Sobre Coelho da Páscoa e outras mentirinhas…


Eu defendo a maternidade (e paternidade) consciente. Isso significa que não curto fazer as coisas porque todo mundo faz, “por bom senso” ou sem pensar muito. Eu penso. Penso muito. Penso no porquê das minhas atitudes (muitas vezes é um trabalho exaustivo de desconstruir a minha própria infância e minhas próprias dificuldades), baseio as minhas escolhas em ciência, converso muito com o Gustavo, leio e estudo, observo meus alunos.

E aí que, há umas semanas, eu me peguei pensando se íamos fazer a patetada toda do coelhinho da Páscoa para a Catarina. Explico: eu estou tentando criar a minha filha sem mentiras. Eu quero que ela saiba que nós não mentimos para ela. Não gosto da ideia de normatizar mentiras, sabe? Se não pode mentir, por que os adultos falam de coelhos e papais noeis? A lógica das crianças não tem tons diferentes, nuances. É uma mensagem que passamos até subliminarmente. Tudo bem mentir de vez em quando. Tudo bem se a intenção for boa. Mentirinha pode. ‘Mentirinha de amor”. Não sei se isso existe.

mentiras

“Quando seus pais te acusarem de mentir para eles, olhe-os nos olhos e diga: COELHINHO DA PÁSCOA! PAPAI NOEL! FADA DO DENTE!” – Pinterest

Além disso, penso nas decepções: eu nunca me esqueci da sensação de descobrir que o Papai Noel não existia. Eu me senti enganada, de verdade. Passei meses criando situações para que meus pais fossem obrigados a contar a verdade, porque eu não era boba com 6-7 anos de idade. Coelhinho da Páscoa nunca foi fantasia em casa, sabíamos muito bem que os ovos eram comprados, caros ou feitos pela minha mãe – o melhor chocolate do mundo, diga-se de passagem. E eu REALMENTE não acho que foi ruim. Para mim era óbvio e natural, afinal, coelhos não botavam ovos de chocolate, ué. Para valorizar os esforços dos meus pais em nos dar os chocolates todos os anos e, principalmente, para não precisar esperar Domingo de Páscoa para comer ovo. A gente começava a comer ovo no carnaval, muita felicidade. Quando os primeiros apareciam no mercado, lá estávamos nós levando-os para casa. Uma fartura! Fada do Dente então, ixi. Não é da nossa cultura, né? Ela se popularizou nos últimos anos, mais um efeito da globalização. Caía dente (ou eu arrancava!) e ia para o copinho dos dentes, que guardávamos atrás do barzinho da minha mãe, na sala. Era troféu. Mostrávamos para as tias e a vó. Os dentes nunca foram embora. Eles eram NOSSOS, a gente fazia o que queria com eles. Trocar por dinheiro nunca foi uma opção, eles valiam muito mais que qualquer nota de 10 reais. Mas será o benedito que temos que ensinar as crianças que dinheiro vale mais que tudo nesse mundo? Que valores são esses?

Pois é, eu realmente não gosto da Fada do Dente. Mas eu gosto do Coelhinho da Páscoa. E fui ficando mais empolgada ao ver a empolgação da Catarina, que aprendeu muito sobre ele na escola e até viu um coelho de verdade essa semana.

Não fomos eu ou o Gustavo que falamos em coelho e ovos de chocolate para ela – e a relação entre eles. Foi a escola. Até porque chocolate é algo que a Catarina ama, mas que come muito raramente. Nós não oferecemos chocolate fora de datas especiais para ela, simplesmente porque ela não tem idade para isso. Chocolate não é sobremesa de criança de 3 anos.

E aí eu tive que decidir o que fazer com essa informação e empolgação.

Fui fraca. hahahahaha Não tive coragem de desmontar a empolgação dela e frustrá-la desse tanto. Resolvi que vamos fazer o teatro todo do Coelho este ano e, quem sabe, até o ano que vem eu vou tendo oportunidades de desmitificar a coisa para ela. É diferente conversar com uma criança de 3 e com uma criança de 4 anos. Ou mude de ideia sobre o coelho, sei lá. Uma coisa de cada vez… Por enquanto, me convenci que ela não tem pensamento lógico organizado o suficiente para entrar numa discussão dessas, então vou com a maré.

Mas Fada do Dente NÃO. hahahahaha

Ponto alto da palhaçada toda: Catarina queria comer a cenoura que compramos para deixar para o coelhinho. Talvez ela não se importe tanto com ele no final das contas…rs

Boa Páscoa para vocês,

Ise.

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