Pelo direito de ser gente


Acho que de todas as dificuldades que existem na maternidade, ignorar completamente a sua biologia em prol da cria é a mais cruel de todas. São meses (anos?) a fio anulando fome, sono, vontade de fazer xixi, vontade de fazer number 2, vontade de ficar deitada quando você está doente, vontade de tomar um banho decente e (imagina!) lavar o cabelo com direito a condicionador e secador.

Enquanto você é um trapo de pessoa, a sociedade de diz que você precisa seguir sorrindo, sem reclamar, porque “ser mãe é uma benção”.

Inegavelmente, somos apaixonadas pelos nossos pequenos. Mas ainda assim, humanas. Uma dor de barriga não espera o bebê terminar de mamar, uma TPM não espera o salto de desenvolvimento passar, o peso dos olhos muitas vezes é maior que o peso da responsabilidade.

Mas não. “Você foi avisada que ser mãe não era passeio…”. Eu, honestamente, não entendo como uma mãe automaticamente perde o direito ao desabafo, à reclamação, ao pedido de apoio simplesmente porque ama seu filho. O que uma coisa tem a ver com outra?

Sei lá. Eu amo chocolate mas odeio o fato de que ele engorda. Eu amo ler, mas não gosto de vários gêneros por aí. Eu amo meu trabalho, mas estar de férias é uma delícia.

Essa romantização da maternidade faz muito mal às mulheres. É lindo e é uma delícia ser mãe. Ô se é. Eu adoraria ter vários filhos. Mas ficar grávida pode ser uma fase bem díficil para algumas mulheres – e a sociedade espera que elas vivam normalmente porque “gravidez não é doença”. Enquanto eu estava grávida, eu achava que gravidez era pior que doença pois quando você está doente você fica de molho e logo menos, melhora. Na gravidez, você precisa trabalhar, estar linda e radiante mesmo tendo vomitado 15 vezes em uma hora, manter vida social e, claro, sorrir. Porque “é a fase mais linda da vida da mulher”. A busca pelo parto que a mulher quer pode ser tornar um pesadelo – e de um jeito ou de outro ela vai sair rotulada. A índia louca ou a mãe egoísta e desinformada. Os primeiros dias de um bebê em casa podem ser traumáticos – e a percepção do trauma é ainda piorada pela privação de sono. Os peitos podem sangrar, você gritar de dor enquanto seu filho grita de fome. Nem roupa de grávida nem roupa normal são boas no pós-parto. Você pode se deparar com a regressão do sono e uma criança que não dorme durante o dia -ou durante a noite! – de jeito nenhum. Cólicas. Dentes. Ansiedade de separação. Ordenhas. Estoque de leite. Volta ao trabalho. Criança que se pendura em tudo o dia todo. Plateia no banheiro. Plateia que destrói o banheiro enquanto você tenta remotamente se concentrar. Comida fria. Sem comida.

E a lista é infinita. Eventualmente piorada por pitacos sem-noção, pais que não assumem a responsabilidade, empresas pouco humanizadas.

Eu amo a minha filha, mais do que qualquer pessoa ou coisa nesse mundo. Ela é a minha vida. Mas eu também gosto de comida quente, de dormir quando tenho sono, de deixar meu corpo acordar, de esquecer da Galinha Pintadinha, de pentear meu cabelo sem alguém pendurado nas minhas pernas, de não segurar o xixi, de sair correndo para o banheiro quando me dá dor de barriga. Gosto de fazer hidratação no cabelo durante o banho (me erra, Alckmin!), de ficar sozinha em casa, de andar sem tropeçar em brinquedos. Gosto de pular refeições, comer tranqueiras, fazer programa de adulto.

E tudo bem. Porque eu sou mãe, mas também sou a Thaise.

Parem de se culpar. Ser mãe não deve ser sofrimento solitário. Maternagem é tudo de bom, com um monte de poréns, como tudo na vida. Não existe nada que só tenha lado positivo. E tudo bem enxergá-los.

Não fechem os olhos e sorriam porque alguém disse que isso é amor.

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3 Comentários

Roberta Soares
Responder 17 de dezembro de 2015

Nossa incrivelmente bem escrito. Amo ser mãe,mas também amo ser eu.

Jéssica
Responder 17 de dezembro de 2015

Olha disse td,ser mãe é muito bom,mas eu ainda sou mulher! Eu ainda sou a Jéssica aquela que ama pintar as unhas e tê-las grandes, que gosta de se maquear enfim,eu sou mulher!

Luana
Responder 17 de dezembro de 2015

Texto sensacional,me definiu muuitoooo!!!Adorei!!!!

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