E se nós já estivermos vivendo tudo aquilo que sonhamos?


No meio de uma atribulada rotina com duas crianças na semana passada – aquele esquema que todo mundo que tem dois filhos conhece: cada pai pega um filho e segue o jogo – perguntei rindo ao Gustavo se ele já havia se dado conta de que tínhamos tudo o que quisemos um dia.

Ele me olhou com a cara de quem realmente não esperava uma revelação dessas enquanto estávamos cada um escovando os dentes de uma filha no banheiro do nosso quarto. Era criança, braços, escovas, espuma para todo lado. Ele realmente não estava esperando uma epifania dessas aquela hora da manhã, no meio daquele fuá todo, correria para chegar a tempo na escola.

“Tudo que a gente sonhou um dia foi isso” – continuei, enquanto ele não sabia se parava para me olhar ou se perseguia a criança correndo pelada pela casa – “Esse caos. Essas risadas. Essa vidinha. Essa família.”

Ele concordou e foi buscar a fugitiva com um sorriso nos lábios. Eu continuei – e continuo – pensando nisso.

Nós sonhamos muito em ter nosso espaço, em fazer as coisas do nosso jeito, no nosso ritmo, com as nossas prioridades. Conversamos muito sobre isso enquanto namorávamos – e enquanto não achávamos um canto tranquilo só para assistirmos seriado ou um espaço na cozinha onde ele pudesse cozinhar tudo o que queria para mim. “Na nossa casa vai ser assim”, “Na nossa casa vai ser assado”.

Um mês antes de ficarmos noivos.

Um mês antes de ficarmos noivos (Foto de arquivo pessoal)

No dia em que sentamos para preencher os papeis do casamento no civil, parecíamos duas crianças bobas. Nós ríamos de tudo. Levamos um tempão para terminar. Ele se enroscava nas datas de nascimento dos pais dele, nós decidíamos como iríamos fazer com nossos nomes. Pensávamos nos sobrenomes dos filhos que um dia teríamos. “Liga para sua mãe e pergunta isso”, “Veja com seu pai se ele tem esse documento”. E ríamos. “Imagina só quando eu chegar em casa e as crianças correrem me abraçar!”, “Pensa quando eu for sentar para explicar algum filme para eles!”.

A gente não sonha com aquele carro na garagem ou aquelas férias de filmes. Quando sonhamos com a nossa família, sonhamos com o dia a dia. Os tradicionais cochilos todos juntos no sofá. Os sorvetes que a gente sai tomar na esquina em uma tarde de sol. A piscina do prédio no horário de verão. O passeio infantil que aquele casal que ia ao bar todo final de semana jamais considerou fazer. A fila para falar com o Papai Noel. Montar a cena do crime do Coelhinho da Páscoa. Ir à reunião de pais. Buscar na escola. Fazer via crucis em festinha de aniversário. Tomar banho todo mundo junto. Brincar de ver quem canta a música da Moana mais alto. Ensinar a fazer mágica. Ficar quietinhos assistindo às crianças fazendo alguma coisa fofa juntas. Ensinar a nadar. Tomar um café da manhã caprichado.

O dia do SIM.

O dia do SIM (Foto de arquivo pessoal – by Tempo Digital)

Era isso o que queríamos no dia em que dissemos SIM.

Sim para a molhadeira no banho, sim para crianças pulando na cama às 5h da manhã de um feriado, sim para a pizza numa segunda à noite para comemorar alguma coisa muito importante como um “parabéns” na lição de casa. Sim para morrer no sofá antes das 20h e para considerar Netflix e qualquer coisa com álcool que não seja Zulu o programa mais romântico do ano. Sim para socializar com todos os pais de criança do prédio e ajudar nas festinhas para que as crianças tenham com quem brincar nos dias de chuva. Sim para os livros sobre desenvolvimento infantil e para as manhãs no parque. Sim para todo o calendário de eventos infantis de uma cidade como São Paulo. Sim para trocar as férias internacionais por duas festas de aniversário por ano.

Aniversário de 4 anos da Catarina

Aniversário de 4 anos da Catarina (Foto de arquivo pessoal – by Campita Fotografia)

Sim para o trabalho de equipe, sim para olhar pro outro e entender quando ele precisa de uma folga. Sim para lembrar de ser parceiro que apoia a viver sonhos e metas pessoais enquanto a gente sobrevive num mar de criança que alaga a casa toda. Sim para a cachorra que late enquanto as duas crianças gritam. Sim para a final de Copa do Mundo que começa quando o interfone toca e não somos mais capazes de ouvir nada. Sim para as crianças que insistem em abrir a porta do banheiro -e ficar por ali- enquanto estamos concentrados no número 2. Sim para termos outras duas pessoas com menos de 1m de altura SEMPRE em prioridade absoluta antes de nós.

Aniversário de 1 ano da Aurora

Aniversário de 1 ano da Aurora (Foto de arquivo pessoal – by Letícia Felix Photo)

SIM, SIM, SIM.

Você já se deu conta do tanto que é feliz HOJE? Você já parou para pensar que em algum momento da sua vida você quis estar exatamente onde está hoje?

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2 Comentários

Aline Kis
Responder 19 de novembro de 2018

Que lindo, amiga! Amei! Reflete muito o meu agora. Um dia eu sonhei com isso que vivo hoje.

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