Será que um tapinha não dói?


Quer me ver ficar LOUCA é ver o Facebook se encher de posts defendendo que criança precisa apanhar para ser educada. Vira e mexe esses posts voltam à ativa e fico extremamente assustada em ver pedagogos, pessoas ligadas à educação (que são maioria entre meus amigos, afinal estou na área há 16 anos) e gente muito esclarecida defendendo barbárie. Fico pensando que se está ruim para as crianças de gente que -supostamente- estudou psicanálise e desenvolvimento infantil, imagina para os filhos de mortais que invariavelmente vão reproduzir a educação que tiveram.

Mais estranho ainda, na minha opinião, é que 100% dessas pessoas considera barbárie bater em um animal ou em um idoso, por exemplo. Por que cargas d’água bater em criança é menos sério e pode até ser justificado? Em nome da educação? Sério mesmo? Será que não tem outro jeito de ensinar sem ser castigando fisicamente como no século XVI? Será que a ciência não evoluiu NADINHA desse tempo até agora? Será que devemos jogar fora tudo o que sabemos sobre neurociência, psicologia e agir como uma pessoa que viveu há 600 anos?

Palmada é, na verdade, uma palavrinha menos feia que começaram a usar no lugar de “bater” ou “espancar”. Porque é isso. Seja um tapinha na mão ou uma surra de deixar hematomas, as consequências psicológicas estão ali, impregnadas de violência e desamor.

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Eu me recuso a tentar convencer a alguém a não bater neste post porque eu acho que é simplesmente uma questão de caráter. Não estou dizendo que seja fácil educar de uma maneira diferente da que fomos educados, mas evoluir e melhorar é a lei da vida. Não podemos normatizar violência, muito menos frente a quem mais amamos nesse mundo. Que mensagem passamos para nossas filhas se eu e meu marido, as pessoas envolvidas e responsáveis pela existência delas, batemos para castigar? Estamos dizendo que bater é normal, que existe justificativa mesmo quando vem de alguém que se ama. Daí para um relacionamento abusivo é um pulo. O amor não dá passe-livre para violência. Respeito e caráter são fundamentais e base de tudo – e é isso que eu quero que as minhas filhas tenham impresso na alma antes de começar um relacionamento com alguém. NADA, ABSOLUTAMENTE NADA, JUSTIFICA QUE ELAS TOMEM UM TAPA NA VIDA. MUITO MENOS DE ALGUÉM EM QUEM AMAM E CONFIAM.

o que se aprende apanhando

Acho mais insano ainda quando apanhar é o castigo da criança por ter batido no irmão ou em um amigo. Fico de verdade me perguntando se o adulto não percebe o tamanho do absurdo, da hipocrisia e da irracionalidade. Ele, teoricamente, está castigando para ensinar. Mas o que está ensinando de verdade se está batendo também?

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Eu desconheço pesquisas amplas nesse sentido aqui no Brasil – se alguém conhecer, por favor me passe que eu gostaria muito de ler. A maioria das pesquisas engloba Estados Unidos e Europa, então vou tentar contextualizar sempre que necessário. Vamos a alguns dados:

Percentual de pais americanos que concordam com a afirmação: “Uma criança às vezes precisa de uma bela surra”

Homens: 78%
Mulheres: 66%
Ensino Médio incompleto: 78%
Ensino Médio completo: 75%
Ensino Superior incompleto: 70%
Ensino Superior completo: 67%
Cristãos: 78%
Não-Cristãos (incluindo Ateus): 66%

O que notamos: 1. Os homens são mais violentos (na pesquisa completa, em TODOS os níveis eles concordam mais com essa afirmaçao que as mulheres). 2. Quanto maior o nível de escolaridade, menos a pessoa tende a bater em seus filhos. 3. Ainda assim, é MUITA GENTE que considera bater mais do que absolutamente normal, mas absolutamente imprescindível.  4. Jesus, mais uma vez, está morrendo de vergonha do fã-clube. Aparentemente suas mensagens de paz e fraternidade não incluíam as crianças. SQN.

Com todos esses dados, não é de se estranhar que nos EUA, 15% das crianças toma sua primeira surra antes do aniversário de 1 ano. Ou seja, BEBÊS. Fico pensando em quais seriam nossos dados por aqui…

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  • Para a ONU: Todo castigo físico que cause dor ou desconforto (mesmo que leve) É ABUSO. E defende que proibir a “palmada” é estratégia chave para reduzir e prevenir todas as formas de violência na sociedade.
  • Uma análise em 88 estudos científicos publicados nos últimos 62 anos encontrou 94% de consenso: bater é maléfico no desenvolvimento infantil. Ao contrário do que o povo imagina, ele AUMENTA os riscos de ser abusado fisicamente na vida adulta, está diretamente ligado à delinquência juvenil, forma pais e cônjuges também abusivos, aumenta o risco de doenças mentais e cria crianças MAIS AGRESSIVAS: Crianças que apanham mais de 2x por mês aos 3 anos de idade tem 49% mais chance de se tornarem crianças agressivas antes dos 5 anos.
  • Crianças que apanham tem o desenvolvimento cerebral diferenciado. Tomografias de adultos que apanharam quando crianças mostram que há uma redução em 19% da capacidade de entender a perspectiva de outra pessoa, redução de 15% na memória e na capacidade de prestar atenção. Esses cérebros mostraram também propensão ao vício, ao comportamento suicida, à depressão e ao estresse pós-traumático.
  • Adultos que apanharam também tiveram scores cerca de 10 pontos abaixo dos que não apanharam em testes de Q.I.
  • Adultos que apanharam também têm mais problemas de saúde: 20% maior predisposição à obesidade, 25% maior predisposição à artrite e 28% maior predisposição a problemas cardiovasculares.
  • Quando bater não funciona mais, os pais tendem a AUMENTAR a força ao invés de mudar de estratégia na educação dos filhos. 85% dos pais relata raiva de moderada a alta quando batem nos filhos.
  • Um estudo envolvendo 33 universidades em 17 países revelou que estudantes universitários que apanharam quando crianças têm maior chance de sofrer violência doméstica de seus parceiros.

E isso é só para começar. Quanto mais a gente pesquisa, lê e entende, mais a gente acha. O Brasil faz coro com outros 41 países que têm leis contra qualquer tipo de castigo físico (a tão polêmica “lei da palmada” – e eu nem entendo porque foi tão polêmica. Ela é mais do que necessária num mundo de pessoas civilizadas! 54% dos brasileiros É CONTRA A LEI, você sabia?). Pais enquadrados na lei, teoricamente, são encaminhados a cursos de orientação, tratamento psicológico e psiquiátrico e podem até perder a guarda das crianças. Eu digo TEORICAMENTE porque, honestamente, nunca vi aplicação prática. As pessoas não batem em público (acho) e tenho um feeling fortíssimo de que a aplicação da lei não será a mesma para o país branco e de classe média e para o país negro ou periférico. Mas aí é buraco fundíssimo, conversa para outro post.

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Fontes:

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1 Comentários

Marina Ribeiro
Responder 4 de janeiro de 2018

Vou compartilhar em um grupo de maternidade que está precisando destas informações. Muito bom o post! Obrigada

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