Se meu filho não te conhece, pare de pedir beijos!


Há umas três semanas, passei por uma situação muito desagradável. Ao chegarmos na casa da minha mãe com a Catarina e a Aurora, havia uma pessoa lá que só conhece as meninas de vista. Ela conhece as meninas de vista, mas as meninas nem a conhecem. As duas amam ir à casa da minha mãe e chegam pulando no colo da avó e do avô com muito amor, carinho e felicidade. São os avós, né? Meus pais são avós muito presentes, que cuidam das meninas, mimam, dão presentes, fazem tudo o que elas querem. Catarina nem pensa duas vezes se tiver que escolher entre ir à Disney ou à casa da vovó e Aurora está indo pelo mesmo caminho.

A pessoa se abaixou e ficou insistindo para a Catarina:

-Dá um beijo na tia…

Catarina visivelmente desconfortável. Nós batemos muito na tecla de que não é para conversar com estranhos, muito menos trocar carinhos. Frescura? Não.

SEGURANÇA.

Como você protege uma criança do tanto de gente do mal solta por aí se passa a mensagem de que está tudo bem ter atos tão íntimos como abraçar e beijar uma pessoa que ela não conhece?

-Dá um beijo na tia, Catarina! – a pessoa insistiu.

-Ela não te conhece… – respondi tentando livrar a minha filha daquele embaraço todo.

-Aiiii, dá um beijo na tia, Catarina! – a pessoa continuou insistindo.

Meu sangue subiu. QUE INFERNO. Eu estou aqui tentando ensinar a regra número 1 de proteção infantil e tem um adulto insistente mais preocupado em saciar SUA vontade de fofura do que no aprendizado, na segurança e, principalmente, no bem-estar da minha filha que estava claramente desconfortável com toda aquela situação.

-Pare! Não faça isso! – eu insisti bem firme – eu já disse que ela não te conhece!

Muito mal-estar, lógico. A pessoa se levantou e saiu. Foi embora, visivelmente ofendida. Minha mãe ficou com vergonha. Gustavo veio me dizer que eu não precisava ter feito cena, que a Catarina não iria dar beijo nela mesmo que ela insistisse muito.

Existe muita coisa que a gente ensina de contrato social para uma criança. A gente ensina que é preciso pedir por favor, com licença, dizer obrigado. A gente ensina a viver em sociedade. Ensina que amanhã é o aniversário do fulano e não o da criança, portanto quem ganha presente é ele. Mas ensinar uma criança a beijar quem ela não conhece não é educação, É PERIGOSO.

E é muito sem noção. Você sai abraçando e beijando pessoas aleatórias na rua? Não, né? Por que cargas d’água uma criança precisa fazer isso? Em que planeta sair agarrando pessoas que você não conhece é socialmente aceito? Não é. Além disso, nós temos discernimento para decidir se algo é absurdo ou socialmente aceitável. Minha filha de 4 anos não, ela conta com a minha leitura de mundo para saber se pode ou não fazer alguma coisa. E eu não posso ficar criando exceções. Se eu disse para ela que ela não deve nunca aceitar carinhos de um estranho (ou carinhos estranhos) e que deve sair correndo e contar para a mamãe na hora, o que ela entende se começo a abrir exceções?

crianças desrespeitadas

E gente, sério. Eu entendo que as pessoas não façam de má-vontade. Mas deve ser um horror ser criança. Os adultos estranhos se acham no direito de falar e instruir crianças desconhecidas o tempo todo. No mercado, Catarina precisa andar desviando dos velhinhos que querem beijo, pegar, abraçar. A mão da Aurora parece pública. Aquela mão que vai para a boca o tempo todo, sabe? E as pessoas oferecendo doce? Acontece sempre. Oferecem para ela. Sem saber se aquilo é algo que ela come, se ela tem algum tipo de restrição alimentar. Se engasga. Se ela vai almoçar em 10 minutos. Não é por mal, eu juro que entendo, mas é muita falta de noção. É um desrespeito total ao espaço individual da criança. A criança é criança, mas nunca deixou de ser pessoa! Imagine um adulto em todas essas situações e você vai entender como são absurdas! Imagina um velhinho ficar pegando na minha mão no mercado. Ou ameaçar me segurar para que eu não corra na calçada. Se eu, mãe, deixei minha filha correr na calçada (porque nós temos regras de até onde ela pode ir ou onde tem que parar, por exemplo) por que cargas d’água um estranho tem que parar a minha filha na rua e dizer para ela que não pode correr?

PODE CORRER SIM. PODE CORRER MUITO. Até porque eu conheço a educação que dou para a minha filha, o perfil dela, a habilidade de compreender que ela tem e eu sei que ela vai seguir à risca tudo o que combinamos. E se não seguir, eu estou logo atrás para gritar “Catarina!” e ela voltar para perto de mim.

Na mesma cesta estão os adultos que querem “contar segredos” no ouvido das crianças. Gente, como isso é comum! Não façam isso! Crianças adoram segredos, faz parte do momento de desenvolvimento deles. Eles transformam qualquer informação trivial como “vai ter carne no almoço” em um grande segredo. Olha o perigo! A gente gasta muita saliva explicando que não pode ter nenhum segredo com o papai e com a mamãe e vem um adulto consciente e faz isso. Frescura, né? Pois saiba que a primeira coisa que alguém que abusa do seu filho pede para ele é segredo. As crianças precisam entender que toda vez que alguém pedir para ela guardar segredo, ela tem que correr e contar para o papai e a mamãe.

Ensinar CONSENTIMENTO para uma criança tão pequena é uma coisa muito difícil. E eu fico INCONFORMADA que os adultos atrapalhem tanto por puro egoísmo. “Porque eu quero um beijo”, “O que custa dar um abraço na tia?”, “Vem aqui que vou contar um segredo no seu ouvido!”.

Pode custar a leitura da criança de que uma situação de perigo real seja anormal. E isso é infinitas vezes mais importante do que o seu bel-prazer de adulto, pessoa da relação com compreensão global.

educação sexual

Ler situações é bem trabalhoso e muitas vezes entendemos errado até quando somos adultos. A gente acha que uma pessoa quis dizer uma coisa e ela disse outra. A gente acha que a pessoa ficou chateada e ela não ficou. A gente acha que vai abafar e nem ligam para o que fizemos, enfim. A gente faz leituras erradas das situações em que nos colocamos o tempo todo. O TEMPO TODO. Pense só a dificuldade que uma criança de 3, 4, 5 anos tem. E agora pense na importância de saber se proteger em um dos países do mundo que mais estupra crianças.

Se a minha filha vai parecer mal educada com um adulto sem noção é a menor das minhas preocupações.

Obs.: Acho que vale a pena dizer que isso é educação sexual infantil, coisa pela qual, por pura ignorância, as pessoas se posicionam frequentemente contra.

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