modelo para a vida. Sou eu a primeira figura masculina da vida dela. Aqui, ela não vai encontrar opressor.

À mãe dela, todo o meu respeito, sinceridade e patamar de igualdade, para as pequenas e grandes coisas. No pensar e no agir. Honestamente, não foi fácil e natural chegar ao ponto em que estamos hoje. Como eu disse anteriormente, temos de desconstruir conceitos já muito enraízados. Tivemos muitas discussões e conversas longuíssimas, desde antes da Catarina. Até mesmo antes de casar. Atualmente, temos duas premissas: 1. Nunca discutir na frente dela e 2. Papai e mamãe são iguais, têm absolutamente as mesmas responsabilidades. Ninguém ajuda ninguém. Nós cuidamos da nossa filha, juntos.

Catarina pode correr para os dois em busca de conforto. Nós dois trocamos fraldas, damos banho, alimentamos nossa pequena, brincamos com ela. Agora que a Catarina não é mais amamentada, a única tarefa que a mamãe fazia e eu não, caiu. Se um de nós está muito cansado, o outro cobre. Se um precisa dormir mais num final de semana de manhã, o outro cobre. Se um quer dormir um pouco à tarde, o outro cobre. É uma parceria. Responsabilidade dividida. Todo mundo trabalha fora, todo mundo coloca dinheiro em casa, todo mundo compra coisas para ela. Todo mundo cuida da casa. Todo mundo cuida das coisas da Catarina. Todo mundo se cuida. E isso – antes que digam – não é favor nenhum que eu faço pelas mulheres da minha vida. É obrigação. É respeito. É amor. É consciência.

Dessa forma, eu espero do fundo do meu coração que a minha filha procure no seu marido (ou na sua esposa!) uma relação de igualdade, espelhada na nossa relação em casa. Que ela nunca se sinta obrigada a assumir essa ou aquela tarefa porque nasceu mulher. Eu espero estar assim contribuindo para que ela seja o que ela quiser ser e faça o que ela quiser fazer sem que se submeta às imposições em virtude do seu gênero. E que ela tenha bagagem e encontre apoio suficiente nas suas relações pessoais para enfrentar tudo o que a gente sabe que ela vai ter de enfrentar nos outros aspectos da sua vida.

A única coisa que eu EXIJO é que ela torça para o GALO!!!! =P

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GUSTAVO DE MELLO é mineiro mas mora em São Paulo há 6 anos. É engenheiro, tem 32 anos e é pai da Catarina. Adora cozinhar, futebol, assistir à TV, futebol, ler, futebol, dormir, futebol, jogar poker e futebol.

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3 Comentários

Roxane
Reply 18 de dezembro de 2015

Pai de tirar o chapéu. Que muitos sejam assim :)

Karoll
Reply 4 de dezembro de 2015

Parabéns! Eu realmente me emocionei. Que um dia todos pais possam ser como vc, e desconstruir todos os preconceitos, inclusive o pai da minha bebê. Obrigada, você me deu a esperança de um mundo melhor .

Mariana
Reply 31 de agosto de 2015

Toda minha admiração a você Gustavo!

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