Meu filho usa fantasia da Frozen. E daí?


Sabe, eu acho que um dos nossos maiores desafios contemporâneos é educar para a liberdade e, principalmente, para o bem-estar emocional. Há 20 anos não se falava em esteriótipos de gênero e nós achamos normal crescer ouvindo que tal coisa era de menino e tal coisa de menina. Nós somos a geração do “Eu comi e sobrevivi”, “Eu ouvi e sobrevivi”, “Eu sofri bullying e sobrevivi” e tantas outras coisas. Sobrevivemos. A que custo? Nunca tivemos índices tão altos de transtornos de ansiedade, depressão, manias. Ainda assim, em 2018, vivo debatendo com gente que não tem noção do que é a chamada “ideologia de gênero” (que nem existe enquanto ideologia, aliás) e confunde tudo. “Estão criando as crianças para que eles escolham se são meninos ou meninas, um absurdo!” – ouvi de uma tia muito querida, muito esclarecida e cabeça aberta boa parte do tempo. “Estão ensinando a ser gay nas escolas, precisamos ficar atentos!” – li no grupo de whatsapp das mães da sala da Catarina uma vez (e obviamente, causei). “Acho que não tem nada a ver deixar uma menina gostar de superherói” – numa festinha de criança para a qual fomos convidados. Se você quer saber mais sobre a ABRE ASPAS ideologia de gênero, já falamos sobre isso AQUI.

Normalmente são as pessoas que engrossam o coro do “mundo tá ficando chato, você não pode mais falar nada”. É, felizmente machismo, preconceito e racismo não são mais bem vistos em 2018.

mundochato

 

E aí que as crianças de 3 e 4 anos já te respondem em bom e claro português que NÃO EXISTE brinquedo “de menino” ou “de menina”. Catarina dá de ombros se alguém diz que ela não pode brincar de carrinhos porque ela é menina. As bonecas ficam ao lado dos Avengers no quarto e nos intervalos entre salvar o mundo e proteger a humanidade, dá tempo de todos conviverem pacificamente para a hora do chá e brincarem de comidinha.

Mas ela é menina.

Isso quer dizer que, por algum motivo, é um pouco mais OK a minha filha brincar com o Hulk do que um amigo da mesma idade brincar de Frozen. Por que fazemos isso, gente?

A Aline é uma leitora do meu blog de noivas que ficou minha amiga. O insta dela é um dos poucos que eu sigo com fidelidade canina porque eu simplesmente AMO ver a maternagem dela. O Pandinha, seu filho, é uma criança livre para brincar. Um dia, teve vídeo com ele cantando e dançando Let it go. Outro dia, fotos da sua festa da Moana. Afinal, princesa é coisa de menina ou é coisa de criança? Ele não tem a menor dúvida. No meio tempo, aprende que homem chora sim, que não precisa ser um ogro para ser “macho” (uiiii), que homem também sabe cuidar de bebê. E assim eles seguem, felizes. Nem aí pras limitações alheias.

Meu Batman (porque ela não quer ser a Batgirl – não tem graça!) com sua capa saúda seu Pandinha de tutu, Aline. E que eles possam continuar brincando juntos. Living long and prosper!


 

O outro lado da moeda

 

Estamos em um momento muito bacana de empoderamento de nossas meninas. Finalmente elas estão escutando que podem muito mais do que sempre foi imposto para elas. Esta é uma discussão importantíssima que demorou muito para ocorrer, mas que felicidade que é ver este grupo lindo de meninas que está crescendo e aprendendo que elas podem sim ser sua própria heroína. Elas não precisam ficar sentadas em suas torres aguardando pelo seu príncipe encantado no cavalo branco. Até no mundo do entretenimento o papo está mudando, mesmo que muito lentamente. Por exemplo, deem uma olhada na última “princesa” da Disney: Moana nem tem par romântico em sua história.

No entanto, como coloquei ali no título, tem o outro lado da moeda e estereótipos de gênero também afetam muito os meninos e eles estão meio de fora deste momento de quebra de estereótipos.

Não estou aqui pra dizer que as coisas são piores para um gênero ou para outro, quero apenas chamar para reflexão sobre como os estereótipos de gênero,  que são construções sociais das expectativas do que é ser feminino e masculino com base na nossa cultura e história, amarram e prejudicam os meninos de uma forma diferente, mas não menos pior. Nossa cultura é enraizada no machismo e este machismo afeta todos os sexos e gêneros de forma absurdamente negativa.

No excelente documentário “The Mask you Live in,” a cientista política e educadora Dra. Caroline Heldman,faz um comentário que sumariza bem o que quero falar neste post. Ela diz: “a masculinidade não é orgânica. Ela é sobre negar qualquer característica considerada feminina” (tradução literal).

Parem para refletir: uma menina para ser considerada masculina precisa demonstrar um conjunto de posturas e comportamento, o menino basta um único traço e ele já passa a ser vítima de chacota e é visto com “menininha.” Exemplo prático: se uma menina gosta de futebol, ninguém vai fazer piada. Vão aparecer aqueles para dizer que ela não gosta e não entende futebol, mas ninguém vai duvidar de sua feminilidade. Basta um menino gostar de Princesa que ele vai ser motivo de piada e sua masculinidade vai ser colocada em cheque. Outro exemplo: mulher-macho é um elogio, homem afeminado é xingamento. Isso afeta os meninos de uma forma bem complexa, ensina para eles que eles precisam suprimir emoções comumente atribuídas às mulheres e junto com qualquer coisa que seja minimamente associado ao feminino, além de ensinar também que mulher e tudo ligado ao feminino é inferior.

É difícil desconstruir estes conceitos enraizados do que é cada gênero, mas é fundamental para alcançarmos uma sociedade melhor para todos.

Eu cresci sem me enquadrar nos estereótipos de gênero, não completamente. No geral, não posso dizer que as pessoas não me viam como menina, eu estava dentro do limite social aceitável de “gostar de coisas de menino,” mas eu não era a mais feminina e as pessoas ainda me veem assim na vida adulta. Um bom exemplo disso é que quando estava grávida, mesmo sem saber o sexo do meu bebê, ouvi de diversas pessoas que eu tinha perfil de mãe de menino. Alguém aí sabe dizer o que é este perfil sem cair nas armadilhas do estereótipos de gênero? Pois é!

Quando viramos mães (e pais), criamos algumas expectativas do tipo de maternagem que vamos exercer e uma das coisas que eu e marido sempre tivemos muito certo por aqui é que queríamos educar nossas crianças livres das amarras dos estereótipos de gênero. Lógico que sabíamos que não seria simples e agora com meu filho já com três anos, podemos afirmar com absoluta certeza que é muito difícil.

Muito se fala sobre criar com crianças com gênero neutro, mas a nossa sociedade não dá espaço algum para isso.  Ainda existe cor de menina e cor de menino, brinquedo de menina e brinquedo de menino, roupa de menina e roupa de menino e todo o resto que vocês estão carecas de saber. Portanto, não adianta apenas eu desconstruir o conceito dos estereótipos de gênero em casa sem mostrar para meu filho que eles existem. Eu não posso simplesmente mostrar para meu filho que ele pode usar e se comportar fora da caixinha sem que ele vire vítima de preconceitos, bully, seja excluído e tudo que a gente sabe que acontece com quem está fora do que se é esperado para uma pessoa que nasce com um pênis. Tarefa muito difícil né?! Quem quer que o filho seja vítima de tudo isso aí que falei? Mas, ao mesmo tempo, eu sei que se continuar com esta história de estereótipos de gênero, ele vai sofrer outros problemas e vai ser um ser humano que não vai entender e lutar por equidade.

Vamos trabalhar como formiguinhas. Nosso pequeno é livre para brincar com qualquer brinquedo e promovemos oportunidades para que ele explore sem preconceitos. Esta foto é dele ao alimentar a “nenê” dele, isso com menos de 2 anos de idade.

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Ele tem essa boneca desde antes de nascer. Ele a coloca para dormir, dá comida, lê livros. Deixamos que ele brinque livre e, com este brincar, ele aprende que cuidar também é papel dele e não só de menina.

Sabe quais as personagens de filme preferidas do meu filho? Moana, Elsa e Anna. Acho muito bacana que meu filho admira personagens femininas que são fortes e independentes, mas a sociedade não pensa igual não. Deixa eu contar um causo rsrs Fomos a loja da Disney e combinamos com nosso filho que ele poderia escolher um único produto como presente. Ele escolheu literalmente o impossível: uma camiseta da Moana. Reviramos a loja e não encontramos. Ele foi embora sem nada e triste. Ele não quis trocar por outra coisa, ele queria uma camiseta da Moana. Vejam bem, eu não tenho problema em meu filho utilizar coisas “femininas,” mas vocês já viram as camisetas para as meninas? Elas são todas justas. As coisas voltadas para meninos têm o Maui e meu pequeno queria uma camiseta da Moana.

Sabe qual foi o tema da festa de aniversário dele? Moana :-) Compramos saias de hula e colar havaiano para todas as crianças. Ficou bem na porta para todo mundo ver e colocar se assim o quisesse. Meu filho foi o único menino da festa com saia de hula.

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A melhor amiga do meu filho também ama as personagens Elsa e Anna. Por um longo período, o vestido da Elsa era tudo que ela vestia e quando íamos visitá-la, meu filho colocava o vestido da Anna. Foi desta interação + uma promoção das lojas Disney que marido e eu decidimos o presente do último Natal do nosso filho: ele ganhou os vestidos da Elsa e da Anna. Vocês não imaginam a felicidade dele ao abrir os presentes e encontrar os vestidos. Esta foto é ele e sua BFF fantasiados de Elsa assistindo Rei Leão.

ideologia de genero

Já me perguntaram se eu não achava que ele usar vestido não era um pouco demais. Minha gente, criança gosta de se fantasiar. Qual a diferença entre uma fantasia de cachorro e uma de princesa? Nenhuma! Colocar um vestido vai causar exatamente o quê nele? Alguma mulher parou de ser mulher quando as calças passaram a ser utilizadas por pessoas do sexo feminino? Escocês é menos homem quando coloca kilt?

Vocês já viram o Darth Vader com saia de tutu colorida? Aqui tem também!

menino de tutu, machismo

E o que estou ensinando com isso? Esta é só uma fração da nossa missão como pais de ensinar meu menino que em casa, ele é livre e vamos respeitá-lo e apoiá-lo para lutar com este mundo que vai tentar amarrá-lo o tempo todo. Que ele pode sentir as emoções que não são apenas de raiva. Que um pênis não faz dele superior a ninguém. Como comentei, trabalho de formiguinha, mas com a certeza de que estou sim dando a oportunidade de meu filho continuar se desenvolvendo como um ser humano incrível!

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ALINE SOUZA é uma biomédica paulistana expatriada: foi para os EUA estudar e nunca mais voltou para ficar. Fez carreira e família por lá. Acredita em escolhas embasadas cientificamente e, por isso, o publimed é seu pastor e ela é praticamente a consultora de evidências científicas aleatórias do Mamaholic. Tem seu próprio blog, o Neuroses de uma Expatriada. Clique AQUI para ler.

 

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Vídeo MARAVILHOSO do Diário de Mika sobre brinquedos “de menino” e “de menina”:

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