Setembro Amarelo: é tempo de proteger vidas


Eu nunca tinha parado para pensar em suicídio. Era uma coisa que estava muito fora da minha compreensão. Eu sou daquelas otimistas natas que sempre tenta ver o lado bom das coisas e das pessoas. Assim, suicídio era uma coisa limitada aos dias de caos no Metrô para mim.

Uma vez, eu vi uma pessoa pular. Nem vi direito, vi de rabo de olho. Estava distraída, como sempre estou, enquanto estou por aí. Mas aquele barulho, os gritos me empacaram uns 3 dias. Eu jamais conseguiria conceber que tipo de coisa poderia levar alguém a fazer uma coisa dessas. Até eu ter transtorno de ansiedade e crises de pânico.

As crises de ansiedade sem motivo aparente me deixavam com uma sensação eterna de frio na barriga. Sabe aquela sensação horrível de frio na barriga com medo? Ela era contínua dentro de mim. Eu não conseguia pensar, não conseguia comer, não conseguia trabalhar. Todos os dias pela manhã eu “acordava” (quando conseguia dormir um pouco) chorando, desesperada. Foi horrível. Eu sabia que tinha um problema, fui buscar tratamento e sabia que ia melhorar. A questão foi ter só um pouco de paciência. Eu fiquei uns 2 meses bem ruim, entre entender o que estava acontecendo e o tratamento começar a surtir algum tipo de efeito. Foi o suficiente para eu matar meia família do coração quando eu disse que ENTENDIA o porquê das pessoas cometerem o suicídio.

Não, suicídio nem passou pela minha cabeça. Eu gosto muito da vida e, especialmente, gosto muito da MINHA VIDA. Sou muito sortuda e não tenho do que reclamar. Só que eu comecei a entender o quão física uma doença psiquiátrica poderia ser, o tipo de sensação que uma mente doente pode despertar numa pessoa e como aquilo tudo é horrível. Eu tinha vontade de arrancar meu coração com a mão só para não sentir aquele aperto dentro do peito. Eu pagaria qualquer coisa para alguém que tirasse aquilo de mim. Eu jamais imaginei a proporção daquilo. E se AQUILO era um “simples” TAG, já sendo tratado, fiquei imaginando as dores de uma depressão profunda, de uma esquizofrenia ou de outros transtornos dos quais eu provavelmente nunca ouvi falar.

Uma pessoa saudável não é capaz de entender. Hoje eu sei disso. Infelizmente eu não sabia há uns anos atrás quando um grande amigo meu, muito querido e amado, optou por esse caminho. Fico pensando de qual grande dor ele padecia e que eu nem fazia ideia. Fiquei pensando se ele me havia dado dicas durante a nossa amizade que pudessem ter me levado a fazer alguma coisa. Fiquei pensando no silêncio dos últimos tempos e se eu havia feito o suficiente para fazê-lo falar. Culpa sim. Eu não percebi o que estava se passando. Eu não fui capaz de ver através dele.

Por tudo isso, achei que o Setembro Amarelo poderia ser, de fato, um sinal de alerta para todos nós. E daí veio a ideia de ceder meu espaço para falamos sobre isso. Falem, falem e falem! Abaixo o tabu! Setembro Amarelo: é tempo de proteger vidas.

Um grande abraço,

Ise.


suicídio

Alertar a sociedade sobre o suicídio como um problema de saúde pública é o objetivo da campanha; nove em cada dez casos podem ser evitados se os sinais forem percebidos a tempo

Agosto de 2016 – Em todo o mundo, setembro é o mês de atenção ao autoextermínio, tendo seu ápice no dia 10, quando ocorre o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. “A cada 40 segundos morre uma pessoa por desistir da vida. Esses números precisam ser conhecidos para que suicidas e suas famílias, busquem ajuda imediatamente. Quando o assunto é a morte planejada, ninguém é culpado, mas todos somos vítimas”, alerta Dra. Maria Cristina de Stefano, psiquiatra.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que por ano mais de 800 mil pessoas cometem suicídio no mundo. É mais gente do que todos os mortos em guerras, vítimas de homicídios e desastres naturais. “Infelizmente, esses dados já devem ter crescido, pois o assunto ainda é tratado como tabu pelas famílias, as quais preferem não falar sobre o tema, e pela sociedade, que ainda banaliza a questão”, lamenta a psiquiatra.

A médica perdeu o filho Felipe aos 34 anos em 2012. Desde então, Dra. Maria Cristina promove a precaução do autoextermínio por meio de palestras para especialistas da área de saúde, estudantes universitários e membros de entidades e instituições. “É claro que dói falar do assunto, por outro lado, eu relembrarei aquele dia fatídico para sempre, a cada minuto, mesmo que não comente.Então, diante do fato, é muito melhor poder ajudar outras pessoas a se salvarem, contando minha história e promovendo a prevenção”, afirma.

As estatísticas também reforçam que 9 em cada 10 casos podem ser previstos caso as pessoas que convivem com o suicida detectem os sinais. “Não percebi a gravidade do estado de Felipe, até porque ele era muito independente e fechado em si mesmo. Só depois de ler os diários deixados por ele é que tive certeza do quanto estava doente mentalmente”, lamenta.

Dra. Maria Cristina decidiu se posicionar e publicou o diário deixado pelo filho. ‘Suicídio: a epidemia calada’ é um resumo dos três últimos anos de vida de Felipe. “Diante do suicídio, calam-se as famílias, os médicos, a imprensa e a sociedade. Eu não poderia ficar em silêncio”, afirma.

Impedir a continuidade dessa epidemia é o principal objetivo das ações de Dra. Maria Cristina. “A cada um suicida, em média, seis pessoas são atingidas por um quadro depressivo. Existem vários mitos, como achar que mencionar a palavra ‘suicídio’ fará com que o número de mortes aumente. Pelo contrário, falar sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que os pensamentos trazem”, ensina.

Os maiores registros de suicídio estão entre pessoas de 70 anos ou mais, porém, os jovens, de 15 a 29 anos, já correspondem a 8,5% dos índices mundiais.“Às vezes tudo o que essas pessoas precisam é de atenção. Nós, como seres humanos, muitas vezes ignoramos quando as pessoas lamentam da vida. Um parente ou um amigo pode não estar bem e não ser pieguice, mas sim doença”, alerta a psiquiatra.

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EXPOSIÇÃO  O filho de Dra. Maria Cristina também deixou quadros pintados. Nas obras, Felipe também registra silenciosamente o agravamento de seu sofrimento psíquico.

Entre 19 e 29 de setembro, a Biblioteca Municipal de Jundiaí recebe a exposição ‘Suicídio: a epidemia calada’, com os quadros pintados por Felipe. “É mais um reforço para a campanha de prevenção. Que possamos com tal exposição de arte e da vida salvar mais pessoas”, finaliza Dra. Maria Cristina.

OMBRO AMIGO Recentemente, o GAV (Grupo de Apoio à Vida) de Jundiaí expandiu-se em CVV (Centro de Valorização da Vida) e até o começo do mês de setembro deve passar a receber ligações através do 188, o número é geral para o país e gratuito para quem liga.

Além disso, os atendimentos, para quem tem pensado em se suicidar ou está precisando de ajuda, acontecem presencialmente na Avenida dos Ferroviários n° 2222. “Esse processo de mudança não tem sido fácil, nem simples, mas estamos no caminho certo”, comemora Maria Bernadete Amaral, coordenadora da unidade.

Sobre esses centros, Dra. Maria Cristina explica que eles têm sido responsáveis por reduzir o número de vítimas do suicídio.

Sobre a Dra. Maria Cristina De Stefano – É formada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos. Foi médica sanitarista e professora de Saúde Pública na Faculdade de Medicina de Jundiaí. Desde 1996, atua como médica psiquiatra. Em 2012, a psiquiatra perdeu o filho Felipe de 34 anos por suicídio e desde então tem trabalhado na prevenção por meio de palestras para especialistas da área de saúde, estudantes universitários e membros de entidades. Além das palestras, a psiquiatra lançou a segunda edição ilustrada do livro ‘Suicídio: a epidemia calada’, que traz os últimos três anos do diário do filho.

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Pauta: Stéphanie Borin
Imagens: pixabay

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