Como saber se meu filho tem algum “transtorno”?


Eu tinha 16 anos quando entrei, como professora, pela primeira vez em uma sala de aula. Eu era professora de inglês em uma dessas escolas grandes de franquias que tão comuns tornaram-se no Brasil nos últimos 20 anos. Uma das minhas professoras preferidas da escola, daquelas em que eu me espelho até hoje, disse-me, pouco antes disso de que eu jamais esqueceria da minha primeira aula. Disse que nenhum professor esquece. “É um pouco como nascer de novo”.

Tendo sempre sido “boa aluna” (não gosto do termo), com família estruturada, comida na mesa, pais amoros, sem problemas com nota ou com aprendizagem, minha primeira aula foi, para mim, uma espécie de choque.

“Mãe, eles não sabem nada do que eles deveriam saber!”

Eu, professora, ainda com o Ensino Médio incompleto, era a mais nova de uma sala com 6 adultos. Todos trabalhavam, tinham vidas massacrantes como adultos normalmente têm e chegavam exaustos e cansados para uma aula de inglês de 1h30 que começava depois das 20h. Tinham trabalhado o dia todo, tomado esporro de chefe, tentado pagar contas e ficado 2h no transporte público sem nenhuma dignidade antes de chegar ali, para que uma pirralha ensinasse inglês para eles de forma que eles pudessem pleitear melhores oportunidades. Era uma turma de básico 2 e eu tinha a mais absoluta certeza de que, assim como eu, que amava línguas estrangeiras, estudava à tarde depois da escola, com a mensalidade paga pelos meus pais – assim como as contas da casa – eles sabiam de cor e salteado o que deveriam ter aprendido no Básico 1.

Não sabiam.

Foi ali que eu percebi, na minha primeira aula, que ensinar passaria obrigatoriamente por enxergar o aluno como um ser individual e, aquele momento de aprendizagem dele como só mais um no contexto de uma vida inteira, de uma pessoa completa. Aprender inglês era um pedacinho ínfimo da vida daqueles adultos assim como aprender redação não diz tudo o que precisa dizer sobre um aluno – embora diga muito. Eu não consigo olhar para o texto dele e saber, por exemplo, se ele é bom em matemática. Se os pais estão se separando. Se ele estava a fim de ir para a escola naquele dia de manhã. Todos somos resultados de milhares de fatores e experiências, inclusive as crianças que vão para a escola.

“Thaise, meu filho vai acabar reprovando. Como saber se ele tem algum transtorno de aprendizagem?”

Lamento dar essa resposta, mas você não tem como saber. Nem eu. Quando falamos sobre condições psicológicas, de aprendizagem, espectros etc etc etc em 99% dos casos não há um exame que faça um diagnóstico certeiro e direto.

“Olha, mãe, estou vendo aqui pelo raio-x que seu filho quebrou o braço…”

Não é simples assim. Em geral, é necessário uma equipe multidisciplinar para que se entenda, acima do que QUAL é o transtorno – se é que ele existe – como é que se pode ajudar aquele aprendiz. Sabe aquela história de que de perto ninguém é normal? É mais ou menos isso. Eu, por exemplo, tenho TAG – transtorno de ansiedade generalizada. O meu transtorno (é tipo um pet, né? rs) nunca me atrapalhou como aluna. Eu nunca deixei de conseguir fazer uma prova por estar ansiosa demais, por exemplo. Mas isso acontece com algumas pessoas. Não necessariamente o mesmo problema terá o mesmo efeito e nem a mesma solução em e para pessoas diferentes. O oposto também é verdadeiro: a mesma dificuldade nem sempre tem a mesma causa.

NÃO HÁ RECEITA DE BOLO. As pessoas são únicas.

Nessa época do ano, em que o cerco aperta e muitas crianças estão à beira da reprovação, eu recebo muitas mensagens por dia com perguntas que exigiriam receitas que eu infelizmente não sou capaz de dar.

Como faço com que meu filho estude?

Como posso fazer com que meu filho se interesse pela escola?

Como sei que ele não tem dislexia?

Como sei se ele precisa da ajuda de uma fono?

Como ajudá-lo a se organizar melhor?

E por aí vai. Eu não tem como ter respostas prontas e não posso ajudar muito sem conhecer a criança.

Em geral, quando a criança está fora da curva a escola é a primeira a sinalizar. Eu percebo isso agora, como mãe, assistindo ao desenrolar da vida escolar da Catarina muito mais do que como professora. Mãe não tem parâmetro. Às vezes a gente acha que está tudo bem e nao está e vice-versa. É normal. Ninguém vai (pelo menos não deveria) te culpar por isso.

Se a escola sinalizar que algo não está bem e encaminhar seu filho a procurar um profissional, leve-o. Parece óbvio, mas é extremamente comum que os pais não deem prosseguimento ao encaminhamento. Às vezes porque não julgam necessário, porque é exagero da escola, porque Fulaninho Jr. é “só uma criança difícil”. Às vezes porque há uma dificuldade financeira, às vezes os pais realmente têm dificuldade em sair em horário de trabalho. Nós sabemos que não é mole. Mas, se houver alguma dificuldade de qualquer tipo, quanto mais cedo ela for descoberta, melhor para todo mundo. Principalmente para a criança.

Se você achar que há alguma coisa e que a escola não percebeu ou não sinalizou, converse com os professores e orientadores da criança. Se ainda assim não estiver seguro, leve seu filho ao profissional que você julga que o atenderia melhor dentro da dificuldade em questão – e vá tranquilo. Se não for caso de fono, por exemplo, ela seguramente te encaminhará para o neuro. Se não for neuro, ele encaminhará para a psicopedagoga e assim por diante. Se você não estiver confortável com o diagnóstico (ou falta de), vá atrás de uma segunda opinião. Está tudo bem.

Não, não é exagero. E sim, já existiam todas essas dificuldades na sua época. Só que não as conhecíamos e simplesmente classificávamos as pessoas como “burras” e “inteligentes” e ficava por isso mesmo. Será que aquele amiguinho que teve a maior dificuldade para ser alfabetizado era feliz? Será que aquele amigo que reprovou duas vezes a mesma série acharia que TDAH é uma invenção da indústria farmacêutica para vender remédio? A ciência avança muito rápido e, felizmente, muitos desses avanços podem ser sentidos na nossa qualidade EMOCIONAL de vida.

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, diversos estudos epidemiológicos realizados internacionamente indicam que cerca de 20% de crianças e adolescentes em idade escolar necessitam de algum auxílio na área de saúde mental (TEIXEIRA, Gustavo:  2012). Isso quer dizer que em uma sala com 30 alunos, 6 precisariam de algum acompanhamento.

Se você acha que seu filho pode ser um desses 6, não espere a época da Recuperação.

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