Você sabe DE VERDADE o que estão chamando de “ideologia de gênero”?


Convidei a Dani para escrever esse texto porque eu sou muita fã da maternagem dela. Já vi o Augusto brincando de boneca várias vezes e sim, acho absolutamente espetacular porque ainda em 2018 tem muito pai que não deixa o filho ter a festa da Moana, brincar de Barbie ou vestir rosa. Nós tomamos muito cuidado para não “guiar” a Catarina no pseudo-mundo feminino e ela já teve festa de aniversário dos Avengers, escolheu escova de dente do Batman, pediu Hot Wheels de Natal, compra roupas na sessão masculina com a maior naturalidade. Ela nem sabe que existe lado “de menina” ou “de menino”, mas acho que é ainda mais difícil fazer isso com os meninos. O machismo é MUITO presente. Ao mesmo tempo, ela adora bonecas, panelinhas, cozinha (com o meu marido – eu não cozinho!) e assim por diante. Ela é LIVRE para brincar do que quiser e nós estimulamos para que seus interesses sejam os mais variados possíveis.

As pessoas falam muita, mas muita abobrinha quando se referem à tal “ideologia de gênero”. Nem sei quem cunhou o termo, na verdade. Falam como se existisse uma espécie de seita que doutrina as crianças a serem homossexuais ou transexuais, como se orientação sexual pudesse ser ensinada. ISSO NÃO EXISTE! ISSO NÃO EXISTE EM NENHUM NÍVEL! O que existe são coisas como as que eu vi no dia das crianças numa loja de brinquedos: um menino de uns 3 anos chorando porque queria o brinquedo rosa e a mãe levou o azul porque “era de menino”. O que existe são milhões de meninas sendo ensinadas que elas devem ser belas, recatadas e do lar como as princesas e que “aventura” e “ação” é coisa de menino. O que existe são limitações de papeis sociais de acordo com o órgão sexual que a pobre criança tem no meio das pernas e que não tem o menor cabimento em 2018! O que um menino pode “virar” se brincar de boneca? Um bom pai? O que vai acontecer com uma menina que brinca de carrinho? Vai gostar de dirigir? Se interessar por engenharia mecânica, de repente?

Precisamos nos atentar SEMPRE para criar filhos que tenham seus potenciais ESTIMULADOS e jamais LIMITADOS. A Disney (felizmente) não faz mais princesas como antigamente (vide a Elsa e a Moana, musa!), as mulheres ganham papeis de destaque no mundo dos super-heróis (Jessica Jones, Mulher Maravilha…) e você vai ficar aí com essa conversinha desinformada que “ideologia de gênero” é doutrinação de orientação sexual?

Não dá para ser contra deixar as crianças brincarem do que quiserem, vestirem o que quiserem e se interessar pelo que quiserem em 2018!


Qual é a cor preferida do seu filho?

Esta semana, conversando com meu filho de 2 anos e meio, confirmei o que já desconfiava: sua cor favorita é o preto. Já tinha notado a predileção dele ao escolher roupas e sapatos, mas a confirmação veio em forma de frase: “Mamãe, eu adoro o preto!” e de escolha de um look completamente “dark” para ir à escola.

Roupa Dark e boneca na mão

Roupa Dark e boneca na mão

Esta afirmação me fez sentir vitoriosa. Meu filho escolheu sua cor predileta, depois de conhecer muitas, muitas, muitas cores. Digo isso porque desde seu nascimento notei a pobre cartela de cores das quais são feitas as roupas infantis “para meninos”. Quase todas as peças que ele ganhou de presente ao nascer eram azuis. Aquilo me incomodou tanto que tomei uma decisão: eu nunca compraria uma roupa azul para meu filho. Ele usaria somente as que ganhasse porque eu, euzinha, não compraria nenhuma. Afinal existem tantas cores! E assim foi. E tem sido. Dá-lhe bater pernas para encontrar roupas bacanas roxas, amarelas, cinzas, vermelhas, beges, verdes, rosas e pretas.

Durante toda minha vida adulta convivi com muita diversidade. Sou atriz, professora, moro na cidade de São Paulo, já fiz de tudo um pouco, então, conviver com homossexuais, transexuais, agêneros, sempre foi comum. Tenho inúmeros amigos diferentes de mim, ainda bem, rs! E, de muitas coisas que vi e ouvi, o que mais me marcou sempre foi a angústia que meus amigos sentiam em não serem aceitos por sua família como são. O preconceito com o diferente existe e é forte. Mas o que eu percebia era que, para meus amigos, o que importava era a família.

Minha preocupação então, desde que me tornei mãe, foi permitir que meu filho pudesse encontrar em casa um lugar para ser quem ele quisesse ser, um lugar para ele estar em paz. Mas como meu filho poderia saber quem ele é, do que ele gosta, quais seus talentos, se eu não permitisse que ele tivesse acesso a diferentes coisas? Ele pode se tornar o próximo Thiago Soares (bailarino brasileiro) ou o próximo Neymar, quem sabe qual seu talento? Mas se eu apenas apresentar a bola e nunca a sapatilha, nunca saberemos. Se ele só vestisse roupas de cor azul, como descobriríamos sua predileção pela cor preta?

O sexo de uma criança é determinado biologicamente: homem e mulher. Já o gênero é a expressão desta pessoa para a sociedade, e pode ser masculino, feminino ou ter um pouco de cada. Nem sempre uma pessoa do sexo masculino gosta de se expressar com todo o pacote de regras socialmente impostas para o gênero masculino, como o contrário também é verdadeiro. E ó, tá tudo bem! Já ouviu a expressão “menina moleca”? Você consegue imaginar que esta menina se expressa com algumas características masculinas, certo? E o problema disso, qual é? Só aquele que está no nosso preconceito.

“Anatomia é destino”, dizia Freud. Forte, né? Ou seja, a sociedade acredita que reduzindo as pessoas à sua anatomia, é possível determinar suas vocações, potencialidades, limitações. Assim, crianças que nascem com vagina, por exemplo, já recebem um pacote de experiências automático: o quarto é rosa, alguns tipos de trabalho não poderão ser realizados, alguns comportamentos não serão tolerados caso ela queira se casar. Já pensou o quão angustiante pode ser para uma menina não querer esse pacote completo, simplesmente porque ela não se identifica com ele?

Identidade de gênero é um tema controverso atualmente, mas que significa justamente isso: com qual gênero eu me identifico? Freud (1925) questionou a diferença da constituição psíquica da menina e do menino, afirmando são oferecidos elementos diferentes à criança de acordo com seu sexo. Ele percebeu que, quando as crianças recebem os mesmos estímulos, “as reações dos indivíduos de ambos os sexos são mesclas de traços masculinos e femininos”. Assim, estimular a neutralidade de gênero durante a infância, permite que a criança desenvolva todo seu potencial e que possa seguir pelos caminhos que se apresentarem mais seguros e confortáveis.

blog2

Vocês podem se perguntar, oras, mas como vou fazer com que meu filho experimente de tudo? É simples! Permita! Estimule! Deixe os meninos brincarem de panelinhas e vestir a fantasia da Frozen se eles pedirem. Permita que as meninas tenham uma festa de aniversário do Homem Aranha. Os matriculem em escolas que não tenham a prática de: “Ballet para meninas e Judô pra meninos”, escolas que permitam que a criança escolha as atividades extraclasse. Leve sua filha ao estádio de futebol. Divida as tarefas domésticas com o seu filho. Deixe sua filha sair sem laços pela roupa, cabelo e sandália. Permita que seu filho tenha cabelo comprido.

Deixe seu filho descobrir do que gosta, sem preconceitos.

Mostre a ele que o mundo é colorido.

FREUD, S. “Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925). In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1987. v. XIX.

Imagens: arquivos pessoais-Não reproduzir sem autorização 
Meme: a mãe coruja

 

danicircleDANIELA FALCÃO é mãe-solo do Augusto, feminista, viajante desde que soube que o mundo era redondo. Quando criança, sempre dizia que seria médica e depois professora. Deu quase certo, hoje é nutricionista e pedagoga, mestre em Saúde Pública pela Universidad Americana do Paraguai. Leva a vida brincando, literalmente, no Pé no Chão Espaço de Brincar. É atriz de formação e artista cheia de emoção. Só faz e fala aquilo que vem do coração e por isso virou colunista do Mamaholic.


E para quem está falando que nunca viu roupa sem gênero, eu recomendo MUITO a Loja Virtual da Marré Deci.

2 Comentários

Pati Borbolla
Responder 30 de dezembro de 2017

Duas mulheres maravilhosas e um texto que é quase um carinho na alma de quem luta para uma infância livre de estereótipos!
obrigada por mostrarem que não estamos sozinhos!

Aline
Responder 28 de dezembro de 2017

Os estereótipos de gênero limitam taaanto! É um horror! E como vc colocou no texto, esta parte dos estereótipos em roupas e brinquedos é tão difícil para os meninos. A menina que gosta de futebol não é tão motivo de chacota quanto o menino que gosta das princesas. Ir em lojas e procurar coisas de princesas sem ser cheia de babados, mais justas e glitter, totalmente estereotipada, é missão impossível. Quando o menino sai na rua de vestido, o mundo de olhares e sorrisinhos de piada é constante. É duro, pois vai muito além de criar um ambiente seguro em casa sem estereotipagem, pq ela existe na sociedade e temos que ensinar nosso menino que está ok sim ele ser fã da Moana e usar o vestido da Elsa dele em todos os lugares que ele quer, mas infelizmente têm um preço alto a se pagar e o preço é o bullying sem fim que ele vai enfrentar e que temos que preparar ele para isso enquanto ele ainda é apenas um bebê.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios são marcados com "*"