Respeitar a criança não é deixar de educá-la


Olá, queridxs!

Ando devagar quase parando desde que fiquei grávida, mas tenham paciência comigo. A bola da vez é que estou com hipotireoidismo (lembram que eu não tenho tireoide por causa do câncer?) e peguei uma gripe daquelas do marido ter que ir me socorrer no trabalho no meio do expediente. Mas espere, isso não é tudo: a gripe continuou aqui por 10 dias. Ameaçava melhorar e piorava de novo. Ontem passei umas horas no PS e…voilà: sinusite de novo. Ontem começamos com aquele antibiótico fraquinho que é o que grávida pode tomar (e nem de longe o que eu costumo tomar quando tenho sinusite) então lá vamos nós, com muita paciência e fé. hahahahaha Tudo isso na prática significa que eu passo quase todas as horas do dia que eu posso deitada, o que eu melhoro eu gasto dando atenção para a minha cria, que está absurdamente deliciosa e engraçadinha e tudo, absolutamente tudo, fica para trás. Pensem que a festa de aniversário dela é em duas semanas e eu estou com a caixa de emails cheia para responder fornecedores (ainda) e nem mandei as fotos da retrospectiva para o fotógrafo. Yay. Mas tudo bem, meu lema agora é uma coisa de cada vez e eu vou fazer o que dá, sem culpas ou sem me cobrar. Tenho feito isso há um tempo e tem funcionado, sabe?

Claro que 90% das coisas só estão andando porque eu tenho uma rede de apoio muito boa. Meu marido está assumindo praticamente tudo da casa sozinho (acabou de arrumar o nosso quarto e me colocar deitadinha aqui) e meus pais sempre, sempre, sempre, sempre me dão mãos e pés com a Catarina. Vão buscar na escola se eu preciso, cuidam dela para que eu possa ter umas tardes de repouso minha mãe vira e mexe me manda almoço ou marmita para a Catarina, enfim. A sensação de que não estou sozinha no mundo me acalenta demais. Claro que não era bem a ideia de carnaval que eu tinha para a gente, mas é o que tem para hoje.

Tudo isso para explicar as várias mensagens que estou recebendo, principalmente no Instagram que é onde acabo conversando mais com as pessoas. E agradecer o carinho e os presentes que a Catarina e a Aurora andaram recebendo (vou fazer um post disso!).

Então, estava eu hoje deitada na cama, tentando dormir, mas com uma questão me correndo. E aí tive de levantar e escrever porque parece que meus dedos doem e a minha cabeça não desliga enquanto eu não tiver.

Essa semana eu postei um texto do Quartinho da Dany se não me engano no meu facebook pessoal. Mais que um post de utilidade pública, era uma espécie de conversa com a madrinha da Cata, que é mãe da minha afilhada, sobre respeitar as crianças como pessoas e não como mini-adultos. Nós conversamos muito sobre isso porque a madrinha da Cata infelizmente tem umas memórias terríveis de abuso psicológico e emocional na infância que a gente se esforça MUITO para não repetir. E eu aprendo muito com ela e com a experiência dela. Vivo pensando sobre isso e juro que muitas vezes são essas filosofias que me seguram num momento em que quero dar um berro com a Catarina ou dar um tapa sequer na mãozinha dela. É absurdamente difícil romper com a repetição da forma com que fomos criados ou vimos pessoas próximas sendo criadas, mas é a tomada de consciência é necessária. A Maternidade (e a Paternidade!) trazem constantemente diálogos com a nossa infância, a nossa educação e a nossa personalidade. Sem a atenção necessária, acabamos passando nossas inseguranças, medos, dogmas e uma série de características que nem nós gostamos em nós mesmos para uma pessoinha totalmente em formação. Sim, porque se é verdade que elees têm a personalidade deles, pessoal e intransferível, é também que verdade que a maior parte do nosso trabalho encontra-se aí: direcionar as coisas ruins e incentivar as grandes habilidades e valores de cada uma das nossas crianças.

É por isso, por exemplo, que eu não acredito em “criança difícil”. Para mim, é como duende. Normalmente “meu filho é difícil” é a grande desculpa que nós damos (eu inclusa) para aquilo que a gente falha em direcionar. Nossos filhos não são robôs maniqueístas, “bons” ou “ruins”, “fáceis” ou “difíceis”. Tem criança que é mais fácil para comer, tem criança que é mais fácil para dormir, tem criança que é mais fácil para estudar e assim por diante. Eles são simplesmente seres humanos, com suas qualidades e defeitos, assim como nós. A grama do vizinho sempre parece mais verde, mas atrás de uma criança que come, dorme, brinca, é empática normalmente há muito trabalho – e várias outras dificuldades e lutas diárias que o portão não te deixa enxergar. E aí que eu acho que entra o respeito com a criança.

respeito às crianças

É PRECISO ENXERGAR AS CRIANÇAS COMO SERES HUMANOS.

Eles também têm dias ruins. Eles também acordam mal-humorados, às vezes perdem o apetite com o calor, ás vezes não tiveram uma boa noite de sono e simplesmente estão cansados demais para a rotina de mini-adultos que frequentemente impomos a eles tão cedo. Às vezes eles são simplesmente muito pequenos para falar e expressar a frustração que estão sentindo – ou até um mal-estar. E nós frequentemente não respeitamos isso. Fazemos com eles o que jamais permitiríamos que outras pessoas fizessem com nós.

O texto ia mais ou menos nessa linha.

E aí não bastaram 2 minutos para que as mensagens começassem a chover no meu inbox. Como eu, que era uma partidária da educação, poderia pensar e concordar com uma coisa dessas?

Era essa a resposta que estava aqui, pululando na minha cabeça e não me deixava dormir e melhorar da gripe-alien/sinusite.

Eu acho que com muita frequência nossa geração de pais confunde respeitar o momento emocional/cognitivo/psicológico com “deixar a criança fazer tudo o que quiser” ou “blindar a criança para frustrações”. Eu vivo falando sobre isso aqui no blog, aqui e aqui, por exemplo. E a linha é, de fato, muito tênue:

Sair com uma criança e optar, como nós fizemos aqui, por não levar nenhum artigo eletrônico como DVDs portáteis ou tablets é saber que não haverá um robozinho sentado do seu lado, em silêncio, daqueles que não atrapalha a atividade dos adultos. Por outro lado, é também assumir a responsabilidade de que isso não significa que a criança vá subir no sofá alheio e fazer pula-pula, abrir armários, geladeiras, mexer no que não lhe pertence. Porque isso não é “coisa de criança”, é coisa de quem não sabe respeitar o espaço alheio, a intimidade alheia. Entenderam a diferença?

E não adianta: a gente só aprende a dirigir dirigindo. A gente só aprende a falar uma língua falando. A gente só aprende qualquer coisa quando tomamos papel ativo na habilidade em questão. Uma criança só vai aprender a se portar num restaurante tendo chance de fazer isso. Várias vezes.

Semana passada, um grande amigo do Gustavo ligou para dizer que um amigo em comum deles havia acabado de descobrir a gravidez da esposa e estavam chamando a gente para comemorar na casa deles. Seriam 3 casais e a Catarina, que a gente sempre leva conosco porque ela é nossa filha, uai. Ela já perguntou no carro se haveria crianças e sinalizamos que não. Explicamos para ela que ela seria a única criança lá e que isso não seria problema. Como fomos direto de um evento na escolinha dela, não levamos absolutamente nada para “distraí-la”, como um brinquedo ou mesmo um par de roupas emergencial.

Ela chegou bastante envergonhada, se escondendo atrás de mim, como é típico da idade. Ninguém forçou uma interação e deixaram que ela fosse se soltando naturalmente. Ela viu a piscina e quis entrar. O amigo do Gus estava lá dentro e ficou um tempão brincando com ela – e ela só de calcinha. Lembram da falta da roupa emergencial? hahahaha Quando subimos ao apartamento, ela educadamente pediu que secássemos o cabelo dela e escolheu a esposa do amigão do Gu – de quem ela gosta muito – para secar para ela. Ficou sem calcinha, andou pela casa para reconhecer o espaço e não tocou em nada. Sentou no sofá, brincou com uma bonequinha que arrumaram para ela, saía para a sacada onde estávamos, dava voltas pela cozinha (a cozinha era aberta dos dois lados, o que permitia que ela desse a volta completa e ela simplesmente amou isso. Ficava correndo dando voltas toda feliz e o fez por um bom tempo). Ela estava bastante cansada pois não havia feito a soneca da tarde, mas sentou na mesa, comeu com a gente, aceitou suco de uva e biscoito mineiro quando ofereceram, toda feliz. Nós a deixamos livre, mostramos que confiamos nela. Ficávamos de olho, de longe e se ela ameaçava fazer algo que não seria legal, bastava chamá-la para que ela viesse para perto da gente. Perto da meia-noite, ela estava começando a chorar, pedir colo e sabíamos que ali era o limite dela, precisávamos respeitar e ir apesar da noite estar deliciosa.

A primeira coisa que fizemos no elevador foi elogiar. E ela ficou surpresa com e elogio, pois nem percebeu que havia sido tão obediente. Foi natural para ela. “Eu sou boazinha, mamãe?” “Claro, filha. Você sempre obedece o papai e a mamãe. Não grita, se comporta bem. Trata bem as pessoas, não sai correndo. Você é muito boazinha e está de parabéns. Você quer voltar na casa do tio Fulano e da tia Fulana?” “Quero sim, mamãe”.

Não foi um milagre, não foi sorte. Foi quando a gente viu o resultado de quase 3 anos de restaurante sem tablet, quase nunca com espaço kids, de visitas aos nossos amigos independente das crianças…mas também das (muitas) broncas, das (infinitas) conversas sobre empatia e respeitar os outros, das respiradas fundas que demos em cada crise de birra (que sim, óbvio, continuam a acontecer), da liberdade que sempre demos (nuuuuuuuunca ficamos andando atrás dela, como fieis escudeiros), enfim. Nós ACREDITAMOS que ela era capaz, apesar de ser criança. E jamais exigimos um robô que ficasse sentado em silêncio do nosso lado.

A gente não pode exigir que alguém que nunca sentou no banco do motorista seja um exímio motorista, não é?

Dar a chance de aprender também é respeito. É prova de amor. Quem é que não gosta de sentir que confiam na nossa capacidade?

Ótimo carnaval,

Ise.

Fotos by pixabay

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