Tratamento do câncer de tireóide – Fase 2: a iodoterapia


Estou recebendo muitas e muitas perguntas sobre o câncer de tireóide. Sei lá, parece uma espécie de epidemia entre as mulheres da minha idade. Então vou continuar escrevendo e espero que possa ajudar alguém.

Já escrevi sobre como descobri o câncer de tireóide e sobre a tireoidectomia. Entre este último passo e o fim do tratamento (a iodoterapia), existe um abismo infernal chamado HIPOTIREOIDISMO.

Quando a tireóide é retirada, obviamente seu corpo para de produzir os hormônios da glândula. O paciente entra em hipotireoidismo. Aí você descobre que a tireóide regula quase tudo no seu corpo, inclusive coisas que você nem imaginava. Os sintomas são muitos, muitos mesmo. O principal deles é o cansaço intenso.

10 dias após a cirurgia

10 dias após a cirurgia

Logo ao fim da primeira semana após a cirurgia, levantar do sofá começou a ser uma tarefa complicada. Eu sentia um peso tão absurdo no corpo, que acabei indo passar até umas tardes na minha mãe pois não conseguia nem trocar a fralda da minha filha. Dava 3 passos e parecia que havia corrido uma maratona. Meu sono ficou muito desregulado, assim como meu apetite e sensação de calor/frio. Comecei a ter episódios de pânico e o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) ficaram mais visíveis, assim como episódios depressivos.

Tive muita, mas muita dor muscular também. Eu achava que estava com uma doença gravissíma nos músculos ou nos ossos, pois sentia pontadas que corriam pelo corpo.

Fiz a cirurgia em 14-07 e me internaria para a iodoterapia em 06-08. Uns 10 dias antes, comecei a fazer a dieta pobre em iodo. O protocolo do Hospital Oswaldo Cruz, onde a cirurgiã me indicou realizar o procedimento, é bem menos conservador que de outros lugares que eu vi por aí. Eu podia comer quase tudo, até sal. Só que em quantidades moderadas. Poderia beber até refrigerante! A minha lista de alimentos proibidos era muito menor que dos permitidos. E assim, eu que sou bem fresca para comer, não tive muitos problemas com a dieta.

Na cirurgia, a tireoide é retirada mas podem sobrar células dela -doentes- pelo corpo do paciente. Essas células precisam ser eliminadas.

Elas “se alimentam” de iodo. Num período anterior à realização do procedimento -mas após a cirurgia- a gente entra na tal dieta.

Essas células então ficam “mortas de fome” (gente leiga explicando é outro nível hahahaha). Quando a gente interna para fazer a iodoterapia, toma um comprimido de iodo radiotivo. As células da tireoide, mortas de fome, vão desesperadas pegar esse iodo. Mas ele é radioativo e puft: elas morrem.

É só um comprimido. A pessoa fica em isolamento porque fica radioativa. Essa radiação é eliminada principalmente através da urina e é por isso que temos de beber cerca de 4 litros de água durante o dia, de forma a eliminar a radiação aos poucos.

Quando o paciente recebe alta, ele está radioativo ainda, mas em níveis de segurança para adultos. A restrição de convivência é para crianças abaixo de 10 anos e grávidas. Falando em gravidez, mulher que se submete ao procedimento não pode engravidar de jeito nenhum até um ano após o procedimento. O homem não pode engravidar ninguém 6 meses depois. Amamentação também é totalmente incompatível com iodoterapia. Isso merece todo um post à parte, porque a minha filha nunca tinha tomado outro leite até descobrirmos o câncer.

Enfim, o quarto é todo revestido em chumbo. Quando entram as enfermeiras ou os médicos, todos paramentados, eu preciso estar atrás dessas placas de chumbo que vocês veem na foto. Ou na cama ou na poltrona. Não posso andar descalça e preciso ir tocando os forros para abrir as portas e armários.

iodoterapia

Minha maior preocupação com relação à internação era no tédio que eu sentiria trancada por 24 horas num quarto de hospital, sem visita, sem nem mesmo enfermagem. O que eu não sabia – ou não botei muita fé – era que o meu TSH estaria tão alto que eu praticamente não levantaria da cama. Levei meu computador, livros, revistas, dois celulares… e só fiquei deitada assistindo à TV. Não tinha forças mais. O corpo era muito pesado. Eu não tinha ânimo nem para ficar triste ou preocupada.

Assim passei 24 horas no hospital. Dormindo, acordando, dormindo de novo e lidando com os poucos efeitos colaterais do tal comprimido de iodo radioativo. Tive dores de cabeça, enjoo e senti dor nas glândulas salivares. Novalgina, dramin e limão para fazer gargarejo deram conta do recado. Falava o tempo todo com meus pais e meu marido para saber da minha filhinha de 1 ano e 4 meses que eu não veria por quase 12 dias.

O protocolo do Oswaldo Cruz do contato com outras pessoas pós-iodoterapia é bem tranquilo também: vida normal com adultos, desde que ninguém tocasse as coisas que estavam comigo no hospital por 10 dias. Eu poderia dormir na mesma cama que meu marido, não precisaria separar talheres e nem usar banheiro diferente. Eu só não poderia ter contato prolongado com grávidas e crianças abaixo de 10 anos. O que é um mega problema quando você tem um bebê em casa e trabalha como professora. 10 dias sabáticos para mim.

meu quarto no hotel

meu quarto no hotel

Eu nunca havia passado uma noite longe da minha filha. Mas decidi que não ia chorar e nem me lamentar e sim agradecer pela oportunidade de tratamento e altas chances de cura para passar o resto da vida com ela. Não chorei nenhuma vez, só quando a reencontrei (tem o vídeo no Instagram!). Optamos por eu ficar em um hotel perto de casa, assim meu marido poderia me fazer companhia de vez em quando e a Catarina teria acesso livre a nossa casa e à casa da minha mãe. Minha mãe e minha sogra foram essenciais nesse processo pois meu marido trabalha o dia todo e não tem flexibilidade de horários ou possibilidade de fazer home office.

No dia que voltei para casa, não nos desgrudamos

No dia que voltei para casa, não nos desgrudamos

Acabou que, no final das contas, eu de novo levei um monte de coisas para ficar fazendo e não fiz quase nada. Eu dormia pouco e mal à noite e muito durante o dia. Sentia muito cansaço, era muito difícil descer tomar café da manhã. Então eu não sentia falta de companhia, nem nada. Eu sentia um profundo alívio por poder ficar deitada sem falar, sem fazer sala, sem responder à ninguém. Estava fraca e ainda com muitas dores. Colocava a plaquinha de não-perturbe na porta do hotel e ficava deitada com a TV ligada.

nãoperturbe

Dois ou três dias após a iodoterapia, fui fazer o mapeamento. É um exame que verifica se a radioatividade está certinha no corpo e se há pontos de metástase. Meu exame já deu todo ok. Sem câncer. Foi um alívio.

Depois disso, começaram os exames de sangue mensais para ajustar a dose do hormônio. Meu corpo respondeu muito bem e, aos poucos, fui melhorando. Voltei a trabalhar imediatamente. Eu só queria retomar a minha vida normal.

Mas aí o TAG veio com tudo. E isso é papo para outro post!

Beijos,

Ise.

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17 Comentários

Nara Lucena
Reply 25 de maio de 2017

Olá....operei dia 26/04/2017....recebi o resultado da biópsia dia 18/05/2017, infelizmente deu um nódulo carcinoma papilifero, mas sem metástase graças a Deus. Estou me preparando para viajar para realização da iodoterapia. Tenho uma dúvida....é verdade que a roupa usada é queimada??? Quanto tempo fica nesse quarto de isolamento radioativo???
Obrigada desde ja.

    Thaise Pregnolatto
    Reply 28 de maio de 2017

    Olá! Olha, nunca ouvi falar nada parecido. Eu fiquei 12 dias num hotel após a internação (porque a minha filha tinha menos de 10 anos) e nesse período, deixei a roupa num armário lá, sem mexer. Quando voltei para casa, direto para a máquina. Foi essa a instrução que eu recebi, dentro do protocolo do hospital onde fiz o tratamento... O tempo no hospital depende um pouco da dose de iodo que vc recebe e de quão rápido seu corpo consegue ir eliminando a radiação (Beba MUITA água!). Eu fiquei 24 horas no hospital, + 10 dias em isolamento no hotel. Eu podia ter contato com adultos sem problema nenhuma, minha restrição foi para gestantes e crianças com menos de 10 anos. Boa sorte!

Carol
Reply 28 de abril de 2017

Boa tarde amigas.passamos pelas mesmas dificuldades...operei dia 24/02/2017 em pleno carnaval pela equipe da dra Alisson Hospital Paulistano uma excelente médica enfim...a recuperacao da cirirgia é horrivel, muita dor no corte e pontos,preparacao para iodoterapia e de fato horrivel, foi muito restrita...fiz a tal iodo dia 25/04 e fiquei 2 dias internada no hospital Santa Paula ...estou extremamente enjoada e estou me preparando para a Pci que será dia O2 de maio....estou muito apreensiva pelo resultado pois no dia da cirurgia a dra.encontrou lonfonodos onde tive que fazer esvaziamento cervical...estou bastante inchada mas estou fazendo caminhadaa para aliviar o stress e a tenção, ansiedade...vamos compartilhar nossas experiências....vocês sabem me dizer o que facilita a cicatrização pois meu corte arde muito e esta vermelho demais....toda vez que me olho no espelho e vejo este corte me faz lembrar tudo o que ja passei....o que será que me aguarda???grande abraço. Bjs

Mércia
Reply 21 de abril de 2017

Descobri o câncer na tireoide em janeiro 2017, foi um susto pois tenho 34 anos e estava querendo engravidar. Fiz minha operação no dia 24.03.2017 estou me preparando pata a iodoterapia. Passei por momentos difíceis mas não desisti. Tenho fé que após o tratamento vou conseguir ter meu bebe.

    Simone
    Reply 2 de maio de 2017

    Boa noite!
    Oi Mércia, eu também fiz a Tireoidectomia total e Esvaziamento Cervical no dia 24/3/17 devido ao Carcinoma Papilifero, a biópsia constatou metástase nos gânglios. Já estou fazendo a dieta para a iodoterapia no dia 12/5/17. Tenho sentido muitas dores musculares, cansaço, mas a vontade de viver e a fé em Deus supera essa fase. Com fé iremos vencer essa batalha, assim como nossas colegas que relataram suas experiências. Boa sorte pra nós e muita saúde a todas!!!
    Positividade sempre...

Luciara barbara
Reply 23 de março de 2017

Eu já operei 3 vezes a tireoide,a 1*abril de 2008 ,diz iodoterapia Junho de 2008,operei Setembro 2008 e operei Maio 2009.
Sofri bastante com a dieta pobre de iodo,as cirurgias foram delicadas,tenho discretas cicatrizes de uma orelha a outra.Fiquei com uma pequena sequela no pescoço, tenho vários torcicolos e não movimento totalmente o pescoço. Tento levar uma vida normal.
Hoje 23.03.2017 estou internada para mais uma dose de iodoterapia, pq diz PCI e deu um pequeno vestígio do lado esquerdo.
Por isso a importância de estarmos sempre acompanhando,câncer da tireóide tem casos diferentes de uma pessoa para outra.
Estou bem e gostaria de dar o aviso,façam sempre os exames não abandonem seus médicos. Fiquem com Deus.

Kamila de Araújo
Reply 24 de janeiro de 2017

Ola, estava fazendo alguns exames para saber pq apareceu nódulo na tireóide ,fiz biópsia e deu câncer maligno carcinoma papilífero e está bem avançado, mas tudo bem até ai, acabei engravidando por um remédio para emagrecer que cortou meu anticoncepcional que já tomava a 4 anos , o orlistat fez isso. Agora estou correndo contra o tempo e retirar o câncer antes do bebê nasce, pois para ajudar tenho tido picos de pressão alta coisa que tive na primeira gestação, a famosa pré eclampsia. Estou com medo pelo meu bebê durante a anestesia,creio que isso vai afetar muito depois do parto pq não irei amamentar sem contar que não vou poder ficar com ele nos seus primeiros dias de vida.

    Thaise Pregnolatto
    Reply 15 de fevereiro de 2017

    Poxa vida! Que pesado! Eu estava numa situação muito mais confortável que a sua e mesmo asism foi um grande baque. Boa sorte e um abraço bem forte!

Nádia
Reply 24 de janeiro de 2017

Passei pelo mesmo procedimento. Realizei cirurgia 21/06/16 e fiz iodo 21/09, mais Deus foi tão bom comigo, que tive uma vida ativa e normal nesse Período sem o hormônio, sentia apenas um pouco de Dor nas pernas no final do dia, mais perto de alguns relatos creio que não foi quase nada. Meu iodo foi super tranquilo , só fiquei 7 dias longe de gestantes e crianças, mas não tive nenhum efeito colateral.Quando descobri meio que me desesperei como não tenho filhos ainda eu não sabia o que poderia impactar no meu futuro. Mais percebi que em vários relatos que não afeta em nada.Meus exame pós iodo deu negativo para metástase.Fiz duas vezes procedimento da dieta uma para uma pequena dose iodo para fazer pesquisa corpo inteiro, e outro com procedimento tradicional, me estressei um pouco com a segunda dieta, mais acho pelo trauma emocional que estava vivendo. Mas como digo tudo passa muito rápido, estou na fase de acerto do hormônio, mais graças a Deus seguindo forte. Por isso falo, se você descobriu esse problema não se apavore cada corpo é único e reage de uma forma, ouvi tantos relatos e ficava assustada, mais depois conclui que cada pessoa é unica e reage de forma diferente. Deus abençoe a todos...

Katiany
Reply 23 de novembro de 2016

Olá Boa noite, fiz a cirurgia no dia 26/07/16, e minha iodoterapia em 32/08/16. Esse período foi tenebroso, a minha dieta foi extremamente restrita, eu não gosto nem de lembrar o processo do iodo, passei muito mal, só de ver essas fotos do quarto me sinto mal, fiquei internada dois dias isso foi um martírio para mim. Logo que tive alta passei muito mal, foram oito dias horríveis de crises de enjoos e vômitos. Na minha pesquisa deu metástase no intestino, estou em tratamento ainda, mas logo estarei ótima. Com isso tudo engordei, tive minha vida modificada totalmente, foram 50 dias longe da escola, pois sou professora,mas tudo tem um porquê e é um aprendizado. Hj vejo muitas coisas diferentes. Bjs

Fanavia
Reply 8 de setembro de 2016

Oii..
Passei pelos mesmos processos que vc, retirei a tireóide total (19.05.2015) e fiz iodoterapia (08.2015) no entanto com uma diferença ... Tive que fazer uma segunda cirurgia devido à um linfonodo que surgiu no pescoço. Mas graças a Deus hoje estou bem :) Abraços e felicidades pra nós !!!

Renata Barbosa
Reply 12 de julho de 2016

Oi. Irei operar dia 26.07. Estoi bem confiante... porém tenho tbm uma filhjnha de 1 ano e 1 mes. Voce engordou muito?

    Thaise Pregnolatto
    Reply 13 de julho de 2016

    Olá!

    Olha..Não posso mentir...engordei bastante sim...

    Você sabe se vai para a iodoterapia?

Raquel bortoncello
Reply 22 de maio de 2016

Boa noite ,tenho 30 anos não tenho filhos. Descobri um câncer maligno na tireóide, estou muito preocupada, bj

    Thaise Pregnolatto
    Reply 29 de maio de 2016

    Olá, Raquel!

    A pessoa mais indicada para te tranquilizar é seu médico, claro. Mas posso te dizer que, a princípios, não há motivo para se preocupar. Qual é o seu tipo de tumor? O meu era carcinoma papilífero. Se quiser, me escreve. Bjs

Aline
Reply 30 de novembro de 2015

Adorei o post. Que ele ajude outras pessoas que passam hoje pelo que vc viveu. Adorei a forma de explicar "puft:elas morrem", hahahaha. Bjs querida!

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